Ruins da cabeça ou doentes do pé

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

                                                              

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(“Pneumotórax”, Manuel Bandeira)

 

 

 

Estou convencida: não há assunto que esses doidos que transitam pela MPB não consigam tratar.

Num momento de ingenuidade, para não dizer ignorância, achei que eles se dedicavam apenas àquelas coisas da alma. Os lances das saudades, traições, amores, ilusões, lembranças e por aí vai.

Mas não! Não mesmo! Os companheiros da música popular tratam também dos distúrbios do corpo. Falam, veja só, de doenças.

Se não soubesse dos impressionantes talentos que emprestam seus gênios a esse universo inesgotável que é a música popular, poderia tratar como inacreditável o fato de uma dorzinha aqui ou ali poder inspirar tanta coisa bacana.

A MPB não é para fracos!

Convido você para fazer essa viagem meio Grey’s Anatomy meio Plantão Médico por nossa música. Venha tranquilo, não é preciso nem uma simples aspirina.

Meu ponto de partida é a completíssima das doenças, “O pulso”, composição dos titãs Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Toni Bellotto que invadiu os rádios do país no finalzinho da década de 1980. O cardápio é tão vasto que é difícil fazer um recorte: “Peste bubônica, câncer, pneumonia / Raiva, rubéola, tuberculose, anemia / Rancor, cisticercose, caxumba, difteria / Encefalite, faringite, gripe, leucemia / E o pulso ainda pulsa”.

Os pagodeiros comerciais não estão entre minhas audições e essa é a primeira vez desde que comecei a navegar por essa coluna, lá no início de 2013, que lanço mão desta vertente da nossa música como exemplo – posso dizer que me arrependo de não ter ido a esse endereço procurar referência antes. A pesquisar aqui e ali encontrei o “Zé Meningite” e ele não pode ficar de fora dessa relação. A música é creditada a Rody do Jacarezinho, um pagodeiro cheio de malandragem e bom humor, foi gravada pelo grupo Revelação e parece que fez certo sucesso. O Zé Meningite, que “é mais brabo que a própria morte”, já teve de tudo nessa vida e sobrevive heroicamente: “Zé Meningite já teve bronquite, leptospirose / Cancro, sarampo, catapora / Varíola, caxumba e gastrite / Tétano e hepatite, febre amarela e conjuntivite / Derrame cerebral, coqueluche e celulite / Faringite, doenças de chagas e labirintite”. Adorei conhecer o Zé e sua resistência, dei boas risadas ouvindo.

Segundo um desses dicionários simples de significados que a gente encontra na internet, disritmia é “qualquer modificação do ritmo cardíaco e/ou da frequência cardíaca, devida a distúrbios na formação e/ou na condução do impulso elétrico no coração”. Não é só no coração, existe disritmia de outras ordens também, mas acho melhor ficar nessa para poder falar de Martinho da Vila. Martinho lançou “Disritmia” em 1974 no álbum “Canta Canta, Minha Gente”. Essa foi a música mais tocada nas rádios naquele ano, sucesso tão grande que vira e mexe ela é reagravada por alguém. Tenho na minha lista de melhores gravações a versão ao vivo de Ney Matogrosso acompanhado de Pedro Luís e a Parede – é coisa linda, sensual, grandiosa, de responsa. Por favor, dê uma paradinha na leitura e corra lá no YouTube para conhecer ou para ouvir de volta. Durante a escrita desse parágrafo, ouvi umas seis vezes. Disritmia: “Preciso transfundir seu sangue / Pro meu coração, que é tão vagabundo / Me deixa te trazer um dengo / Pra num cafuné fazer os meus apelos […] Que bom é ser fotografado / Mas pelas retinas desses olhos lindos / Me deixe hipnotizado / Pra acabar de vez com essa disritmia”.

A consagração dos guris do Paralamas do Sucesso chegou no segundo disco, “O passo do Lui”, lançado em 1984. E o que colocou a bolacha para rodar nas rádios do país foi uma pequena patologia, que não sei se leva o nome de miopia, astigmatismo, ambliopia, hipermetropia ou sei lá o quê. “Óculos” é composição de Herbert Vianna: “Se as meninas do Leblon não olham mais pra mim / Eu uso óculos / E volta e meia eu entro com meu carro pela contramão / Eu tô sem óculos / Se eu tô alegre eu ponho os óculos e vejo tudo bem / Mas se eu tô triste, eu tiro os óculos / Eu não vejo ninguém”.

Esta coluna, que visitou aqueles que são ruins da cabeça ou doentes do pé, chega ao final. Para não acabar assim, de rompante, resolvi dividir uma informação que não se enquadra muito neste espaço, mas que achei bem interessante.

Oliver Sacks é médico e professor de neurologia. Em 2011 publicou “Alucinações Musicais”, livro que trata de vários fenômenos provocados pela música, desde a reativação de memórias até a transformação de estados emocionais. Mas o que tem ali que me fez citar a obra é a investigação que ele fez sobre aquela praga que é quando uma música não sai da cabeça da gente. Saca quando a vida se torna quase insuportável porque a repetição de um trecho não desgruda da mente? Pois Sacks explica esse processo coercivo. É um lance mais ou menos assim: a música entra e subverte uma parte do cérebro e força-o a disparar de maneira repetitiva e autônoma, é um lugar parecido por onde caminham um tique ou uma convulsão. Não há muita coisa que se possa fazer nesse caso a não ser esperar que a música perca força e suma.

Quis contar isso, porque estou repetindo a “Disritmia” de Martinho desde que ouvi (leve em conta que demorei dois dias para terminar a coluna). E assim me despeço: “Vem logo! Vem curar teu nego / Que chegou de porre lá da boemia / Vem logo! Vem curar teu nego / Que chegou de porre lá da boemia/ Vem logo! Vem curar teu nego / Que chegou de porre lá da boemia / Vem logo! Vem curar teu nego / Que chegou de porre lá da boemia / Vem logo! Vem curar teu nego / Que chegou de porre lá da boemia / Vem logo! Vem curar teu nego / Que chegou de porre lá da boemia”.

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