Era outono, era um sonho…

Então o vejo naquele auditório todo cheio de garbo. A beca e o capelo o fazem parecer aqueles alunos americanos formados em Harvard. A cerimônia está encerrada e ele retira apressadamente as vestes talares. Está de terno azul-marinho muito elegante. Vejo como ele é bonito, olhos melancólicos e sobrancelhas grossas. O sorriso é o de sempre, escancarado de tanta alegria e amor. Ele me vê e vem correndo em minha direção. Agora está maior, é um homem completo, a barba é cerrada e me faz lembrar do tempo em que o ajudava a tirá-la. Os cabelos um pouco desarrumados dão-lhe uma mescla de desalinho e graça. Observo que os óculos, que usa desde os quatro anos, agora lhe caem muito bem e ressaltam a sua inteligência, tornando-o ainda mais encantador.

Emocionado, olho para ele e lembro quando lemos juntos pela primeira vez Cem anos de solidão. Falávamos daqueles personagens com tanta intimidade que os usávamos como exemplos em várias situações quotidianas. Nunca vou esquecer o seu largo sorriso quando recebeu dessas já enrugadas mãos, toda a minha coleção dos grandes clássicos dos quadrinhos, incluindo os fabulosos de Will Weisner. E o que dizer então da primeira vez que o ensinei a jogar xadrez? Nunca mais paramos de jogar aonde quer que fôssemos. Que adversário aquele menino se tornou! Tenaz e aplicado, nunca desistia do combate, mesmo perdendo a rainha numa jogada matreira de um velho mestre. É, de fato, olhando firme para ele, vejo com orgulho que aquele garoto por quem tanto lutei a vida toda finalmente é um homem feito.

Ele chega e me abraça com tanta força que machuca meu corpo já velho e frágil. Me beija com tanta euforia que seus dentes ferem minha bochecha e seus vigorosos tapas nas costas me deixam sem ar. Calma, filho! Digo tossindo. Ele sempre foi assim, intenso na sua alegria e nas suas frustrações. Eu gosto e me emociono derramando algumas lágrimas que teimo em evitar que ele veja, pois sei o quanto se preocupa com a minha saúde já debilitada pelos anos e pelo desleixo em mantê-la em ordem.

“Obrigado, papai! Finalmente cheguei lá e vá arrumando logo uma mesa naquele escritório”, diz ele com uma euforia contagiante. Nunca me senti tão feliz em toda essa minha vida bagunçada. Vejo um imenso amor nos seus olhos quando ele diz: “Vamos para casa comemorar com a mamãe, ouvindo uns clássicos ou aqueles rocks do Pink Floyd que aprendi a gostar com você; beber aquela garrafa de vinho e degustar aquele charuto que você tanto prometeu quando eu me formasse”. Eu choro de novo e o abraço com um amor desmedido. Ele me ampara, levando-me meio cambeleante para o carro.

De repente ele para no meio do caminho, me olha firme e circunspecto, puxa do bolso um papel e me entrega: “Essa carta é para você, meu pai”, diz quase sussurrando. “Leia agora, por favor!”. Com as mãos trêmulas, puxo os óculos do bolso do paletó, desdobro o papel, fixo meus olhos naquela carta e fico assustado. Ali só tem garatujas, traços toscos e ilegíveis, como desenhos abstratos e sem sentido. São riscos fortes e vigorosos nas cores preta, vermelha e azul. Aflito, levanto os olhos para ele, mas ele não está mais ali. Estou sozinho, completamente sozinho, absolutamente sozinho. Apenas uma árvore com todas as suas folhas caídas junto aos meus pés a me fazer companhia. Ao redor nada existe. Angustiado, grito seu nome sem parar com todas as forças. Acordo desesperado e o coração a explodir de tanto desespero. Pego então uma folha de papel em branco e, lembrando daquela carta com as garatujas indecifráveis, inevitavelmente escrevo este maldito poema para lhe dar sentido:

Amanheço sem esperanças de melhoras

Grito naquele quarto insano e desventurado

Que essa terra me devore de uma só vez, sem ilusões

Que não me dê sequer uma chance de redenção

Porque nada resta que valha a pena relembrar

Pois nada existe que valha a pena voltar. Maldição!

 

Era outono, era um sonho…

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