Um poeta se guarda

Um poeta se guarda e emerge da lagoa em Amplo espectro! O título da obra de Roberto Prado veio a calhar, pois a pergunta era “como um poeta de seu tamanho não tinha publicado um livro?” A comprovar que para ser grande não é necessário reunir textos numa sequência de páginas. É sugerido que o autor já nascera grande: “com apenas 16 anos de idade, Roberto Prado já tinha seus poemas impressos em diversos jornais e revistas nacionais, lado a lado com nomes consagrados da literatura brasileira. Para ficar apenas em um exemplo, foi o único a ter seus versos publicados em um espaço que, por tradição, era ocupado há décadas apenas por obras do poeta Mário Quintana, no jornal gaúcho Correio do Povo”, lembra o cartunista Solda.

Prado está por aí, seja física ou virtualmente. A primeira indicação denuncia a possibilidade de encontrá-lo para um autógrafo, caso o leitor desatento tenha perdido o lançamento de Amplo espectro, na Biblioteca Pública, no fim gelado de maio. A segunda aponta para seus textos: navegam pela cidade e além, desde canções, locuções para rádio, poesias na imprensa. Solda, mais uma vez, foi preciso: sua obra vem cobrir uma lacuna que o autor nos devia. Amigos cobravam! Não era mais possível ter Roberto Prado a prestações, era insuficiente para o leitor de sua precisa, ritmada e, diríamos, irônica poesia. Eis uma amostra com o “Viajante”:

 

hoje acordei me achando

agora nem eu me aturo

desde sempre esse garoto perdido

pelas cidades do futuro

 

É injustiça nossa tomar esta como exemplo e abandonar as 176 páginas do livro. Por outro lado, é estratégia nossa dar “Viajante” para que o leitor exija de si mesmo a necessidade de entrar em Amplo espectro do começo ao fim. São trinta anos, mais do que uma geração (a lembrar que gerações se contam através de quartos de século), debruçado nas linhas, a começar e não terminar, terminar e editar, editar e começar poesia por poesia. A escolher as palavras sem pressa. O livro foi editado pela Nossa Cultura, o Solda (colunista da Ideias) foi responsável pela capa, planejamento gráfico, texto das orelhas e finalização.

O prefácio ficou a cargo de Alberto Centurião e o posfácio, de José Arrabal.

 

O querer

Bom mesmo

é o que tem.

Escolho sempre

o que vem.

Tudo na vida

cai bem.

 

Daí a grandeza de Roberto Prado. Lembrou-nos Drummond, que também demorou para lançar seu primeiro livro e, quando veio, já estava maduro. Assim é Roberto Prado, cuja obra de estreia nasceu madura.

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