O jogo do pacto: de Göethe a Suassuna

O Diabo não há […] Existe é homem humano.
Guimarães Rosa

 

O Fausto mais antigo de que se tem notícia é o conjunto organizado e publicado pelo editor luterano Johann Spiess em 1587, em Frankfurt: A trágica história do doutor Fausto, o famoso feiticeiro e nigromante, uma reunião de textos populares que circulavam nas feiras, os chamados Volksbücher. Esses textos, publicados no formato de livros populares nessa época, difundiram o mito do homem que num pacto vendeu a alma ao diabo, o Doutor Fausto, médico, charlatão e praticante de magia, cuja lenda já havia se espalhado por toda a Alemanha. Nesta época, as discussões se acirraram com mais intensidade em razão da Reforma Luterana, que teve início na Alemanha, e das consequentes reações da Igreja Católica e do Concílio de Trento, realizado entre aos anos de 1545 e 1563.

A partir da literatura, é inevitável, ao lermos o Fausto, mesmo o das primeiras edições populares no século XVI, que surja em nossa memória o conto Aladim e a lâmpada maravilhosa de As mil e uma noites, em que se percebem elementos tipológicos e muitos motivos comuns às duas obras, como, por exemplo, o feiticeiro, a tarefa difícil, o objeto e o auxiliar mágico, a demanda e ainda os desejos. A história, que já faz parte do repertório popular, narra que Aladim, moço desobediente e tido como mau e preguiçoso, um dia encontra um mago que lhe confia a missão de conseguir a lâmpada maravilhosa que estaria numa gruta. Aladim, ao chegar ao lugar, é enganado pelo mago que lhe tranca na caverna onde verá manifestar-se depois o gênio da lâmpada que lhe concede o direito de fazer três pedidos…

Para o semioticista russo Eliezer Mielietinski, no conto mágico de costumes, o lugar das forças mágicas é ocupado pela própria inteligência do herói e por sua boa estrela, podendo-se notar a oscilação entre o astuto maquinador e o simplório afortunado. Patativa do Assaré também encena o conto das mil e uma noites:

Da África tinha chegado por aquele mesmo ano um velho misterioso de aspecto desumano a quem o povo chamava:

O Feiticeiro Africano

Era um grande necromante que de tudo conhecia com o segredo da arte de sua feitiçaria viu que perto de Bagdá um grande tesouro havia!

 

O exemplo da história de Aladim demonstra a riqueza temática que a imaginação literária alimenta há séculos através do “mitomotivo” ou o leitmotiv universal que simboliza o acerto, a troca e a recompensa que, levada às últimas instâncias, define o pacto ou o acordo que se efetua com a utilização de meios mágicos ou sobrenaturais.

Ressaltando a infinidade de registros da tradição popular, uma pesquisa sobre o Diabo no conto popular paraibano, feito pela pesquisadora Jerusa Pires Ferreira, mostra que há quatro tipos fundamentais de pautas ou pactos a serem feitos com esta figura: contratos com Satã em troca de fortuna, felicidade, mocidade, e aquele definido como o de entrega da alma. Poderíamos acrescentar que, em muitos momentos, os quatro tipos fundem-se em uma mesma negociação.

O pacto se configura mediante uma aliança e a concretização do objetivo mágico que nunca aspirou à condição do milagre como ocorre na religião cristã. Não se concebeu no imaginário cristão a ideia, por exemplo, de um pacto ou contrato com uma entidade santa, já que aí se afiguraria outro nível dialético de negociação, o da promessa e sua resposta milagrosa, cujo acerto se dá por meios estritamente espirituais.

Já para Ariano Suassuna é impossível fazer pactos com Deus, a não ser pela mediação daqueles a quem Deus falou, por meio da revelação sobrenatural, quer através dos lugares-tenentes que sob Ele governam, e em seu nome. Porque do contrário não podemos saber se os nossos pactos foram aceitos ou não.

Os pactos ou contratos, na tradição e na essência, pertencem às circunstâncias terrenas, humanas e aos acontecimentos sobrenaturais, e geralmente estão associados ao plano humano ou diabólico. Nessa dinâmica, há de igual maneira a presença do pícaro e a dualidade complementar na narrativa goetheana: Jerusa Pires Ferreira afirma ainda que o logro e os pactos são, em geral, a arma dos espoliados para lidar de maneira astuta e graciosa com os opressores. Ao analisar o Fausto de Goethe, Haroldo de Campos põe ênfase na linguagem picaresca de Mefisto, situado entre pícaro e malandro, que bebe em toda a tradição de malícia popular e não apenas no demo, realçando ainda a fala do doutor pactário, que debocha do pobre diabo, num diálogo inteiro compatível com a tradição da picaresca popular.

