As grandes plateias II

Continuamos com mais alguns relatos nas dependências dos grandes cinemas, numa época em que, pelo menos uma vez por semana, todas as famílias frequentavam suas salas, principalmente nas sessões de domingo à noite, as soirées. Era o maior brilho, pois marcava presença, como diriam os cronistas de então, a fina flor da sociedade: os homens de gravata e as mulheres com chapéus. Uma Curitiba menor que desfilava para ver e ser vista.

No início dos anos 50, o Cine Palácio era também teatro, ainda com camarotes e frisas. Um jovem de conhecida família, elegante, boa pinta, sempre acompanhado de belas garotas, um espectador dos sábados, comprava ingresso para uma frisa. Neste sábado, a primeira sessão da tarde exibia “Os brutos também amam” (Shane, 1953), com Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, direção de George Stevens, um western clássico. Chega o nosso herói com tremenda loira. Por volta das 15 horas, um espectador vem reclamar que risinhos incômodos partindo de certa frisa o impediam de acompanhar a trama de “Shane” na tela. Oscar Raffs, o gerente, de trinco reserva na mão, lá foi. Ao abrir a porta, encontrou o espectador ajoelhado ante o altar do amor. Rápida recomposição, e o Raffs fingiu nada ver, mas pediu explicações para os risinhos. Muito à vontade, a loira falou: “O senhor sabe, o bigode dele me faz cócegas!”

O avô do Zito Alves Cavalcanti, contava sua mãe, instalara um hotel nas dependências da Madeireira Lumber em Três Barras, então no estado do Paraná, uma das maiores serrarias do mundo no início do século XX, que devastou mais de dois milhões de pinheiros nativos. A “company” ali montou um cinema, e que cinema! Dispunha de um único projetor e paradas para a troca de rolos. Lembrava ela que os intervalos eram os mais interessantes do cinema afora “Os perigos de Paulina” (The perils of Pauline), seriado em 6 episódios produzido pela Pathè em 1914, estrelado por Pearl White e dirigido por Louis Gasnier. No senegalesco verão, servia-se sorvete de baunilha, entre uma e outra estação torta de maçã, salsichas com maionese, entre outras atrações. No inverno, copos com licor de ovos e tijolos aquecidos para os pés eram distribuídos.

No passado, como já focalizado, os jornais cinematográficos tinham sua importância. No Cine Luz de Itajaí, o dono James Lenzi contava que um sujeito já idoso, toda sexta-feira, de ingresso na mão, sentava e assistia ao cinejornal “Canal 100” e voltava para casa. Numa noite, outro complemento, os trailers, e o “Canal 100” não foi exibido. Entra o filme e o nosso personagem se põe a gritar: “Quero o jornal, o jornal! Cadê o jornal?”. Na outra ponta da plateia, uma voz em bom volume: “Limpa com o dedo mesmo!”

Páginas do jornal Tribuna do Paraná: Menina voa sete metros e cai ilesa em espectadora. No domingo do acontecido, as filas do Cine São João dobravam a esquina. Corria a sessão das 14 horas (a primeira da tarde), e na tela “Os trapalhões” faziam a alegria da moçada. Seus filmes lotavam as salas com suas palhaçadas e eram disputados pelos exibidores. Próximo das 16 horas, terminava a primeira sessão. Assobios e aquela gritaria normal. Luzes voltaram e a plateia correu para a saída. Lá na rua Westphalen, havia uma gigantesca fila de ansiosos espectadores e, dentro do cinema, a saída precipitada da gurizada. A menina lá no cimo da segunda plateia, arrumando suas meias, mal observou que sua turma já descia as escadas rumo às saídas. Partiu rapidamente pelos degraus do balcão, ansiosa e descuidada. Ao fim dos degraus, o parapeito de pouca altura não foi suficiente para amparar seu pequeno corpo. Projetada de uma altura de sete metros, provocou gritos na multidão. Uma gorda senhora sentada na exata linha de queda sentiu o baque nas suas pernas. Na surpresa não soube explicar como amparou a menina, impedindo que sua cabeça batesse na poltrona da frente. Não refeita ainda do choque, apenas pôde ver a garotinha sair em corrida pela porta lateral na pressa de se reunir à sua turma. Osvaldo Porkote, o gerente, lembra que nem mesmo a senhora sofreu, além de alguns hematomas, com a queda. Da menina nunca mais ouviu falar.

Na legendária Lapa, muitas décadas passadas, o exibidor era Antônio Braga, pai do Ney Braga. Talvez por isso ele era um assíduo frequentador dos cinemas curitibanos, com sua esposa Dona Nice. Se na hora de iniciar a projeção seu Antônio notava a falta de um seu cinéfilo, mandava um próprio à casa do faltante. Álvaro Mendes, posterior dono do cinema, garante que não raro o faltoso vinha mesmo de pijama!

Em São Loureço do Oeste, Santa Catarina, um renitente atrasado era o próprio prefeito. Se não faltava a uma única sessão, jamais chegava na hora. Pior, ameaçava multar a casa se iniciasse a sessão sem a sua presença. Dez, quinze, vinte minutos, e lá vinha a “otoridade”, naturalmente sob os aplausos da paciente plateia. Nomeado pela ditadura, ao fim do mandato pretendeu eleger-se deputado estadual. Sofreu grande derrota.

Já em Santo Antônio da Platina, no Paraná, as coisas corriam exatamente ao contrário. A então juíza de Direito Lilian Lopes chegava pontualmente ao cinema nas sessões de domingo, mas exigia que, iniciada a sessão, os retardatários fossem mandados de volta para casa, para que não incomodassem.

Em Guaíra, nos anos 40, conta minha tia Eunice, o cinema era improvisado num galpão da Companhia Mate Laranjeiras, com enorme porta de entrada. Os cães de alguns donos frequentadores entravam junto e, conta ela, às vezes as sessões eram interrompidas pelas brigas da cachorrada. O dela, chamado Piloto, ficava quietinho embaixo de sua cadeira, bem comportado.

Hoje há minúsculas salas para anônimas plateias. Certa vez, assistindo a uma comédia no Shopping Crystal, um espectador me pediu para rir mais baixo, pois eu o incomodava. Perguntei se ele queria que eu explicasse o filme… Em outra ocasião, no Batel, fiquei lendo os letreiros finais, pois queria saber onde tinham sido as maravilhosas locações no interior da França. Uma senhora me interpelou, indignada: “Não é possível que o senhor tenha gostado deste filme chato!” Certas pessoas não sabem “ler” o filme, como diria o Zito.

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