Quase sempre perdida

A história vista de baixo. Para os historiadores, é a possibilidade de compreender os movimentos não só de opressão, e sim de resistência e de luta da classe operária e camponesa. Talvez, se fosse o caso de analisar o livro Benedito Rosário, de João Urban, na perspectiva histórica, a abordagem escolhida seria a marxista dos britânicos E. P. Thompson e Christopher Hill. Uma história de registros daqueles que não puderam contar. Poderia também ser aquela de Carlo Ginzburg, micro-histórica. A narrativa de quem está na multidão, não no centro canônico do que já se viu. Essas direções já não representam o que importa. Alto, baixo, centro, marginal. História que também é única, pelo inaudito que se narra, mesmo quando esquecida e cheia de ausências. Cartografia de narrativas, mapa de fio de luz, as raízes são muitas. Atenção ao que cada uma delas tem a dizer. Descobrir o que é mentira e o que é verdade? Não é sobre isso. É sobre perceber a memória e o tempo, outras formas de contar e ouvir.

Como lembrar de tudo que vivi para contar? Como lembrar de tudo que me contaram para escrever? As discussões sobre o tempo e a memória são encantadoras e também perturbam. Se fosse eu a historiadora dessa pesquisa, eu conversaria com o João, apesar de ser dada a literatura como fonte histórica. Também procuraria Domingo, o Benedito. Por ora, só para testar os ensinamentos de viagem em ônibus que Urban de pronto nos dá. Depois, para ver outra lente da história do Paraná.

Benedito Rosário me contemplou com possibilidades historiográficas. Também de narrativas, poder contar pela memória, pelas anotações, pelo olhar de quem senta ao lado do motorista do ônibus e escuta seu trajeto de vida. Os motoristas das viagens de ônibus nunca mais serão vistos da mesma forma. Nunca mais serão apenas motoristas − como na verdade nunca o foram. As lentes são muitas, de Urban para Domingo, de Domingo para tantos chãos marcados pelos seus passos, seu corpo em encontro, em choque, em luta, em fuga. Quando tudo é efeito dominó, entre ingenuidade, violência e mais movimentos que se pode alcançar. A terra paranaense, nunca linear e de uma camada. A terra paranaense e a relação entre exploração e corridas. É sobre resistir a uma ordem exploratória e ainda assim ser reflexo em pensamento e em ação de uma estrutura. Sem ser dono de nada, mas muito do que se decide fazer. Somos todos reativos. A imobilidade das palavras nunca-sempre já é pouca criatividade. Aqui a categoria para encaixe de indivíduos quem faz é o vivido ou o contador.

Um encontro entre fotógrafo-autor, como sempre cabe mais, e a narrativa de Benedito Domingo. “Antes que tudo isso se perca nos meandros obscuros de minha memória”. Memória é também esquecimento, seletividade, cortes. A longa estrada de paradas definidas, outras já não possíveis de acessar. Janete Clair, com a história batida na máquina, deixa Urban herdeiro, encarregado de registrar, juntar em livro, como historiador atento, escritor a postos, o narrador de Benjamin. Foi treinado pelos olhos e congelou a imagem que quase sempre é perdida.

Hoje podemos conhecer o Domingo, Benedito Rosário. Eu o conheci e senti ao seu lado a corrida, na fuga pós-facadas ou do grilo e dos quebradores de milho – matadores, grilagem, terra, morte humana, morte animal (preocupação-tema-hoje), trabalho análogo à escravidão, mulheres e violência, mulheres e a maternidade não como libertação, outras narrativas de um Paraná que pulsa. Domingo, hoje é, e foi como me disseram que seria, ele mesmo, o livro, uma leitura de um fôlego só. Como se pode perceber, ainda reverbera em encontros que não tive.

Noite de lançamento

Foi então, na noite de 7 de maio, no Bar Ornitorrinco, que Benedito Rosário, editado pela Confraria do Vento (RJ), foi lançado. Com amizades, leitores e outros tantos que apreciam estar perto de quem faz. Noite de lançamento de livro, dessas que gostamos. Para aqueles cujo assunto principal é literatura, é arte, é conhecer e também sentir, é imaginar outra coisa que não está aqui. É noite de registro para lembrar depois. Aqui ficam fotos, recordações de abraços e assinaturas. Agora o livro circula, faz seu caminho e atravessa. Acontece de novo.

Fotos do lançamento: Rafael Urban

01 e 02 João Urban com Fábio Campana

03 Com Nelson Galvão e Cassia Galvão

04 Com Lucas Maruo

05 Com Martim e Fernanda

06 Com Roberto e Maristela Requião

07 Com Larissa, Vladi e Dora

08 Com Guego e Fabiane

09 Com o escultor Alfi Vivern

10 Com o fotógrafo Daniel Castellano

11 Com a arquiteta Mariana Salazar

12 Com o fotógrafo e amigo Kraw Penas

13 Com Solda e Vera

14 Com Silvia Watanabe

15 Com Lucia de Paula Urban

16 Alberto Vianna e Reginaldo Rosa Fernandes

17 Com Jussara Salazar e Fernando Peña

18 Com o arquiteto e amigo Mauro Magnabosco

19 Com Bob Zucon

20 Com Rafael Urban e Antonio Urban

21 Com as queridas Jussara e Ieda

22 Vinicius Barth, Karla Melo (Editora do livro) e Fabiano Costa Coelho

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