Outra Curitiba

Curitiba foi mais uma vez posta no centro do país. A operação Lava Jato gerou seu subproduto, a República de Curitiba, terra em que se cumpre a lei. Noutro momento, a capital paranaense também teve o Brasil voltado para ela, na campanha das Diretas Já! Foi a primeira cidade a convocar a manifestação cuja exigência era o voto direto.

Quando se vive na “periferia”, caso de quase todas as cidades brasileiras para além do eixo Rio-São Paulo, é normal que acontecimentos políticos ou extraordinários de qualquer espécie sejam o mote para roubar a cena. Poderíamos lembrar o caso de Varginha, com seus 100 mil habitantes, que em 1996 recebeu a visita de um extraterrestre tendo a confirmação de várias pessoas. Até hoje a cidade leva a fama. Ou Salvador no carnaval, Campina Grande com a festa de São João etc.

Fora os acontecimentos que ultrapassam a normalidade cotidiana, ficamos de certa forma reféns de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

O último grande acontecimento que nos pôs no mapa do país novamente foi a Lava Jato e seus desdobramentos, como a prisão do presidente Lula. E Curitiba agora está umbilicalmente ligada a siglas como PF (Polícia Federal) e MP (Ministério Público). Sem contar o léxico jurídico, cuja companhia também é marcante.

Uns conseguem de alguma forma ver positividade nisso. Como a já citada República de Curitiba, que se define como “uma ferramenta independente de divulgação de apoio a Lava Jato”, segundo o site. E mais, “A Página República de Curitiba foi criada no Facebook no dia 18 de março de 2016 como resposta às declarações do ex-presidente Lula sobre a Justiça paranaense. O objetivo principal da nossa página é apoiar a Operação Lava Jato, o Juiz Sérgio Moro e a Polícia Federal”. Vale lembrar que “República de Curitiba” é uma invenção do próprio Lula. Em diálogo com Dilma Rousseff, ainda quando ela era presidente, Lula afirmou: “Eu sinceramente estou assustado com a república de Curitiba”, em referência ao Ministério Público Federal e seus promotores e o juiz Sérgio Moro.

Apesar desta Curitiba estampar as páginas dos jornais e do Facebook, ela não é só feita de Deltan Dallagnol, Sérgio Moro e Lula. Há uma cidade com mais de dois milhões de habitantes que segue um mecanismo diferente, tornando a república de Curitiba um lugar muito pequenino. Mais. Não há apenas uma cidade com mais de dois milhões de habitantes. Há várias, cujas facetas não cabem nesta matéria.

A questão é que sendo a favor ou contra a Lava Jato, o ministro Sérgio Moro ou o presidente Lula, as pessoas não dedicam suas vidas única e exclusivamente a este debate, ultrapassam as esferas política e jurídica, seja no trabalho, no lazer ou na vida cotidiana.

Outras Curitibas

A Ideias neste volume e no do mês passado está pautando outra Curitiba, basta ver o “bamboleio cultural” do Cristiano Castilho, as vozes das prostitutas ouvidas por Jussara Salazar e as experiências das drag queens apresentadas por Jessica Stori. Se quisermos debater sobre política, as ruas com seus estudantes dão um recado diferente da República de Curitiba. As ruas do centro passaram constantemente a ser bloqueadas com faixas e cartazes contra o governo Bolsonaro, mesmo com os mais de 76% dos votos a favor do presidente.

Já temos um indicativo da pluralidade da cidade e como é difícil tentar traduzi-la como a terra da Lava Jato ou do acampamento do Lula. Temos outras Curitibas, cujos cruzamentos nem sempre são amistosos, embora não sejam todas as vezes antagônicos.

Uma maneira de se pensar essa variedade da cidade é a sua geografia, a sua que me lê. Há caminhos que nos são próprios. Conhecemos a sincronia dos sinais, os radares, as ruas que cruzam, onde haverá um posto para abastecer, padaria para um lanche rápido. Existe uma intimidade. Tão logo fugimos dos nossos trajetos vemos uma cidade que funciona igual, mas de um jeito diferente. Perambular pelas ruas do Água Verde não se dá da mesma forma que passear pelo Juvevê, apesar das suas semelhanças. A dinâmica própria do Pinheirinho pode lembrar a do Portão ou a do Boqueirão, contudo cada bairro ou região tem suas idiossincrasias. Às vezes até parece que aceita certo perfil de pessoas. No Centro, por exemplo, só é permitido morar estudante e idosos. Enfim, o posto aqui é como conseguimos reconhecer a estranheza – ou diferença – de Curitiba de maneira relacional com a mesma Curitiba.

