Muita foto, pouca memória

Acredito que a maioria de nossos leitores se lembra do tempo em que para tirar fotos eram necessárias câmeras fotográficas e, principalmente, filmes, 12, 24 ou 36 poses. Depois vinha o custo da revelação e, finalmente, a organização das mesmas em álbuns, devidamente identificados: casamento, aniversários, viagens e muitas poucas outras coisas mereciam registros fotográficos, até porque nunca estávamos preparados para essa tarefa. Ninguém ia a um restaurante com uma “Cannon” pendurada no pescoço, tipo turista japonês, para fotografar o prato pedido antes de degustá-lo. Seria motivo de chacota. A que ponto de desenvolvimento chegamos nos dias de hoje, hein?

Bem, tirar fotos, então, exigia momentos especiais, razões lógicas que tinham um porquê. Selfies? Não me lembro de ter feito nenhuma e nem que tenha visto alguém a fazendo. Seria muito complicado e praticamente sem sentido.

Veio então, a revolução avassaladora das câmeras dos celulares, e aí, todo mundo virou turista japonês. Fotografa-se tudo, de todas as formas e para todos os gostos. O importante é registrar para a posteridade. Que posteridade? Que posteridade merece aquela foto do sanduíche com aquele hambúrguer gordurento, cheio de batatas fritas em volta? Por isso, não se revelam, ficam alí, guardadas na memória. De quem? Do celular. Eis aí o grande problema, nossas memórias tem ficado superficiais. Transferimos os registros para a câmera e abrimos mão da responsabilidade de guardarmos as imagens em nossa própria memória. Tanto faz se é o hambúrguer ou o nascimento de nosso primeiro filho. Automatizamos o ato de fotografar. Banalizamos esse ato e assim não prestamos atenção nos detalhes do que estamos fotografando, apenas fotografamos e está registrado. Sem os detalhes nosso cérebro tem dificuldades para criar memória perene, o que dificulta muito o seu acesso quando necessitamos relembrar.

Pois bem, ninguém é contra o progresso, mas convenhamos, desde que não nos prejudique. Solução? Podemos continuar fotografando tudo e todos, da pulga do cachorro ao sorriso mágico da vovó. Porém, antes da foto, olhemos bem para o objeto ou a pessoa a ser fotografada. Vislumbremos bem seus detalhes e, principalmente, percebamos a importância que aquele momento merece se estiver sendo especial. Pode ser, então, que até a Monalisa sorria mais largo para você, em agradecimento à sua atenção e admiração antes de fotografá-la.

Bem, agora vou encerrando por aqui pois chegou minha salada. Vai dar uma foto linda. O quê? Acharam que eu não era deste planeta?

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