Flaubert, o mestre (esquecido) de Eça de Queiroz

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Na sua obra singular – Correspondência de Fradique Mandes –, Eça de Queiroz, querendo caracterizar o estilo do diletante autor das Lapidárias, coloca na boca do biógrafo estas palavras: A forma de V. Exa. é um mármore divino com estremecimentos humanos. Palavras expressivas e sintomáticas, na medida em que denunciavam e traduziam uma visão muito especial – muito eciana, portanto – da arte literária e dos seus parâmetros estruturais, orgânicos.

Não será difícil acreditar que, ao referir-se daquele modo a Fradique (sob muitos aspectos um modelo conscientemente criado, se não um alter ego), Eça estaria pensando em si mesmo e na sua própria arquitetura estilística. (Freud talvez explicasse o fato, sem necessidade de grandes voos hermenêuticos ou prospecções exegéticas…)

Na frase lapidar, com efeito, estava condensada e resumida a essência mesma do estilo eciano, sem rival em nosso idioma. Um estilo que, em língua portuguesa, corresponde fielmente àquilo que, em francês, foi concebido e  estruturado pelo grande Flaubert.

A verdade é que, sem Gustave Flaubert, combatendo com denodo e tenacidade o verbo, escrevendo e reescrevendo ad nauseam incontáveis páginas dos seus romances, burilando infatigavelmente parágrafos e frases, peneirando a ganga impura das palavras em busca de pepitas douradas, procurando desesperadamente le mot juste capaz de reproduzir com ostinato rigore o pensamento, as ideias, as emoções, os sentimentos, sem Flaubert, repito, Eça de Queiroz não teria sido possível. Nem seria, sequer, imaginável.

No entanto, se existe um escritor que, na época atual de endeusamentos equívocos e projeções injustas, não está sendo lido com frequência e com a intensidade que merece, esse escritor é precisamente Flaubert. Não foi, é bom que se frise, um dos maiores romancistas de todos os tempos. Essa glória pode ser reivindicada com maior propriedade e justiça para Tolstoi ou Dostoiévski, Proust ou Joyce. Porém, talvez tenha sido o romancista que até hoje criou a obra mais perfeita, definitiva, irretocável: Madame Bovary.

 

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Se, com seus romances Salammbô e Educação Sentimental, Flaubert nos deu duas autênticas obras-primas, com os altos e baixos, com a luminosidade e a penumbra que todas as obras-primas via de regra ostentam au soleil du midi, com Madame Bovary ele criou o romance perfeito por excelência. Da primeira à última linha. Técnica e estilisticamente. Estrutural e conteudisticamente. No que superou Balzac, Zola, Stendhal, Victor Hugo e tutti quanti – românticos, realistas ou naturalistas.

Considerado, por uns, o paradigma do romance realista e, por outros, o arquétipo do romance naturalista, o certo é que a triste história de Emma – Ana Karenina petite bourgeoise de província – e do seu relacionamento com Charles, Leon e Rodolphe, sempre oscilando, num movimento pendular, entre a realidade e a idealização romântica, transcende as fronteiras, por vezes demasiado tênues e translúcidas, entre as duas escolas literárias. (Que, para mim, constituem uma só escola, na medida em que se limitam a exprimir, em graus diferentes, uma programática comum. É uma tese a defender oportunamente. O tema agora é outro.)

Realista? Naturalista? Flaubert, mormente nesse romance inexcedível, é apenas um grande, um extraordinário artista. Artista, tout court. As camisas de força escolásticas não servem para ele.

 

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Numa visão global, à vol d’oiseau, a obra romanesca de Flaubert tem as suas raízes mergulhadas, a um só tempo, no positivismo filosófico de Comte, no experimentalismo científico de Claude Bernard, no determinismo crítico – social e psicológico – de Taine. Mas, em função do toque estético, adquire uma dimensão e uma grandeza novas.

Como assinala Gaspar Simões, a prosa de Flaubert cinge com rigor insatisfeito um sonho em que as formas ganham nitidez e relevo de corpo palpável. Sob esse aspecto, corresponde às realizações poéticas de parnasianos e simbolistas, de Leconte de Lisle a Rimbaud, de Mallarmé a Verlaine.

Reagindo com vigor contra o Romantismo alienado e alienante, com a sua estreita visão epidérmica e subjetiva, Flaubert opõe-lhe a observação minuciosa, a radiografia impassível da realidade fenomenológica, captada através de uma linguagem que, na sua intensa vibração, nos seus estremecimentos subterrâneos, na sua vida interior, é a sua projeção e o seu reflexo.

A musicalidade elegante, a luminosidade implacável, a exatidão emblemática da frase flaubertina foram o produto acabado de um esforço beneditino de ourives, de pintor, de arquiteto, de escultor, que não buscava de modo algum a mera fruição lúdica da arte pela arte, da forma pela forma, mas que, sobretudo, procurava fazer da forma o invólucro perfeito, o vaso ideal para o pensamento, conjugando e fundindo significado e significante. Por isso mesmo, a sua forma já é substância, conteúdo. E, de certo modo, flama, ideia.

Não deixa de ser interessante lembrar que, com Madame Bovary, Flaubert chegou a ser processado pela publicação de escritos obscenos. Obsceno, o sublime Flaubert! Numa época de proliferação desenfreada da literatura “pornô”, melhor dizendo, da subliteratura, da pseudoliteratura das Adelaides Carraros e Cassandras Rios e de tantos outros fabricantes de latas de lixo em forma de livros, saber que um artista genial como Flaubert pôde ser considerado obsceno é quase inacreditável. No entanto, aconteceu.

 

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Eça de Queiroz, o escritor que, em nossa língua, mais deve a Flaubert, dirigiu ao Mestre, poucos dias depois da sua morte, estas palavras comovidas:

Não é para esta breve crônica estudar o grande, o admirável Flaubert. Só direi que a sua alta glória consistiu em ter sido um dos primeiros a dar, à arte contemporânea, a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade social e os conhecimentos humanos que a vida oferece. Ninguém jamais penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e íntimos da ação humana, o sutil mecanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no meio social; e ninguém realizou tão vasta e penetrante análise numa forma mais viva, mais pura e mais forte.

Insuperável mestre da recriação da realidade – de uma realidade eminentemente verbal, literária, que nada fica a dever à verdadeira – Flaubert foi, acima de tudo, um romancista de gênio, um mágico artista da palavra, essa entidade estranha e fantástica que ele, como poucos, usa, manipula, modela, ordena, cinzela e estrutura, construindo um Espaço e um Tempo romanescos absolutamente idênticos ao espaço e ao tempo reais. Em frases imperecíveis onde o rigorismo semântico caminha a par do perfeccionismo artístico.

Ler, reler Flaubert (como aliás acontece com o próprio Eça, notável discípulo de um grande mestre) constitui sempre uma aventura singular. Uma aventura em que, através dos caminhos ora labirínticos ora retilíneos do estético, nós atingimos a dimensão exata do humano e onde, sob o manto diáfano da palavra tornada emblema, vislumbramos, num êxtase e num deslumbramento, a nudez crua da vida multiforme e os contornos nítidos da realidade caleidoscópica.

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