Bamboleio cultural

Com diversidade de opções boêmias e musicais, Curitiba dá outro passo para fugir do provincianismo. Ocupação pacífica de espaços públicos é desafio contemporâneo

 

Era o início de uma tarde ensolarada de domingo, 5 de maio. O café fresco e fumacento ficou para mais tarde. O plano era atenuar a ressaca e garantir a sequência do dia, potencialmente indolente. Tomar café na janela de casa e espiar o rabicho da Feirinha do Largo da Ordem é um dos meus esportes favoritos nesta idade de muitas ideias e pouco dinheiro: os palhaços apresentam sempre o mesmo número; o pastel aumentou de preço; a lojinha de brinquedos educativos não desperta interesse de quase ninguém.

Privilégio conquistado é poder ouvir a roda que se forma semanalmente na calçada em frente ao Bar da Zé, na Alameda Júlia da Costa: sambas das antigas e pagodes melosos quatro andares abaixo. Nesta mesma tarde, um Jorge Aragão silenciou de repente porque, logo ali na esquina com a Clotário Portugal, um bloco de maracatu rompeu todas as melodias possíveis e quase fez tremer as janelas do prédio com sua percussão precisa e envolvente.

Na noite anterior – a dona da ressaca –, quatro bandas, de jazz a música instrumental latina, se apresentaram na Sociedade Beneficente 13 de Maio, espaço para shows mais movimentado, democrático e resistente da histórica vizinhança. Paulo Leminski escreveu “conheço esta cidade como a palma da minha pica”. Mas que tamanho teria de ter o membro do poeta hoje para registrar a dinâmica cultural de Curitiba, cidade que desafia boêmios de outrora e tenta pulsar mesmo com cabrestos em suas pantufas provincianas?

Até os anos 1990, a imagem da cidade pacata e fria atraía turistas e servia de isca marqueteira para alcaides que, com slogans como “capital modelo” ou “capital europeia”, alimentavam a ilusão daquilo que gostariam que Curitiba tivesse sido. Felizmente o jogo cultural é espontâneo e, assim, ultrapassa barreiras invisíveis ou rótulos artificiais. Curitiba hoje tem um evento bimestral de rap e poesia. Saraus literários duvidosos. Jazz de primeira. Shows em jardins, eventos literários, um festival de cinema internacional, o Baile do Pato etc. Até mesmo o carnaval curitibano – que se antes parava o repique para que o trio não descompassasse sobre a lombada do Centro Cívico – se transformou rapidamente num evento de dentro para fora, orgânico, com blocos que tocam desde Nirvana em versão ziriguidum até os que exaltam a diversidade sexual com marchinhas criativas. Por essas e por outras, eis a pergunta: por onde anda a cultura boêmia e noturna de Curitiba?

Ainda nos anos 90, os encontros se davam em casas que marcaram época e tinham público definido, o que ajudava no isolamento de diversas pequenas Curitibas: punks no Lino’s, góticos na Época, gays no Circus. Da mesma forma que o maracatu encontrou o samba naquele domingo, hoje, ao que parece, os interesses se misturam alinhados a uma “promiscuidade produtiva”. Por isso não é incomum ver um hipster cantando Katinguelê no karaokê.

“Há muitos posers por aí. Na época em que frequentava a noite, nos anos 80 e 90, saíamos para encontrar pessoas. A troca era mais intensa e real. Hoje, com a internet, há mais compartilhamento do que vivências. Por outro lado, as pessoas têm mais liberdade para ser o que elas querem ser. Há menos preconceito e tudo está misturado, aí estes públicos acabam dialogando”, diz Cyro Ridal, veterano da noite curitibana. Cyro é um dos coordenadores da Rádio Paraná Educativa e a voz por trás de Jack Shadow, personagem eternizado em importantes programas de divulgação da música local como “Caleidoscópio”, “Todos os Caminhos do Rock” e “Ciclojam”.

A pluralidade de opções noturnas e culturais é uma das principais características de Curitiba por estes dias. Bares mais abriram que fecharam, festas temáticas e discotecagens específicas pipocam por aí, apesar da diminuição considerável da quantidade de shows de música autoral. Esta é a principal impressão de Heitor Humberto, jornalista e ex-vocalista da Banda Gentileza. “A noite está espalhada por todos esses lugares, além das baladas, teatros. E acho isso ótimo. Quanto mais núcleos e opções, melhor. Esses movimentos se encontram em vários momentos, mas a calçada acaba sendo o mais democrático, onde todo mundo acaba passando uma hora ou outra”, reflete Humberto.

Apesar do aumento de opções culturais, a crise financeira, se suga o país há quase uma década, também influenciou os hábitos dos curitibanos, principalmente os mais caseiros. “Um bom motivo para eu sair de casa é encontrar os amigos. Se rolar música boa e bons drinks, só melhora. Mas a maior mudança por estes tempos foi a falta de grana, que afetou diretamente a sobrevivência de alguns bares e casas noturnas”, diz Mitie Taketani, proprietária da Itiban Comic Shop, espaço de encontros culturais há 28 anos, e habitué da noite.

