“É profundamente triste nem o bom senso ser mais permitido ao cidadão comum”

O escritor português Valter Hugo Mãe esteve no Brasil para acompanhar a adaptação teatral de uma de suas obras e participar do festival literário de Araxá. Em entrevista, fala sobre a necessidade de um debate mais “respeitador” e de sua percepção atual do país, cenário de seu próximo romance

 

Valter Hugo Mãe é uma espécie de resumo bem-acabado da boa literatura portuguesa contemporânea. Fosse um time de futebol, teríamos Valter como o 10 clássico, Jorge Reis-Sá seria o lateral-armador, Gonçalo M. Tavares o volante habilidoso e José Luís Peixoto um 9 imperdoável. No banco, a experiência, as táticas e conselhos de Inês Pedrosa, que certo dia escreveu: “Enquanto os nossos camaradas celebravam nas ruas, nós fabricávamos o amor a partir do zero, no deslumbramento silencioso de um deus que subitamente descobrisse as coisas de que era capaz.”

O caminho de Valter Hugo Mãe (vhm) até a quase unanimidade literária por crítica e público começou na forma. O angolano radicado em Portugal só escreve em minúsculas por acreditar que a democracia tem lugar também na palavra escrita. Sua prosa poética, entretanto, tem uma contundência profunda e, por vezes, metafísica. Emociona e inspira, nos faz querer sempre ter um caderninho por perto para anotar frases que gostaríamos muito de ter escrito. Autor de livros celebrados como “a máquina de fazer espanhóis”, “o filho de mil homens” e “a desumanização”, lançados primeiramente pela extinta Cosac Naify e agora no catálogo da editora Biblioteca Azul, vhm esteve no Brasil em junho. Na 8ª edição da Fliaraxá, relançou “o nosso reino” e “as mais belas coisas do mundo”, e lançou “contos de cães e maus lobos”, todos pela Biblioteca Azul. Também acompanhou a estreia da adaptação teatral de seu “a desumanização” em São Paulo. “É como se meu livro regressasse a mim de forma muito mais enriquecida”, disse vhm após o espetáculo com direção de José Roberto Jardim.

Neste meio tempo, concedeu entrevista por e-mail a este jornalista. É uma tarefa e tanto entrevistar vhm. Porque, assim como a literatura que produz, seu discurso oficial é à prova de edição. Os diversos eventos de que participa e os convites que recebe para vir ao Brasil reforçam os laços do português com o país, do qual já é íntimo. “Um livro inteiro talvez não explicasse o que sinto inscrever do Brasil em quem sou, no que guardo. Não começou nas visitas nem nas conversas. Começou em Caetano Veloso, Chico Buarque, Bethânia ou Elza Soares. Chegou a Legião Urbana ou Titãs. Quando descubro Lispector ou Machado, Rosa ou Freyre, não há como voltar atrás. Minha identidade virou uma percentagem brasileira. A timidez que ainda conservo não é típica de um brasileiro, mas há muitos brasileiros estranhos. Eu sou um português que também é um pouco brasileiro estranho. Como português também devo ser estranho, eu sei”, diz o escritor, que atua igualmente como cantor, artista plástico e apresentador de TV.

Em “o paraíso são os outros”, vhm investiga e desmente parte da filosofia fundamental de Sartre (“o inferno são os outros”) com argumentos contemporâneos baseados nas relações humanas, do sexo à tolerância. Com ilustrações, frases curtas e cenas em lugar de capítulos, a obra foi entendida como “infantojuvenil” para algumas editoras e leitores. Mas seria fazer pouco-caso do livro. “Meus textos para os mais jovens são um pouco híbridos, eles solicitam maturidade e talvez impliquem com os adultos por quererem usar da candura para falar de coisas difíceis. Cresci com muitas dúvidas e angústias sobre as quais poucos livros adequados à minha idade falavam. As crianças e os adolescentes são convidados a manter a ingenuidade mas, em algumas alturas da vida, sobretudo na experiência de algumas pessoas, a ingenuidade não é possível. Precisamos de um debate mais respeitador, consistente, onde nos sintamos identificados, representados. Meus contos procuram ser assim. São sobre perder, sonhar difícil, esperar, manter a esperança, procurar felicidade depois de qualquer tristeza.”

