De herói a vilão

Sergio Moro é autor de um feito excepcional na história brasileira pelo comando seguro da luta que devassou o antro da corrupção no país. Foi fator-chave da desmistificação da classe política e também do resultado das eleições que acabaram beneficiando a direita, ao esmagar os tentáculos, não apenas da esquerda e de todo o sistema de forças que caracterizava nosso convívio entre forças diferenciadas, o consenso.

Ao aceitar seu ingresso na atividade política posto ao lado de Paulo Guedes, como sustentáculo das forças, um expressando a alavancagem com as reformas e outro a luta permanente contra a corrupção, acabaram os dois perdendo espaço para o guru Olavo de Carvalho e a turma do agito comandada pelo vereador Bolsonaro, que tem força e aura de ministro.

O nosso presidente da República é um Jerry Lewis numa sala de cristal e já não surpreende com as contradições diárias, seguidas de um esforço para aparentar dominá-las. Deu agora para colocar mal a figura mais íntegra do governo com o anúncio despropositado de sua indicação para o STF, o que o transforma, desde já, no maior alvo dos respingados pela Lava Jato e que pelo jeito terá mais desdobramentos do que os troféus em exibição como Sergio Cabral, Pezão, mesa legislativa do Rio, Eduardo Cunha e agora, posto em destaque, o ex-presidente Michel Temer, mais a figura melancólica de Lula.

Mais do que a entropia, fadiga do material, a trajetória da Lava Jato acentua uma curva em queda e percebe-se que os fatos novos já não têm a densidade dos anteriores, daqueles que colocaram a fauna política sob penitência, alguns deles como José Serra e Aécio Neves, que a cada aparição lembram em tudo na perplexidade do olhar o cumprimento da pena sutil do silêncio obsequioso.

A causa não está perdida e o fluxo judicial precisa ser retomado e com a maior energia, enquanto o personagem principal dos feitos, Sergio Moro, é entregue a uma situação constrangedora no interior de um governo sem projeto, desarticulado e dependente de transfusões do centrão.

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