A perenidade da arte

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Ofício lúdico, exercício mágico: arte. Liturgia de assombro do homem precário, contingente, lutando para furtar-se ao império autocrático de Tanatos: arte. Relâmpago, rubrica divina que alguns médiuns eleitos riscam no in-folio do mundo: arte. Weltanschauung onírica: Cristalografia em flor do indescritível: arte. Projeção de tudo aquilo que, no homem, é ânsia de futuridade, apetência de beleza, fome de transcendência, vocação para o Absoluto, heterônimo de Deus: arte. Palimpsesto do Sumo Artista no mural do universo: arte.

Como ensina Simone de Beauvoir, sempre lúcida e penetrante c’est dans l’art que i’homme se dépasse definitivement lui-méme. Sim, é na arte que o homem se ultrapassa definitivamente a si mesmo. E ao ultrapassar-se – operação metafísica por excelência e, no caso, estética – o homem de certo modo se reencontra consigo mesmo. Hic ete nunc, na plenitude da sua verticalidade intrínseca. Em toda a sua recôndita grandeza.

 

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Apesar de tudo, de quando em quando, ciclicamente, surgem algumas vozes mais ou menos conspícuas que, convictas das suas colocações ou apenas pour épater le bourgeois, proclamam, pregam, decretam a morte definitiva da Arte. Ou do romance, da poesia, da pintura, da música e assim por diante. Humanos, demasiado humanos, como diria o mestre de “Assim falou Zaratustra”, esses halterofilistas do equívoco, esses prestidigitadores do embuste, enganam-se redondamente. Ou quadradamente, tanto faz. Mentem, às vezes inconscientemente.

 

Outras, cientes e conscientes de que estão mentindo, numa demonstração insofismável do seu status moral. Mas a realidade os desmente, incontinenti. Vem os desmentidos há séculos. E continuará a fazê-lo, tranquila e olímpica, per omnia secula seculorum.

 

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Apesar de todos os oráculos sibilinos, de todos os prognósticos mais ou menos funéreos, a arte continua viva. Mais viva do que nunca, quiçá. E aqueles que lhe passaram o atestado de óbito? Estão mortos. Eles, sim, estão definitivamente mortos. Nomes? Para que nomes? Estão todos enterrados. A arte – imortal – os enterrou na vala comum do esquecimento. Exemplifiquemos. É sempre bom exemplificar. No começo dos séculos, alguns críticos (menores) de todo mundo, franceses e alemães, sobretudo, procuraram demonstrar ex abundantia – e ad nauseam – a morte do romance e da poesia. Pois bem: depois dos “decretos”, viriam a surgir alguns dos maiores poetas e romancistas de todos os tempos. A nominata talvez seja longa, mas está ainda incompleta, aí vão os nomes emblemáticos, demiúrgicos, cujas obras desmentem, em toda a plenitude, a falácia dos que anunciaram a morte prematura dos dois gêneros literários. Entre os romancistas, Romain Rolland e Roger Martin du Gard, Proust e Joyce (os dois himalaias), Kafka e Thomas Mann, Faulkner e Steinbeck, Wassermann e Hesse, Gide e Bernanos, Grass e Boll, Morávia e Pratolini, Maugham e Mishima, Cholocov e Soljenitzin, Scott Fitzgerald e John dos Passos, Sinclair Lewis e Hemingway, Graciliano Ramos e Érico Veríssimo, Ferreira de Castro e Jorge Amado, Aquilino Ribeiro e Guimarães Rosa, Mauriac e Lagerkvist, Kawabata Iasunari e Simone de Beauvoir, Cortázar e Vargas Llosa, Gallegos e Garcia Marquez, Graham Greene e Margueritte Yourcenar e tantos outros. Entre os poetas, Ezra Pound e W. B. Yats, Pessoa e Drumommond, T. S. Eliot e Valéry, Garcia Lorca e Rilke, Saint-John Perse e Elouard Prévert e Supervielle, Seféris e Kaváfis, Maiakowski e Pasternak, Ungaretti e Montale, Quasímodo e Aragon, Jorge de Lima e José Régio, Machado e Albert, Auden e Archibald Macieish e tutti quanti.

 

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Tout homme réve d’étre Dieu, escreveu um dia Malraux. É um sonho antigo. Um sonho insano? De modo algum. É um sonho que o homem realiza de maneira singela. Como? Criando, arquitetando, produzindo arte. Como Deus, criador, a criatura cria também. No território virgem das páginas brancas. Nas planícies grávidas de silêncio imemorial. Na transparência do espaço. Palavras. Cores. Formas. Volumes. Sons. Em cujas entranhas amadurece o coração da beleza implacável. Pulsante. Vivo.

 

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Não, a arte não está morta. Nem morrerá nunca. Por uma razão simples: ela é coexistencial ao espírito do homem, sombra do espírito de Deus. O artista dá forma, vida, substância àquilo que Shakespeare chamou de the matter of dreams. No limiar do êxtase, no vórtice da paixão, o artista, ao criar, de certo modo recria-se. E ao recriar-se, sub specie aeternitatis da sua arte, perpetua-se. Eterniza-se. Transcende a província do transitório, do efêmero. Para ganhar a imortalidade. Para ganhar-se.

 

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Ars longa vita brevis, disse Hipócrates. Magister dixit. E disse tudo, nessa colocação lapidar. É por isso que os sinos dobram. E continuarão dobrando. Não pela morte da arte – imperecível – mas pelo passamento de todos quantos se recusam a admitir (felizmente são raros!) a sua perenidade inquestionável. É ela que permite ao homem derrotar a trágica finitud  a que se referiu Unamuno. Sim, na arte, com a arte, através da arte, o homem transcende o espaço. O tempo. Ganhando uma nova dimensão. Assumindo uma nova perspectiva. Projetando-se para a frente. Para o alto. (Ó pedra viva nas mãos do Fundibulário!).

 

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Não, a arte não pode morrer. É ela que possibilita que o homem reifique os seus sonhos. Tornando-os reais. Dando-lhes concretude. Mais: fazendo-os brilhar. E ao fazê-los brilhar – iluminando o mundo. E só aqueles “cadáveres adiados que procriam” de que falou Pessoa não se dão conta de uma coisa elementar: a irrevogabilidade, a inexorabilidade desse processo radical de iluminação que está no cerne, na raiz de toda a criação artística genuína e autêntica – e não das suas meras contrafações e simulacros. Em síntese, pois a arte não morre nunca. Apenas se limita a oficiar as solenes exéquias dos que, pensando atestar a sua morte, apenas se limitam a proclamar a sua vida. Imortal? Mortalmente imortal.

 

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