Presságio

Lançado no Brasil em 2014, “a desumanização” é o quarto romance de vhm. A obra tem um tom brutal que envolve autodescoberta, os limites da dualidade, e o efeito do diálogo e da palavra na transformação de si e do próximo. Cutuquei vhm sobre se o livro seria uma espécie de prenúncio do que viria anos depois, pelo mundo: em linhas gerais, uma dominância do pensamento conservador; em linhas específicas e bem brasileiras, a ignorância deliberada como forma de narrativa política conveniente. “Venho há anos afunilando o pressentimento de que estas questões se iriam agravar. Desde a moral castradora e religiosa em ‘o nosso reino’, ao sexismo monstruoso em ‘o remorso de baltazar serapião’, à precariedade laboral e emigração em ‘o apocalipse dos trabalhadores’, ou à manutenção do fascismo em ‘a máquina de fazer espanhóis’, mais a homofobia em ‘o filho de mil homens’, etc., etc. Não julguei que o mundo entrasse tão rápido nesta boca do lobo, mas não duvidei que aconteceria um apodrecimento social”, responde o escritor, para quem parte da solução se encontra no respeito às coisas mais profundas e fundamentais. O meio ambiente entre elas.

“O ambiente é o ponto fundamental da nossa era. Veja como se assemelham os piores dos líderes na negligência com as questões climatéricas. Enquanto desprezam publicamente, a corrida aos recursos hídricos, aos minérios, ao crude, é feroz e mantida muito lá em cima, onde os povos normalmente não conseguem observar. Popularmente fica o mito de que a preocupação com o ar e com a floresta, com a água e com as sementes é frescura de cientistas insanos. Que triste. Que profundamente triste nem o bom senso ser mais permitido ao cidadão comum.”

O interesse pelo Brasil encontra em vhm um interlocutor poderoso e esclarecido. O português não esconde sua preocupação e afirma, numa daquelas frases “ineditáveis” de quem pensa o mundo a todo tempo, que o Brasil anda mal frequentado. “É um caso muito raro, o do Brasil. Nem Hitler subiu ao poder com um discurso tão honesto em relação ao racismo, à homofobia e ao sexismo, em relação ao desprezo pela educação. Estou muito surpreso. Depois de anos caminhando num sentido de se impor como grande nação do mundo moderno, amigável e criativa, próspera, o Brasil parece ter optado por enviar uma mensagem completamente oposta ao mundo, feita de discriminação, opressão, medo. De fato, só escolhe arma quem não tem argumento. Uma sociedade na lei da bala não significa um país. Significa sobretudo um lugar muito mal frequentado. Eu quero do Brasil outra coisa. Quero a felicidade que vinha sendo construída. Não me importa se isso é a Esquerda ou a Direita que faz, eu só não suporto como se pode aceitar a diminuição de alguém pelo gênero, pela cor, pelas preferências sexuais, pela erudição. Isso não é inteligente nem humano. É desumano. É fundamental, neste momento, ponderar acerca da situação, pelo extremo desta Direita e pelo erro que cometeu a Esquerda. Querer fugir de gato bravo não deve dar vontade de correr para os braços de jacaré.”

A propósito, o próximo livro de vhm, em processo de escrita, se passa numa ilha imaginada no meio da Amazônia. “Estou prestes a terminar meu novo romance. Ainda não quero abrir muito acerca. Quero muito poder entregar à minha editora em agosto. Se correr tudo bem, assim será.”

 

Cristiano Castillho é jornalista e escritor.

 

 

Foto 1: Hiroki Kobayashi

Foto 2: Daniel Bianchini

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