Paraná de todos os talentos

Leo Gilson Ribeiro foi um crítico ensaísta e professor PhD pela Universidade de Heidelberg. Em 1964, publicou seu primeiro livro, Crônicas do Absurdo, e, em 1988, lançou O Continente Submerso (Best Seller), que lhe rendeu o prêmio de melhor ensaio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

 

 

 

Há muito o binômio terra roxa e pinheirais deixou de ser a visão reducionista que se podia ter do Paraná. Em São Paulo, Curitiba (pinheirais, na língua indígena) é um marco do progresso em quase tudo oposto à terraplenagem selvagem das contrastantes metrópoles brasileiras. O Paraná representa uma comunidade sempre à frente, cujo dinamismo não desumanizou os seres humanos, robotizando-os e os transformando em meros caracteres anônimos de um gigantesco computador gélido e impassível.

Nos últimos 10 ou 15 anos essa mudança qualitativa distingue cada vez mais a vida cultural paranaense. O arrojo da Ópera de Arame e o 7º aniversário do jornal “Nicolau” são sinopses de um Brasil futuro. A importância literária do Paraná de hoje também parece deslocar para seu território uma leva segura de alentos. A obra crítica monumental e ao mesmo tempo capaz de nuances de fino discernimento empreendida ao longo dos anos por Wilson Martins antecedeu-se, no tempo, aos valores de agora e persiste em sua garimpagem da Inteligência Brasileira. Pari passu – e parece que desde sempre – Dalton Trevisan desenha com a sua prosa crispada obcecada pela libido reprimida e pelos mitos das castas médias e inferiores essa Dublin aterradora e pluriamada, com seus Nelsinhos, seus vampiros, seus velhos faunos, seus bêbados na praça central da cidade que se aprestam a morrer como elefantes que pressentem a chegada da extinção inadiável. Agora Wilson Bueno, obrigatória referência de Curitiba, com seu bilíngue e angustiando Mar Paraguayo, por nós já classificado como inegável obra-prima em artigo para uma revista de São Paulo – o acaso não se sabe se de Celestina ou de Blanche Dubois – mistura, mais do que os idiomas, os estados da alma: ao mesmo tempo lidera o “Nicolau”, escreve poemas de métrica japonesa (seus preciosos “tankas”, de um livro admirável e ainda inédito), e capta um inesperado lirismo no dia a dia da cidade, isto para não falar de seu bestiário, terrível como a morte, e livro único em nossas Letras – O Manual de Zoofilia. Jamil Snege, em O Jardim, a Tempestade, aparenta seus personagens flaubertianos de Bouvard et Pécuchet com o ceticismo minucioso de mendigos de Beckett à espera do Nada. Paulo Leminski, tão cedo interrompida sua carreira ascendente, congrega raças em si e ergue, no labirinto erudito e fascinante de Catatau, uma imagem de Pernambuco indecifrada pelo Príncipe Maurício de Nassau… que pede ajuda da sabedoria filosófica europeia para lhe explicar aquele primeiro tropicalismo “avant la lettre”.

Em tudo o Paraná surge como uma correção de rota das grandes aglomerações contemporâneas. Nada de massas sem rosto nem porquê nem de incivilidade exasperada e mortas para solidariedade humana. É isso: o Paraná parece sempre querer experimentar audazmente o novo. Nada de conceitos e comportamentos obsoletos nem carcomidos pela mesmice. O Paraná traz uma vital mudança de significado ao progresso tornado fecunda convivência coletiva.

Essa harmonia que se destaca no relacionamento humano no plano urbano advém talvez da “democracia rural” da fértil zona agrícola do Paraná. Uma distribuição equitativa de terras não incendeia os campos inflamados por direitos fundiários ignorados. Nada parece ter como bússola a violência, nem mesmo se já passadas disputas de divisas com São Paulo ou Santa Catarina levaram o Paraná a empunhar armas.

Para mim um dos elementos que o afastam da avareza de visão de outros Estados tão ricos quanto ele é a sábia e intensa aplicação de vultuosos investimentos na educação e na cultura. Diversos governos paranaenses têm instituído marcos modelares para todo Brasil, canalizados da pujança econômica do Estado. O pioneiro Concurso de Contos do Paraná não só confirmou como revelou valores já sólidos ou novos de uma literatura sempre desassistida de qualquer incentivo – estadual ou particular – num Brasil em que o Ministério da Cultura, infelizmente, aposta com o Ministério da Fazenda para saber quem possui a porta-giratória da Kultura macunaímica oficial. Lembro-me que, a meu pedido, o Concurso de Contos da Fundepar deu a uma de suas subdivisões o nome de Prêmio Guimarães Rosa, em homenagem carregada de tristeza pela perda, dias antes da instituição dessa iniciativa, do magnífico autor de Grande Sertão: Veredas. O notável descortino do Paraná contrasta com a filantropia brasileira, que se limita a legar quantias para casa de caridade. Misericórdia para os que trabalham com ideias, palavras, instrumentos, sons, cores e linhas não faz parte dos testamentos brasílicos. Tanto a Ópera de Arame quanto o jornal de cultura “Nicolau” atestam que o Paraná não se contenta em abrir estradas: prepara também o húmus do pensamento e do conhecimento como base de toda a evolução de uma comunidade.

Há uma modificação sensível com relação às “commodities” e “mercados futuros” (como se diz no atual linguajar bolsístico) por parte do Paraná, que investe numa clarividente semeadura do amanhã espiritual de todo o Brasil. É aqui que melhor se sente a pulsação do “Zeitgeist” dessa parte do Brasil que, como diz a boca do povo, “deu certo”. Por isso jamais me atemorizam as jeremiadas nem as jactâncias dos que gostariam de implodir o Brasil por meio de secessões ruinosas. Por que todos os elementos formadores da própria essência sulina aprofundam suas raízes no âmago da mais genuína brasilidade: o café, a imigração, a construção do Mercosul nas áreas do Oeste do Paraná fronteiriças com a Argentina e o Paraguai.

O Paraná – seja em Curitiba, em Londrina ou cidades recém-brotadas do chão – trouxe à civilidade do trato social desprovida das neuroses e abulias das grandes metrópoles agressivas um ar de cidade plácida tcheca ou alemã, uma Europa Central inesperada em meio a um “dinamismo organizado”, se for permitida a expressão. A vocação paranaense não é, conclui-se claramente, a de limitar-se, mas sim a de obedecer a impulsos de uma formação que foi desde o início de cunho cosmopolita. Conseguiram aí um consenso admirável que Confúcio já pregava há séculos e que os “tigres asiáticos”, de Cingapura a Taiwan, já põem em prática hoje: não violar os direitos individuais, mas harmonizá-los com as reivindicações coletivas. Talvez esteja surgindo um capitalismo finalmente humano, equidistante tanto das ilusões de um neoliberalismo à la consenso de Washington quanto de uma utopia degenerada em terror soviético. É possível até que um novo e promissor Contrato Social esteja florescendo dessa terra roxa: quem sabe?

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