Maria Bueno: Espelho sem rosto

No dia de suas aflições, os vivos

serão levados pela mão dos mortos

para a morte horrível. Da cidade

não ficará um garfo, aqui uma

panela, ali uma xícara quebrada,

ninguém informará onde era o

túmulo de Maria Bueno.

(“Lamentações de Curitiba”, Dalton Trevisan)

 

 

 

A memória, e tanto pode ser a memória individual como a memória coletiva, joga unida ao tempo e ambos vão construindo as camadas de uma história, suas articulações e entendimento como num sistema coeso. O mito de Maria Bueno, a “santa popular de Curitiba”, a história da mulher degolada de maneira brutal em fins do século 19, arisca-se a afirmação de que foi o primeiro grande feminicídio registrado em Curitiba. Sua história, que mescla fatos verídicos e ficção, chama a atenção de todos há muitos anos pela violência e repercussão que resultaram na significativa romaria de pessoas em busca de milagres diariamente visitando a capela no Cemitério Municipal de Curitiba, onde dizem estar o corpo. Ali, encontra-se uma profusão de santinhos, fitas e imagens, na tentativa de fazer reviver a história de Maria da Conceição Bueno, a narrativa trágica e bela dessa mulher, fato histórico ou lenda, que aos poucos foi ganhando mais e mais espaço no imaginário popular.

São fragmentos desconexos da história real, que por sua força humanamente verdadeira ainda permanecem encobertos pelos véus e brumas que nos distanciam dos mais de 120 anos passados desde o brutal assassinato de Maria Bueno. A impressão que se tem é de que, com o passar do tempo, o que antes era apenas um rumor em dia de finados, transformou-se na inquietação de muitas histórias que cercam mais e mais a figura da “santa popular de Curitiba”. Observa-se que, ao longo desse tempo, o movimento e o interesse por sua história e seus milagres aumentaram e ganharam a força do público, não apenas pelo número de pessoas que invadem o cemitério no 2 de novembro, mas pelo surgimento de textos, teses e tentativas de iluminação dos fatos.

Maria Bueno é o espelho onde a imagem não se revela, não se reflete, é um espelho-enigma onde entrevemos as sombras do passado. O mundo como espelho que proporciona um rimbaudiano estado poético para exercitamos a máxima do nosso eu-é-um-outro. A palavra espelho vem de speculum e originalmente especular era observar o céu e o movimento relativo às estrelas com o auxílio de um espelho. Mas todo espelho também evoca a magia, a possibilidade de reconhecimento, não somente do indivíduo, mas da instância coletiva. Pode ser o espelho da alma ou o espelho mágico que permite ler o passado, o presente e o futuro e que também esconde o lugar onde é “ponto cego”. A memória reflete, desse modo, o tempo do espelho mágico, com seu tecido tramado pelo sussurro de muitas vozes anônimas ou não, que vão construindo fatos e produzindo um ambiente fértil para a imaginação.

Na história de Maria Bueno, a cidade vai configurando um mito urbano onde existe a ideia de um rosto e uma narrativa controversa, onde existe também a tentativa de construir um retrato falado, algo ou alguma coisa que dê conta da força que seu espelho cego carrega, ainda que seja apenas a hipótese de um retrato. É que precisamos imaginar, e a memória é a nossa certeza maior da existência. Maria Bueno é o espelho de muitos rostos, pois quase tudo em sua história, ou nas muitas histórias sobre ela, foi construído para mitificá-la ou desmitificá-la, construir e desconstruir. E haveria sido Platão que, ao duvidar dos deuses, cria uma nova significação para a ideia de mito enquanto fantasia imaginada ou questionável.

A fixação da memória surge sempre a partir de uma matriz que se faz e se desfaz, se tece e destece, através da narrativa popular, e “quem conta um conto aumenta um conto”, ou… subtrai; percebe-se aí que valores morais e sociais de cada época, interesses e idiossincrasias pessoais agregam-se em busca do atestado de uma mínima verdade que seja através do fio de uma trama que se desenrola, mas que de repente se perde e se encontra novamente em algum outro ponto.

