Rádio pública – a incrível tarefa de disputar espaço no mercado

Você é ouvinte de rádio? Percorre o dial atrás do que mais combina com seu gosto, preferência, necessidade? Se você respondeu sim, provavelmente já percebeu como as emissoras se parecem. Os segmentos se copiam e se multiplicam sem levar em conta o desperdício de espaço, a pobreza de informação, o desprezo a tantas possibilidades, a busca por públicos diferentes…

As grandes redes têm sua parte de responsabilidade nessa massificação de operação. Como elas ocupam grande fatia do mercado, têm que encontrar um jeito de se comunicar com o maior número e o mais variado tipo de pessoas, usando o mínimo possível de recursos e profissionais. Claro! As grandes redes pensam no sustento e prosperidade de seus negócios. Por isso criam modelos que podem (?) ser repetidos pelo país todo e seus comunicadores conseguem falar tanto para quem trabalha no centro de São Paulo como para quem está no interior do Piauí. É uma linguagem e conteúdo únicos, que apesar de não ser de nenhum lugar, não choca, não causa um sentimento de estranhamento e acaba até soando familiar, entrando naturalmente nas casas, nos carros e em todos os outros lugares em que o rádio esteja ligado.

O fato de conseguir se comunicar de um único jeito, sobre um assunto, com muita gente significa das duas uma: ou o comunicador é muito bom e tem um assunto muito interessante para desenvolver (ou uma música universal para tocar) ou a população anda perdendo o traço de personalidade local, as características do lugar, o poder de crítica. Eu duvido da primeira hipótese e acho a segunda muito triste.

Como não tenho o objetivo de aqui, agora, discutir sobre o conteúdo, métodos e consequências do trabalho das grandes redes de comunicação, melhor voltar ao início da conversa.

Pois bem, um pedaço do rádio é utilizado pelas redes de comunicação. E o outro? Por políticos, igrejas, empresários, grupos locais, governos, universidades e toda sorte de proprietário ou dirigente. E o que faz essa outra fatia do bolo? Como ocupa o mercado? Usando o modelo criado pelas grandes redes, cada uma em seu segmento. Imita-se voz, jeito, forma, conteúdo. O grande dita e o pequeno vai atrás. O mercado se estabeleceu assim e o público, o grande público que no final decide tudo, merece estudo, tese, ajuda, solidariedade, educação, tudo para recuperar o poder de crítica e sair dessa loucura, mas, claro, isso é outro assunto também.

Porque também não vou desenvolver texto sobre a falta de educação, cultura, percepção e crítica da maioria da população, melhor voltar ao título da matéria.

Existe um fenômeno muito interessante nessa história toda que atinge diretamente muitos assuntos, mas aqui, pinço a música como exemplo. Nas últimas décadas a MPB tem sido influenciada por dois movimentos distintos.  Pode ser detectada uma invasão em rádios, auditórios, canais de TV e espetáculos de produções com baixo teor de qualidade, visando simplesmente os números de venda, tentando massificar a cultura musical brasileira. Em contrapartida, a cada ano, novos públicos, desinteressados por essa oferta, procuram movimentos alternativos em que a qualidade esteja em primeiro lugar.

Estes dois movimentos – cujas causas profundas, apesar de tanta citação, eu resisto em discutir aqui – têm importância significativa sobre a vida cultural do país. É necessário, portanto, ações e canais que criem e ofertem ao público interessado possibilidades de acesso ao que de melhor existe na produção nacional. Eu sempre estou envolvida em assunto assim e nas voltas que a vida dá, retornei a trabalhar num desses lugares que dia e noite hasteia a bandeira da qualidade – música e informação.

Depois de anos, voltei a fazer parte do pessoal que encharca a camisa nas duas emissoras públicas do governo, as Educativas AM 630 e 97.1 FM. A vida por lá está longe do glamour e da facilidade imaginada por alguns. Para exibir diariamente uma grade que mescla bom gosto, responsabilidade, variedade e compromisso é preciso colocar em prática muita criatividade para driblar os pormenores que poderiam comprometer a missão da instituição. As limitações estruturais são vencidas graças a dedicação de jornalistas, técnicos, programadores, maestros, compositores, produtores, profissionais de alta categoria que trabalham mais pela causa que pelo sustento. A mão de obra é ultra qualificada e o resultado disso se ouve diariamente.

É bonito ver como as duas rádios cumprem seus papeis e entender que isso só é possível por conta do capital humano que dia após dia se desdobra para manter tradições e dar frescor às programações. As rádios não têm um dono, um mentor, um guia absoluto, proprietário da cadeira e da caneta, elas fazem parte da nossa complexa sociedade e seus anseios, das obrigações institucionais que desfilam entre informar, formar, manter e fomentar o que há de melhor.

Este trabalho de tão fina tapeçaria também precisa ter a intenção de voos altos, olhar para o mercado, procurar novos públicos, para não cair na armadilha de circular apenas entre os pares. Não é tarefa fácil, meu amigo, minha amiga, de casa e do auditório.

Para sair para o mercado, encontrar público, comunicar com ouvintes, a Paraná Educativa tem se desdobrado nas providências. A marca da qualidade é o primeiro aval para isso. Outra medida foi encontrar espaços em outras mídias para noticiar a grade de programação, os profissionais, o trabalho como um todo. O Facebook e a TV Paraná Turismo, irmã de luta, são exemplos. Um aplicativo para tocar diretamente em smartphones também. Há ainda a iniciativa já testada e aprovada de fazer com que as rádios deem as mãos a outras instituições públicas para que possam se apoiar e fornecer umas as outras o que têm de melhor. E como nem só de estúdios fixos vivem as emissoras, volta e meia elas ganham as ruas para transmissões externas, onde se encontram com o público – o caminho contrário também é feito, vira e mexe tem ouvinte andando pelos corredores, conhecendo discoteca, tomando um cafezinho e sabendo en loco dessa trabalheira toda.

As fórmulas atingem hoje em dia quem já tem uma disposição para MPB, jazz, música erudita e todo o leque de variações que apresentamos (tango, rock, música latina, judaica, rock, literatura, poesia, etc.), agora, o desafio, o incrível desafio, é chegar até as pessoas que não têm o hábito desse tipo de consumo. O estudo atual se concentra em encontrar uma maneira de vestir o outro traje a que é destinada a rádio, o de cumprir, sem presunção, o papel educativo, atraindo e revelando para novos ouvintes essa programação pensada nos mínimos detalhes.

Só queria contar que é feliz esse novo período em que eu posso, de alguma maneira, fazer parte desse time doido que busca a excelência no dial. No mês que vem, a coluna retoma a programação normal.

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