Fernando Pessoa & o Prêmio Nobel

Não sei se o assunto já foi abordado por alguém, algures. Penso que não. Pelo menos, estou escrevendo com base nessa suposição apriorística. Começarei, de modo heterodoxo, antes de entrar in medias res, pela citação de um trecho da carta que Fernando Pessoa dirige ao amigo Adolfo Casais Monteiro (então com trinta anos de idade), poeta embrionário que haveria de tornar-se grande crítico e um dos principais exegetas da obra pessoana. A carta em apreço é de 30 de janeiro de 1935. Exatamente dez meses depois, o mestre da “Ode Marítima”, da “Tabacaria” e de “O marinheiro” morreria, aos quarenta de sete anos de idade.

Na carta referida, o poeta maior tem oportunidade de revelar o processo genético dos seus principais heterônimos, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, bem como do semi-heterônimo, Bernardo Soares. Mas o que me interessa particularmente na carta é uma afirmação sintomática, en passant, que justifica o título do presente texto.

Vamos à citação, extraída da longa epístola, de dez ou onze laudas:

Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada de “O banqueiro anarquista”. Essa deve estar pronta em breve e conto, logo que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para o inglês, e vou ver se posso publicar na Inglaterra. Tal como deve ficar, tem possibilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prêmio Nobel imanente). Depois, e agora respondo propriamente à sua pergunta que se reporta à Poesia, tenciono, durante o verão, reunir o tal grande volume de poemas de Pessoa ele-mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos.

E o “insincero verídico”, o “indisciplinador de almas”, o “fingidor” por excelência, prosseguia, em outro parágrafo: “Refiro-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, de Ricardo Reis ou do Álvaro Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, exceto quando (ver mais acima) me for dado o Prêmio Nobel. E, contudo, penso-o com tristeza, pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos eles têm que ser, na prática da publicação, preteridos por Fernando Pessoa, impuro e simples!”

Vê-se por aí que, pouco antes de morrer, inesperadamente, em plena maturidade, o autor de “Hora absurda”, “Chuva oblíqua” e “O guardador de rebanhos” chegou a pensar na conquista eventual da famosa láurea da Academia Sueca. E pensava conquistá-la apenas com a sua poesia “ortônima”, ou seja, aquela que ele escreveu como Pessoa, “ele mesmo”, desconsiderando os “outros nomes” (e “outros poetas”) que eram Caeiro, Campos e Reis. (Diga-se de passagem: a “aventura” heteronímica, que Casais Monteiro acabou por aceitar em toda a plenitude, ao contrário de Gaspar Simões, que viu nela simples “mistificação” premeditada, consciente – e com toda a razão, penso eu –, talvez seja, mais do que “O banqueiro anarquista”, o ponto alto da obra ficcional pessoana.)

Note-se que, ao escrever a carta, Pessoa havia publicado em livro apenas a “Mensagem” e, escritos em inglês (e, portanto, irrelevantes para a poesia de língua portuguesa, embora relevantes para a poesia tout court), o Antinous, Epithalamium e 35 sonets.

Mas voltemos à citação retromencionada, relativa ao Nobel. Que significa ela? Um midsummer night’s dream shakespeariano? Demonstração transparente de megalomania galopante? Prurido insopitável de ambição desmedida, alienada, irracional? Não. Longe disso. Trata-se apenas da demonstração cristalina do alto espírito crítico – e sobretudo autocrítico – que habitava o espírito e a mente do Poeta Maior. Afinal, quais haviam sido os poetas laureados com o prêmio que leva o nome do inventor da dinamite, desde o primeiro ano da sua outorga, em 1900, até o momento em que Pessoa escreve a sua carta? Vamos à nominata: Sully Prudhomme (1900), Giosuè Carducci (1906), Rudyard Kipling (1907), Maurice Maeterlinck (1911), William Butler Yeats (1923) e Grazia Deledda (1926). Qual deles era maior do que Pessoa? Sem sombra de chauvinismo, com toda a isenção crítica, a resposta só pode ser uma: nenhum.

Mesmo respeitando a grandeza intrínseca dos grandes simbolistas belga e irlandês, e do crítico-poeta italiano, a poesia pessoana, na sua integralidade poliédrica e multímoda, é flagrantemente superior. Vou mais longe: depois da morte de Pessoa até a contemporaneidade, nenhum dos vates agraciados com o Nobel supera o luso. Nem mesmo T. S. Eliot, Séferis, Neruda ou Saint-John Perse. Creio mesmo, para concluir, que Fernando Pessoa foi o maior poeta do século vinte, mesmo considerando outros grandes poetas não laureados, como talvez merecessem. Assim penso. E à medida que os anos passam, mais convicto estou desse pensamento.

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