No caso de Maria Bueno, existem poucas provas documentais que atestem verdadeiramente sobre sua vida pessoal e origens, e, por essa razão, surgem várias direções e pistas para seguir. O único testemunho que poderia se apresentar verdadeiramente crível, o processo de julgamento de sua morte pelo soldado Ignácio José Diniz, desapareceu, e aí as versões correm ao sabor do tempo.

Certa vez, uma senhora responsável pelos cuidados com a capela de Maria Bueno, no Cemitério Municipal de Curitiba, me segredou saber onde estariam papéis, certidões e processos da vida e da morte de Maria Bueno que teriam sido comprados por um devoto colecionador de relíquias. Em outras ocasiões, afirmou ter visto esses documentos, mas nada se confirma, nada aparece, os fatos são um mistério que dão margem a um processo de recriação narrativa desse mito que vai se moldando e se fixando a cada pequena romaria diária que se forma na capela de seu túmulo.

No caso de Maria Bueno, devoção e fé cega seriam as expressões mais concretas, por mais paradoxal que possa parecer, para dar conta da veracidade de sua existência, alimentada pela presença inquestionável da fiel romaria, que é seu espelho-outro, movido por desejos, anseios de felicidade (ou de infelicidades) e amores. O retrato de Maria Bueno é o retrato do povo, mas a sua história é um conjunto de indagações.

Juntando pedaços, aqui e ali, cada qual constrói uma narrativa, entre as muitas versões do que pouco se sabe. Alguns fatos, por exemplo, publicados em jornais da época registram que a antiga Rua Campos Geraes, hoje Rua Vicente Machado, foi o local em que Maria Bueno foi assassinada. Na época era uma pequena mata e havia um grande banhado, o Rio Ivo, onde as lavadeiras da Rua Saldanha Marinho iam lavar as roupas da freguesia. O primeiro registro sobre Maria Bueno foi uma crônica de 30 de janeiro de 1893. A notícia do Diário do Comércio dizia que “uma moça de cor parda havia sido assassinada numa travessa da Rua Campos Geraes, tendo a cabeça completamente separada do corpo e fundos talhos de navalha nas mãos”.

A notícia descreve Maria Bueno como uma “mulher de vida alegre, mas inofensiva criatura, de quem a polícia não tem a menor queixa em seus arquivos”. O assassinato chocou a cidade pela violência e, na manhã seguinte, um domingo, junto a um muro da rua, seu corpo ensanguentado haveria permanecido por horas no local onde o crime aconteceu.

O lugar era afastado, havia algumas casas de família, algumas casas da região do meretrício. Apenas em 1948 surge o primeiro relato histórico registrado por Sebastião Isidoro Pereira. Segundo ele, “Maria da Conceição Bueno seria natural de Rio da Prata, no município de Morretes, nascida em 8 de dezembro de 1864, dia de Nossa Senhora da Conceição”. Maria Bueno, já em Curitiba, segundo Pereira, “empregou-se como doméstica. Era uma bela morena, bem apessoada e muito assediada. Cinco anos mais tarde, Ignácio José Diniz, um de seus admiradores, apaixonado e tomado de ciúmes tirou-lhe a vida.” Numa outra versão, Maria Bueno seria prostituta e haveria sido proibida pelo soldado Diniz de ir ao bordel e, desobedecendo à ordem, foi degolada. Haveria ainda outra versão em que Diniz, sendo apaixonado por Maria Bueno e não correspondido amorosamente, haveria lhe degolado por ciúmes.