Um arquétipo romântico da boa noitada continua vivo, mesmo com as inúmeras opções e as efemeridades pontuais que atiçam quem prefere likes a trocas. “A cultura boêmia está onde nasceu e de onde nunca saiu: nos lugares não famosos, nos botecos. Aqueles de cerveja barata, mesas e cadeiras de plástico, rabo de galo, com um senhor afável porém não muito simpático no balcão”, diz Ieda Godoy, desbravadora da nova noite curitibana desde seu pequeno império indie, o Wonka Bar, que funcionou de 2005 a 2016. “Há inúmeros desses em Curitiba. E tem sempre um amigo intelectual, querido e bom de copo, que gosta de dizer que o boteco que ele conhece é diferente de todos os outros, que é o mais legal da cidade. Eu sempre acredito”, comemora a empresária, que hoje toca o Dizzy Café Concerto (respeitada casa de jazz da cidade) e o Café Mafalda.

 

Na rua

Para além da proliferação de opções noturnas, que denota um “desprovincianismo” de Curitiba, fator fundamental para entender a atual dinâmica da boemia da cidade é a lei antifumo. Sancionada em novembro de 2009, ela proibiu o trago em bares, restaurantes, lanchonetes, casas noturnas, shopping centers e supermercados. A resposta espontânea foi a ocupação de espaços públicos. Na esteira deste movimento, diversas ruas, como Trajano Reis, São Francisco, Vicente Machado, Paula Gomes e Coronel Dulcídio, se transformaram em baladas a céu aberto, motivo de comemoração para sociólogos que entendem o movimento como culturalmente produtivo e de protesto de quem quer ver o Fantástico sem ser incomodado.

“Quando essas manifestações começam a ocorrer, é um sinal de que a cidade está adquirindo uma postura cosmopolita. Um sinal de que a cidade está deixando de ser fechada e se abrindo para, digamos, um outro apelo social. É um bom sinal,” explica José Guilherme Magnani, mestre em sociologia e professor de antropologia da USP.

“Mesmo no caos é preciso ter ordem”, cutuca Cyro Ridal. “Na Europa os espaços públicos são naturalmente incorporados à vida noturna das cidades. Aqui, estamos passando por um processo de amadurecimento em relação a isso”, diz Ridal, também flâneur e fotógrafo nas horas vagas.

Ieda Godoy atesta que “a lei do cigarro” mudou definitivamente o comportamento do curitibano. “A rua nada mais é do que um imenso fumódromo, e as pessoas se sentem mais à vontade lá. Gosto da ocupação das ruas, mas acho que os bares precisam se responsabilizar, oferecendo banheiros, por exemplo”. Há duas semanas, um condômino do prédio vizinho ao Bar da Zé (aquele da roda de samba) perdeu as estribeiras ao som de Beth Carvalho e jogou um balde de água sanitária na cabeça dos que tomavam sua cervejinha. “É preciso conversar com os moradores ao redor. Conhecer, se possível, um por um. E se dispor a melhorar o convívio. Penso que todos têm a ganhar quando conversam, quando ouvem os dois lados da história, quando se olham nos olhos”, completa Ieda.

A escritora e jornalista norte-americana Jane Jacobs (1916-1906), em seu já clássico livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”, prova que a ocupação espontânea e produtiva faz das ruas um lugar mais seguro, que proporciona encontros “improváveis e transformadores”. Heitor Humberto segue o discurso. “A gente se deu conta de que estar na rua é muito legal. Estar em contato com pessoas aleatórias e se deparar com situações inusitadas. Mas as pessoas falam alto, ouvem música alta. Há sugestões, como limitar o horário de venda de bebidas alcoólicas, mas é tudo muito recente. Nós vamos sacando a melhor maneira de ocupar e nos divertir sem atrapalhar ninguém”, reflete o músico e jornalista.

Mitie é um pouco mais radical – embora não tanto quanto o sujeito da água sanitária. “A rua é livre e a gente gosta disso. O vento, a fumaça. Moradores devem entender que essa movimentação também gera segurança. Isso faz parte do bom urbanismo. Sugiro misturar tudo: moradia, comércio, lazer e arte”, diz Mitie, paulista radicada em Curitiba desde os anos 80.

Por entre baldes de água sanitária e maracatus instantâneos, a cultura de Curitiba se reinventa, não há dúvida. A cidade aos poucos deixa para trás sua pecha de província e se transforma. E, em todo momento de mudança, há concessões e principalmente diálogos a serem estabelecidos. Porque se há quem saia da roda de samba, entre no batuque e acabe no jazz, há sempre quem queira ver novela de pantufas.

 

 

Legenda foto1: Rua São Francisco com Immaguik, Cereja Bomba, Douglas Tartaia e Alice Mithrill em frente à Sylk – Support your local kweens

Crédito fotos abre e 1: Jessica Stori

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