Ilustre e anônimo

A década de 1980, em termos de mercado editorial, obteve um registro histórico, inegavelmente, por razão da abertura política. Verdadeira profusão de títulos. Tudo que, até então, estivera proscrito pela censura, retornava às livrarias. Curiosamente uma editora despontava. Vinha pela chancela da turma do Pasquim.

Lembro que o nome me acionava inumeráveis possibilidades de significados. O nome Codecri me intrigava. Somente algumas décadas depois, finalmente, lia em Paulo Francis a “decifração do enigma”. Tratava-se de Comissão de Defesa do Crioulo.

Em verdade, a editora esbanjava, à época, espécie de pole-position no ranking daquelas campeãs de venda – imbatíveis. Basta lembrar: O que é isso companheiro, Zero; títulos arrebatadores em vendas.

Mas em outro momento, havia títulos, no caso, fora da avalanche editorial. E um livro me chamara atenção. Transumanas. Uma despretensiosa forma que um eclético mineiro lançava como um livro-mescla de poesia-crônica-microconto, tudo junto e ordenado.

Paulo Mendes Campos, com sua veia altiva e sempre alerta, nos presenteava com “máximas e mínimas”, dribles e gingas, chapéus e trivelas, como um verdadeiro craque perante a grande área da Vida.

Egresso do supertime de mineiros radicados (ou radicalizados?) no Rio, Paulo Mendes Campos atuava meio que à sombra. Mas nada devia àquela famosa linha média mineira: Sabino-Otto-Pellegrino. Anteriormente à edição de Codecri, ele já nos presenteava com o belíssimo Os bares morrem numa quarta-feira.

Sua performance literária obedecia ao fatal parâmetro de todo poeta. A tradução, o convívio com a fina flor dos mestres e suas obras. Mas sempre longe dos enganosos holofotes da fama. Agindo sempre de estratégia correspondente à trama mineira; em silêncio. Para singelamente homenageá-lo, percorri algumas páginas de seu livro, sob a chancela da Codecri, o supracitado Transumanas.

 

Destaco a página 42. Título:

Canto e Conto: duas ferramentas.

“Use a condução do poema

Só quando a velocidade da tua visão

Não der para viajar em prosa”

 

E a página 91. Título: Hoje

“Somos todos os sobreviventes do Ontem.”

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