Há rumores de que, anos depois do crime, a polícia abriu o caixão e seu corpo permanecera intacto e seu vestido se transformara num vestido de noiva. Ouve-se dizer também que o túmulo haveria sangrado algumas vezes. As diferentes versões retratam Maria Bueno ora como uma mulher simples do povo, lavadeira pura e honesta, que morreu defendendo sua honra, ou como uma mulher independente, que desafiava os costumes e a moral. Em sua grande maioria, os relatos da vida dos santos, na Legenda Áurea, descrevem um sofrimento que se configura conforme fatos no tempo e no espaço da moral e do poder em cada época. Por exemplo, os santos eram inicialmente martirizados por afirmarem sua fé em Cristo e posteriormente, na Idade Média, instâncias do poder passam a perseguir a todos aqueles que negassem a fé cristã.

As diferentes versões da história de Maria Bueno atestam as contradições coletivas do grande espelho, refletem desejos e idealizações, e há um traço comum, para além da afirmação e da negação: a exaltação do sofrimento cristão, na repetição que funda o mito do mártir e do êxtase que nos alcança através do desejo de salvação.

Curiosa é a informação de que, na época do crime, os padres da Igreja Matriz se recusaram a encomendar o corpo de Maria Bueno, que não pode ser enterrado no Cemitério Municipal. A razão, segundo duas versões diferentes, seriam a de que, primeiro, Maria Bueno frequentaria outra religião, possivelmente a umbanda, ou que, na segunda versão, seria prostituta, o que não lhe daria o direito de receber o sacramento dos mortos. O sepultamento haveria sido feito próximo ao local do crime, numa cova rasa protegida apenas por uma pequena cerca. Foi nesse lugar onde se iniciou o que veio a ser, posteriormente, a sua romaria. Na época, flores e velas acesas passaram a ser colocadas no local e rezava-se pela alma da vítima, a mulher que havia sido tão brutalmente assassinada ali.

Começam aí a surgir os primeiros relatos de milagres. Anos mais tarde, seu corpo foi supostamente transferido para a cova dos indigentes, a “cruz das almas”, ao fundo do Cemitério Municipal, e, apenas em 1961, os seus restos mortais foram levados para a capela do mesmo cemitério, onde se encontram até os dias hoje. Quanto ao assassino, o soldado Ignácio José Diniz, foi absolvido pela justiça da época e, não se sabe ao certo, sob quais argumentos da defesa. Um ano depois, em 1894, foi fuzilado por Gumercindo Saraiva, um dos líderes da Revolução Federalista, sendo o fato considerado pelos fiéis como um dos primeiros milagres de Maria Bueno como santa “não canônica”.

Do mesmo modo, é interessante observar os santinhos recolhidos no cemitério ao longo de alguns anos. Muitas modificações ocorrem na fisionomia de Maria Bueno, os mais antigos trazem-na quase negra, como supõe-se que seria de fato, contrastando com os mais atuais, onde ela aparece com os traços de uma mulher supostamente branca. Ou seja, a matriz original vai deformando e reformando o mito, conforme interesses “oficiais”. À medida que a narrativa e suas versões vão-se incorporando à realidade urbana, a romaria vai crescendo, começa a haver mais interesse. A presença cada vez maior de pessoas, inclusive de religiosos da Igreja Católica na romaria, vai alterando e transformando a matriz da antiga mártir popular em objeto de interesse que se reverte em atestado de fé oficial, ou seja, para esses novos parâmetros, é mais interessante que a “santa” Maria Bueno seja uma mulher branca e pura, o que lhe confere mais credibilidade quanto à possibilidade de canonização aparentemente já demonstrada pela igreja oficial.

Este é apenas um recorte entre muitos que alinhavam fatos tidos como reais aos da ficção, fatos que denunciam a violência da qual as mulheres são vítimas há séculos, bem como o entrelaçamento de vozes vicárias que se alternam para dar rosto a um espelho inquietante, para compreender o mistério mágico do eterno e trágico feminino por meio da memória de Maria Bueno, santa popular, alma sem rosto da cidade.

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