Caos nas prateleiras

Mudei de casa recentemente. Todo mundo sabe o que acontece durante uma mudança: trecos pra cá, bagulhos pra lá, pilha para doação, coisas para vender, caminhão abarrotado para a casa nova. Caixas, caixas e mais caixas. Caixas que não acabam mais, caixas que parecem que jamais serão esvaziadas. Caixas que se multiplicam e dão a impressão de que vão nos engolir na primeira tentativa de puxar a língua de papelão.

Meus primeiros problemas começaram quando, achando que estava adiantando o processo, resolvi encaixotar os CDs. A ação me pareceu a oportunidade perfeita para que de uma vez por todas eu organizasse os discos. A ordem espalhada pela estante respeitava uma arrumação muito subjetiva. Eu, e somente eu, conseguia encontrar um Buena Vista Social Club ou um Tom Jobim, fazia isso de primeira, mas para o resto do mundo aquilo era um caos. Não é certo, achei, ser a detentora da informação, abstrata e intransferível, de que Caetano Veloso repousava ao lado de Gilberto Gil por aquilo que os uniu durante parte da vida. Ou, num outro tipo de processo, deixar que o Amoroso de João Gilberto estivesse colado ao Coisas de Moacir Santos só porque uma vez considerei que ambos eram perfeitos. Era hora de organizar!

Viajei pela internet atrás de um método eficaz. Li entrevistas de colecionadores, visitei sites de organização, consultei sistemas de discotecários. Tudo infrutífero para mim. Ordem alfabética, subcategorias, separação por gêneros, coisa cronológica… tudo inútil.

No auge do desespero, decidi que era hora de me desfazer dos CDs. Com toda a parafernália virtual disponível, por que cargas d’água eu continuaria me arrastando pela cidade com um sem-fim de disquinhos que podem muito bem ser encontrados quando levanto a tampa do computador?

Um recado para o pessoal que ainda não cruzou o Cabo da Boa Esperança: nem tudo que existe está na internet. Ao contrário disso. O meu pensamento de trocar CD por site, encarte por Spotify, artista por USB, se esfarelou na primeira tentativa.

A internet é uma terra sem leis, sem responsabilidade, sem consideração por gente como eu que gosta de saber tudo tintim por tintim. Se nem sempre dá para achar o nome do compositor de uma música, imagine saber sobre o arranjador ou sobre quem é o gênio que dedilha aquele bandolim ou de quem é a voz que acompanha o cantor durante o refrão… Nem pensar em me desfazer dos CDs, já chega todo o arrependimento causado quando no passado tive um surto e me separei, de forma definitiva, de todos os discos que tinha na época.

Depois desse intervalo, voltei à programação normal e tasquei todo mundo em caixas. Os títulos despencavam da estante direto para serem encaixotados no maior frenesi. Todo mundo viajou juntinho pelas ruas da cidade.

Problema para valer aconteceu na casa nova. Não falarei neste texto sobre caixas de livros, mas livros e CDs chegaram juntos. E eles eram muitos – num momento acreditei que rolou um affair dentro das caixas e eles estavam se reproduzindo descontroladamente.

A pressa de libertar artistas e suas músicas da clausura me fez simplesmente abrir caixas e tascar tudo desordenadamente nas prateleiras. Resultado: não há maneira de encontrar CD algum por aqui; mesmo se tratando de saudade, não tem jeito de saber por onde anda Vinicius de Moraes.

Coloque nesse caos a informação de que tenho LPs e fitas.

Até hoje tenho me virado com as plataformas digitais, mas o sinal de que cheguei ao limite está provado aqui nesta edição que municiada de toda cara pau pede licença para dividir esse problema, enquanto aguarda por dias melhores ou algum palpite de um leitor emocionalmente estruturado no quesito organização.

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