Os Ogros

Exagerado é o termo mais brando que se pode buscar para conceituar o amante da gastronomia ogra. Que fique bem claro que o termo não se aplica aos que buscam o prazer da boa comida na baixa gastronomia. Essa, muito além do imaginado, tornou-se uma procura frenética dos que apreciam e entendem da alta gastronomia pelo melhor lugar para se comer bem e barato. Uma verdadeira magia nesses novos tempos de crise econômica, que aliás não termina nunca, menos para os proprietários desses raros estabelecimentos.

Existem pratos da baixa gastronomia que são verdadeiros clássicos e que são servidos tradicionalmente em dias certos da semana, tais como as iguarias que somente as nossas vovós e mamães faziam no velho fogão à lenha, como a deliciosa rabada, o bife rolê, o virado de feijão, a horrível dobradinha, o fígado acebolado, o bife a cavalo, a língua e a fabulosa galinhada, isso só para falar dos clássicos. Pois é essa busca insana que movimenta uma certa confraria de charuteiros que se reúne quotidianamente em uma certa tabacaria lá pelos lados do Bigorrilho, nome que os classudos da cidade consideram uma heresia. O lugar é o Champagnat, piá! Diria um membro de um tradicional sobrenome da cidade.

Mas quero aqui fala dos ogros, aqueles amantes de quantidade estratosférica de comida barata, não necessariamente de qualidade. Aqueles que conceituam uma boa refeição como “prato bom é prato cheio”. Eles estão sempre em busca do suicídio através da comida, tal qual muito bem retratado pelo cineasta Marco Ferreri em A comilança (La grande bouffe) em 1973. Digamos que eles são os radicais fundamentalistas da baixa gastronomia, que embora não se confunda com a ogra, é nela que os seguidores procuram o seu templo de adoração e autoflagelação. A coisa tomou um rumo tão sério, que um autor/pesquisador (André Barcinski) lançou em São Paulo o Guia da Culinária Ogra – 195 lugares para comer até cair. Além de ótimas dicas da baixa gastronomia paulistana, o livreto é uma verdadeira comédia gourmet, pois além de narrar situações para lá de hilárias, elenca ainda os dez mandamentos que os “ativistas” da comida ogra devem seguir, entre eles a de que “a comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato e o estabelecimento não pode ter chef e sim cozinheiro.

Curitiba, ao contrário do que muita gente pensa, possui uma grande quantidade de seguidores da gastronomia ogra, como se pode constatar por uma simples pesquisa na internet. Recentemente, próximo do almoço, participei de uma reunião ao qual fui convidado apenas por ser um apreciador da baixa gastronomia. Pois ali, surpreso, constatei que os membros iriam eleger o insólito: em qual restaurante da baixa gastronomia um “ogro” poderia morrer de tanto comer a um custo muito baixo. O resultado não poderia ser diferente, o eleito foi um certo restaurante de Santa Felicidade que serve frango e polenta. Foi quando lembrei do Ferreri no seu La grande bouffe e de repente logo vislumbrei um ogro apoplético empanturrado de uma quantidade industrial de lasanha e outro com um osso de frango à passarinho entalado na garganta depois do trigésimo pedaço devorado. Assustado, me retirei pensando que aquela gente tinha passado dos limites. Como era quinta-feira, fui em direção ao Maneko’s Bar comer a melhor rabada da cidade regada com uma pimenta dos infernos e com uma sensação de alívio de ainda não ter me transformado em um ogro.

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