Lerner a Lerner

Foi Vinicius de Moraes quem, por um processo de divertida paródia, fez do sábado o dia da criação. Nada de descansos, nem modorras: júbilo, celebração. Ao ler as crônicas de Jaime Lerner (Quem cria, nasce todo dia, Travessa dos Editores, 2014, 212 páginas), fica ainda mais fácil de seguir esse preceito tão humano que nenhuma reunião ensina.

Fernando Pessoa ambicionava ser “um criador de mitos”. Jaime Lerner exercita algo mais modesto: é criador de lugares-incomuns. Do papel de uma cidade – Curitiba – à cidade de papel de suas crônicas tão simpáticas que podem surpreender quem desconheça no arquiteto um músico frustrado ou um cronista bem orquestrado. Mesmo sem o “susto” e a “surpresa”, vistas por João Cabral de Melo Neto no seu amigo Vicente do Rego Monteiro, cabem talvez também a Lerner estes versos sobre o pintor modernista:

E é por isso

que quando a mim

alguém pergunta

tua profissão

não digo nunca

que és pintor

ou professor

(palavras pobres

que nada dizem

de tais surpresas):

respondo sempre:

– É inventor,

trabalha ao ar livre

de régua em punho,

janela aberta

sobre a manhã.

Sim, além de criador incansável, Lerner é inventor. De cidades. Assim mesmo, no plural. Quantas terras ele terá inventado ou reinventado na imaginação ou no pensamento, no seu gosto insaciável por fazer do mundo um lugar melhor? Ele provou na prática o verso de Carlos Pena Filho, para quem “é do sonho dos homens que uma cidade se inventa”. Mas se esse homem é Lerner, arquiteto, cabe a ele o tipo de sonho que Cabral associou ao construtor, que “sonha coisas claras”, em sua engenharia.

O cronista revela o homem. Literário. Histórico. Memorialístico. A crônica que dá título ao livro é uma curiosa mescla de poesia e prosa, de frase e verso, ritmo e ritma, com jeito de refrão, de aforismo, de slogan. Versifrase, como talvez preferisse um concretista nostálgico. Versifrase é um hibridismo, por supuesto. Num Brasil tão híbrido, tão mestiço e alegremente impuro, cabe cada vez mais uma rurbanização, sonhada por Freyre e em parte realizada por Lerner.

Se Drummond, num exercício daqueles seus tão típicos, de retomar sua Minas e família, viu no seu pai o “arquiteto e fazendeiro”, e sendo tal fazendeiro, “do ar”, o leitor não erra muito se enxergar algo assim em Lerner. Leveza não é a prima rica da superficialidade, mas pode ser a irmã xifópaga da joie de vivre.

Todos os livros são vitrines, no sentido de que expõem e convidam.  É uma boa coisa que a crônica “A vitrine (da loja) do meu pai” tenha um risonho quê, até com a graça de remeter em duas ou três frases ao realismo mágico de “A luz é como a água”. No conjunto, entretanto, trata-se de realismo lírico, apenas e simplesmente. Sem que lhe falte certa tintura de sabedoria tão útil ao senso, seja qual for a época, como “entender a necessidade de ser conciso. De resumir, simplificar, para dar chance à imaginação”.

Há uma autodefinição das mais cativantes nessa crônica citada: a do “pensador de espaços”, cujo compromisso não é com a burocracia ou a presunção, mas com “a simplicidade e a imperfeição”. Tudo isso faz do pensador de espaços um sinônimo do criador, inventor, humanista.

Para ilustrar o elogio esclarecido da imperfeição, o autor transcreve uma frase que viu “numa pracinha de bairro na Cidade do México”. Frase que, na verdade, não provém da sabedoria popular mexicana, como pode deduzir o leitor, mas de uma reflexão do arquiteto e antropólogo Alexander von Wuthenau, ao refletir sobre aquela cultura.

O leitor percorre cada crônica sem esforço, e antes mesmo de chegar à metade do livro, sente-se já cúmplice do autor e dos seus relatos, com jeito de “a poesia, o amor, as viagens”. Por sinal, representa o retrato 3 x 4 da primeira viagem de Lerner à Europa. Quem imaginaria que, poucos anos depois disso, aquele jovem estudante bolsista de 150 dólares em Paris seria um demiurgo de Curitiba?

O bom humor da dicção e os desenhos acentuam o charme das crônicas. Várias delas funcionam como uma espécie de esboço de romance de formação. Há intenso humanismo em todas. Do começo com muita humanidade, ao fim, com uma lista de gratidões.

Foto abre: Daniel Katz

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