Editorial. Ed. 211

O Brasil é um país estranho que agora vive experiência nova, nem por isso menos funesta que outras que pensava ter superado. O certo é que não podemos continuar a sustentar esse sistema que, todos sabem, dá no que sempre deu: Centrão, Mensalão e, agora, o reinado desse ex-capitão e sua trupe que assumiu o governo para fazer do Brasil o principal laboratório de uma experiência cujas consequências podem ser mais destruidoras do que mesmo os mais críticos previam.

Não há precedentes históricos para a operação de poder de Jair Bolsonaro, mostra Eliane Brum, quem talvez melhor enxergou o processo político desastroso que vivemos.. Ao inventar a antipresidência, Bolsonaro forjou também um governo que simula a sua própria oposição. Ao fazer a sua própria oposição, neutraliza a oposição de fato. Ao lançar declarações polêmicas para o público, o governo também domina a pauta do debate nacional, bloqueando qualquer possibilidade de debate real. O bolsonarismo ocupa todos os papéis, inclusive o de simular oposição e crítica, destruindo a política e interditando a democracia. Ao ditar o ritmo e o conteúdo dos dias, converteu um país inteiro em refém.

Jair Bolsonaro mostrou que pretende governar não por planejamento nem por projetos, não por estudos e cálculos bem fundamentados nem por amplos debates com a sociedade, mas sim pelos urros de quem pode urrar nas redes sociais. O presidente já fritou pelo menos um ministro e tomou decisões a partir da reação de seus seguidores. Se Donald Trump inaugurou a comunicação direta com os eleitores pela internet, na tentativa de eliminar a mediação feita por uma imprensa que faz perguntas incômodas, seu autodeclarado fã brasileiro deu um passo além. Vende como democracia o que é corrupção da democracia. Governa não para todos, mas apenas para a sua turma.

A bolsomonarquia com frequência é mais real – e efetiva – que o governo oficial. Os três filhos, também políticos profissionais, que ele chama de 01, 02 e 03, fazem o serviço de expressar a vontade do “Pai”, que eles tratam assim, com letra maiúscula. Se no governo oficial há um ministério oficial, no cotidiano informal da internet o governo é familiar. A bolsomonarquia digital se mostra seguidamente mais real – e também mais efetiva.

Precisamos de uma reforma política com urgência. O sistema atual se apoia nos vícios do estado patrimonialista e no sistema de clientela que incha a máquina, nos carrega de impostos, diminui investimentos produtivos e estimula a corrupção. Defendo o voto distrital puro, precedido de outras providências óbvias. Fim do voto obrigatório, cada cabeça vale um voto, mínima interferência do estado no processo de escolha, nenhum financiamento público de partidos, campanhas e que tais. Porque não adianta tentar novos líderes populistas de direita ou de esquerda para salvar a pátria. A história já nos mostrou que o caminho do populismo é nosso desastre maior.

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