Agora, se pensarmos essas diferenças das várias Curitibas em modos de vida, o estranhamento é ainda maior. Continuemos com a questão de trajetos: há aqueles que os fazem de carro todo dia e reclamam (todo dia) do trânsito; há outros que estão no mesmo trânsito, sem carro, num Inter 2 lotado em dia de chuva e torcem para chegar no terminal antes da saída do alimentador. Tem gente que mora em Curitiba e trabalha na região metropolitana; tem gente que mora na região metropolitana e trabalha em Curitiba.

À medida que pensamos a vida curitibana fica cada vez mais difícil trazer uma definição. Pois, a cada ano deixamos na história a província que um dia fomos. Pensando em tudo que aqui acontece torna-se insustentável e injusto sermos a República de Curitiba que assusta Luiz Inácio.

Curitiba é famosa por ter os melhores músicos instrumentistas do país. Não são poucos que acompanham ou acompanharam grandes artistas. É preciso fazer justiça, nós temos nossos próprios grandes artistas. O teatro da cidade pulsa, mas como toda cidade, talvez do mundo, ele está à margem, pois é uma arte que está à margem. Se formos tratar de literatura o que não falta são escritores que se reúnem e discutem e publicam. Não é porque não vemos as coisas que elas não acontecem e as pessoas não mostram. Sim, elas mostram. A Biblioteca Pública faz eventos; o Teatro do Paiol faz shows; o Teatro Universitário de Curitiba tem uma programação; e a Cinemateca sempre esteve lá, firme com seus filmes, agora ganhou o apoio ou a concorrência do Cine Passeio.

Ultrapassemos a esfera artística que está para lá de bem servida. O Largo da Ordem sexta à noite é uma maravilha. É uma mistura de gente, de lugares, de coisas para ver e fazer. Sempre foi um lugar tradicional da boemia curitibana, mas é preciso estar atento aos jovens, pois eles são a vanguarda, a novidade, mesmo que seja a remodelação do velho como tentaram fazer com a rua São Francisco. Elegeram a rua Trajano Reis como ponto de encontro para desespero dos vizinhos que moram na região há mais de 50 anos. E ali vê-se de tudo, tem estúdio de rock, onde acontecem gravações, boates, bares de rua. Depois mudaram-se para o Shopping Hauer, na Coronel Dulcídio, e voltaram ao São Francisco, no Largo, que vai verão, vem inverno continua sendo foco da boemia.

Curitiba, a cidade de gente enfezada, antipática, que não dá “oi” no elevador e todos os estereótipos negativos que constroem em torno do curitibano, o que é verdadeiro, injusto e desnecessário, produziu blocos de carnaval alegres e sorridentes. E insistem ainda em dizer que aqui não tem carnaval, talvez haja um desconhecimento do calendário. Começamos antes. Enfim, há vida para quem duvida.

A fazer concorrência com esta Curitiba da rua, há a Curitiba do shopping, cuja movimentação de pessoas é surpreendente. Enclausuradas na segurança e com medo das mazelas do mundo, milhares e mais milhares de pessoas vão aos shoppings todos os dias. E toda regional está servida com ao menos um shopping. Só em 2019 serão mais quatro, três em Curitiba e um em Campo Largo. A capital paranaense não deixou de ser famosa por seus parques, mas os shoppings há alguns anos já se apresentam como lugar de lazer favorito dos curitibanos.

Precisamos ser enfáticos, apesar de repetitivos, esta matéria serve para lembrarmos das múltiplas Curitibas, que ganham terreno à medida em que demandas exigem, como toda cidade grande. É uma pena que a nossa fama atual esteja relacionada a prender pessoas, não porque temos parques, estações-tubo e canaletas de ônibus eficientes etc. Até porque esta Curitiba ficou na década de 1970. É preciso haver renovações. Por um lado somos vanguarda, por outro atraso, como qualquer cidade que se propõe grande.

 

Foto 1: João Urban

Foto 2: Jessica Stori

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