Editorial. Ed. 212

Há momentos em que tenho a impressão de que vivemos um momento de alienação coletiva. O país emborca, o PIB desaba, o desemprego aumenta, corremos o risco de recessão e inflação incontrolável e, no entanto, o presidente Jair Bolsonaro volta à cena com o tom do otimismo retumbante, eivado de um ufanismo que beira o ridículo. E há uma multidão que o segue. Manifestações bolsonaristas acontecem em diversas cidades do país. Podem ser grandes ou não, isso pouco importa. O incrível é um presidente da República, seis meses depois de assumir, precisar de gente nas ruas em sua defesa. Nem Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás que confiscou a poupança, conseguiu perder tanto apoio em tão pouco tempo.

Vejam, os atos foram convocados com apelos golpistas de fechamento das instituições que estariam atrapalhando o capitão governante. Ou seja, pediam para fechar o Parlamento e o Poder Judiciário. Isso significa pregar o fim da democracia. Até Bolsonaro, que incitara tudo e todos contra os políticos e a política, propagando aos quatro ventos que o país era ingovernável sem conchavos, tratou de liderar o rearranjo do discurso. Nas redes sociais, mobilizadores correram para substituir as hashtags das convocações. Até a usual baixeza das agressões se reduziu.

A Câmara dos Deputados tocou suas pautas, aprovou a reforma administrativa sem o Executivo ter de se render a qualquer barganha, derrotou o governo no Coaf e na Funai. Bolsonaro baixou a bola, elogiou o Parlamento, colheu vitórias. O STF se voltou para a sua agenda, com temas importantes como criminalização da homofobia. Ainda que por alguns poucos dias, viu-se algo parecido com a normalidade.

O problema é que calma, regularidade e sanidade são atributos que não combinam com o atual chefe do governo, bipolar por natureza. Dele se vê, até no mesmo dia, xingamento e adulação aos mesmos destinatários, tal como faz com parlamentares. Defesa e ataque de ideias contraditórias. Por ingenuidade ou esperteza, por querer ou talvez não, tem predileção pelo conflito.

No auge da melhor semana de seu governo, deixou em maus lençóis o seu Posto Ipiranga, Paulo Guedes, ao anunciar que tinha um “plano infalível” para aumentar a receita do governo, que renderia mais do que o trilhão de reais de economia prevista no projeto de reforma da Previdência. Praticamente jogou no lixo todo o esforço de seu ministro, um guerreiro, que, ao contrário do presidente, crê na reforma.

Tendo escolhido colocar a ideologia acima de tudo, até do Deus de sua campanha, Bolsonaro tenta agora, ainda que canhestramente, ir além do conforto dos fundamentalistas de sua seita e fazer gestos aos que nele votaram para derrotar o mal que o petismo encarnou. A bipolaridade expressa pode ser uma forma atabalhoada de agradar quem já começa a lhe negar apoio. Nas ruas, muitos serão os cartazes e as vozes contra o Congresso. Hoje, pode até ser verdade que Bolsonaro discorde disso. Mas, como cada um carrega a sua história, há motivos de sobra para que muitos não acreditem.

 

Legenda imagem: Credulidade, Superstição e Fanatismo, William Hogarth, 1762

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