Napoleão invade Portugal; Paranaguá festeja

Jamil Snege nasceu em Curitiba em 1939 e morreu em 2003. Sociólogo e publicitário, é considerado o melhor escritor de sua geração no Paraná. Escreveu vários livros, entre eles “O jardim e a tempestade”, romances como “Tempo sujo” e “Como eu se fiz por si mesmo”.

 

 

 

Antes de mais nada, uma consideração: o título acima induz a grave erro. Faz supor que as duas ações estejam ligadas no tempo. E que a segunda é uma consequência da primeira. O que levaria um leitor mais apressado a concluir que Paranaguá comemora com festas a invasão de Portugal pelas tropas do general Junot.

Nada mais falso e nada mais verdadeiro. Falso, porque Paranaguá jamais faria uma coisa dessas. Verdadeiro porque, se considerarmos que o ponto e vírgula do título equivale a um período de 200 dias, foi exatamente o que Paranaguá fez. Para que o nexo causal entre as duas ações torne-se claro, façamos uma tentativa de repor cronologicamente o espaço que o título elidiu.

27 de novembro de 1807 – com o exército de Napoleão às portas de Lisboa, a família real embarca na esquadra que a trará ao Brasil. A fuga é um espetáculo deprimente. Dona Maria I, a rainha louca, solta gritos alucinados quando a retiram do coche e a conduzem a bordo. À margem do Tejo, vários curiosos assistem ao escandaloso sequestro da soberana. D. João e seu séquito apressam-se a embarcar, temendo piores consequências.

19 de janeiro de 1808 – a esquadra chega à Bahia. Honras ao príncipe regente, que se instala provisoriamente e, a 28 do mesmo mês, promulga o decreto que abre os portos do Brasil aos estrangeiros.

7 de março de 1808 – a família real chega ao Rio de Janeiro, onde se instala definitivamente. Uma das primeiras preocupações de D. João é comunicar às nações da Europa os motivos que o compeliram a transferir-se para o Brasil. Declara guerra à França e prepara a invasão da Guiana Francesa. À medida que (lentamente) se propagam as notícias, festas e comemorações em homenagem à família real organizam-se em todos os cantos.

11 de junho de 1808 – Paranaguá, cabeça da 5.ª Comarca de São Paulo, não pode deixar por menos. Depois de longamente ensaiadas, começam as festividades alusivas à chegada da família real. São dez dias de folganças e festanças, aos quais não faltam momentos de contrição religiosa e de garbo militar. As engomadeiras trabalharam com afinco alisando uniformes e sotainas. Por toda parte bruniu-se o metal, lustrou-se a madeira, escovou-se o mármore. Apararam-se guedelhas, frisaram-se bigodes e cabelos, os boticários mal venceram a demanda de sabões e águas de cheiro. À exceção dos mangais, corruptos por natureza, Paranaguá inteira recendia a flor e incenso.

As comemorações iniciaram-se com uma missa cantada na igreja Matriz, seguida de sermão, Senhor exposto e Te Deum. O coral Asa Branca fez uma de suas mais pungentes apresentações, arrancando lágrimas e aplausos da multidão. No dia 13, com a presença da nobreza, dos oficiais da Câmara, das Justiças e das Milícias, estes últimos aprumados em suas vestimentas de gala, representou-se ao ar livre a comédia Ézio em Roma. Esse belo espetáculo de arte teatral não chegou ao esperado desfecho porque forte aguaceiro açoitou a vila, afugentando atores e público para debaixo dos abrigos. A elegância das damas, com os pezinhos de verniz molhados, sob árvores que vergavam e o inclemente vento que lhes arrebatava os mimosos chapéus da cabeça, porém sem um ai de lamentação, fez notar a todos o quanto nossas belas são sensíveis às artes.

No dia 16, já refeitas das inclemências do tempo, alvos dentes emoldurados por cintilante carmesim, puderam as damas deleitar-se com o desfile dos oficiais do Regimento, que passaram diante delas uniformizados de branco e com suas alabardas em riste. No dia seguinte, a arena engalanou-se para receber as cavalhadas e escaramuças, nas quais mais uma vez os valentes cristãos bateram os traiçoeiros ginetes mouriscos. No dia 18, pelos oficiais do Regimento de Milícias, representaram-se a Comédia de Zenóbia e alguns entremezes que obtiveram do seleto público consagradora ovação.

Como se a família real ainda não estivesse assaz homenageada, foram encenadas, no dia 19, à custa dos oficiais inferiores do Regimento, a comédia Porfiar errando e a hilariante Pantomima dos alfaiates, sob a competente direção do guapo primeiro-sargento Antonio Vieira dos Santos, que muitos anos depois enriqueceria a historiografia paranaense com as suas famosas “Memórias”.

Pudesse D. João estar presente, ou mesmo sua louca mãe e rainha Dona Maria, por certo atestaria que nenhuma outra festividade suplantou em garbo e brilho, ordem e asseio, aquela com que lhes festejaram a chegada os habitantes de Paranaguá.

A única nota dissonante, se é que podemos eleger uma, foi dada pelos cavalos. Padecendo aquelas alimárias, como nós, dos mesmos vácuos do trato intestinal, mas não tendo, porém, como nós, controle e observância às regras da boa educação, houvera, por deixar que, num arranque ou galope em que eram mais exigidos pela porfia que representavam – cristãos versus mouros –, lhes escapassem uns pérfidos flatos, estrepitosos e ruidosos, que, se por um lado causavam constrangido rubor na face das senhoras, por outro faziam a alegria da turba ignara que, ao responder com imitações vocais àquelas ventosidades, o faziam com tamanho exagero e insistência que aquilo provocou, não obstante uns risinhos à socapa, a enérgica reprovação dos que para ali se dirigiram portando a fina educação recebida no berço.

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