Até Goethe, os Faustos da danação fizeram do protagonista e do diabo heróis complementares em que este último saía vitorioso. A transfiguração final na passagem do personagem definido pelo caráter heroico da salvação virá, portanto, no Fausto goetheano, representado pelo triunfo do eterno feminino em que Fausto, ao final, será salvo. Margarida, como Justina no Livro de São Cipriano, será a heroína que resiste à tentação e recusa o pacto, simbolizando a pureza e a simplicidade personificadas pelo bem.

Em A Pedra do Reino, para Suassuna, o diabólico e o divino comparecem na dualidade que simboliza a eterna recusa de redução ou simplificação do mundo; Quaderna, o protagonista, será pactuário da ambivalência das forças sagradas e profanas. À vida e à esperança, personificadas na promessa do retorno e da salvação por meio de Sinésio, se contrapõem a morte e o sonho perdido na figuração da terrível Moça Caetana, a cruel Morte sertaneja, que costuma sangrar seus assinalados, com suas unhas, longas e afiadas como garras.

O pacto de Quaderna, no Folheto XXII, é o da Sagração do Quinto Império, a continuação do reino fundado a partir de Pedro Alexandre Quaderna, o bebê sobrevivente do Massacre da Pedra do Reino e também seu avô. A cena é ritualística quando Quaderna prepara-se para o pacto. Desembrulha o matolão, tira a coroa de prata dos antepassados, toma duas varas de ferro de tanger bois que sempre conduzia e enfia no topo de uma a Esfera com Cruz que faz dela um cetro, e na outra um semicírculo enfolhado e entalhado que a transforma no Báculo Profético. Em seguida veste o Manto Real, costurado com pedaços de couro de onça e gato-maracajá e, sobre um pico de pedra, contempla a coroa terrível, prateada:

Nesse momento Quaderna é tomado pela visão da beleza das pedras e reconhece a riqueza encantada e fabulosa do mundo régio da poesia. Refaz o ritual de encantação de seu antepassado Dom João Ferreira Quaderna, “o execrável” na Pedra dos Sacrifícios, sagrando a si mesmo como o herdeiro do Quinto Império da Pedra do Reino. Pronuncia, então, a lendária Oração da Pedra Cristalina:

Minha Pedra Cristalina, que no mar foste achada, entre o Cálice Bento e a Hóstia Consagrada. Treme a terra, mas não treme Nosso Senhor Jesus Cristo no altar sagrado.

Tremem, porém, os corações dos meus inimigos e dos que me desejam o mal. Eu te benzo em cruz e não tu a mim, entre o Sol, a Lua, as Estrelas e as três pessoas distintas da Santíssima Trindade. 

Meu Deus! Na travessia avistei meus inimigos. 

[…] Salvo fui, salvo sou, salvo sempre serei. Contra mim nada valerá.  Contra os meus ninguém se levantará. E para proteger meu lar, com a chave do sacrário eu o fecharei […]

 

A oração para fechar o corpo da Pedra Cristalina, cuja matriz possivelmente seria o Salmo 91 da Bíblia, consta de algumas edições do Livro de São Cipriano. Geralmente considerada de autoria anônima, segundo o personagem Quaderna, haveria sido escrita pelo santo padre do Juazeiro, o Padrinho Padre Cícero. Uma curiosidade é que quando o cangaceiro Lampião foi morto em 1938 em Angicos, no interior de Sergipe, essa oração foi encontrada entre seus pertences, o que ilustra a religiosidade do cangaceiro e a necessidade de ser protegido contra os males, fechando seu corpo.

Na cena, quase delirante e quixotesca da coroação e do pacto solitário, o sonho perigoso, selado com as forças divinas e diabólicas e com o sangue de seus antepassados, Quaderna é o herói, mas também é o anti-herói das vitórias ocultas. Almeja ser o herói, mas um herói secreto [“És Rei? De fato, foste Rei?”, indagará o Corregedor] e sonha com as proezas de seus antepassados, apesar do sacrifício e da sina trágica.

E este sonho, como um segredo, ele dividirá apenas com o leitor ao reacender em seu sangue essa sina trágica e heroica dos Quadernas. A narrativa aí se abre, exatamente quando o personagem, em seu lugar mais íntimo, confessa ao leitor que não perde de vista a realidade enquanto herói que é, mas ao mesmo tempo como um fingidor de herói, humano e falível, dirá ao fim do ritual:

Neste aspecto se delineia o espaço ético fundamental onde Suassuna rompe com o maravilhamento da loucura em Cervantes. Para Quaderna a realidade é soberana em seu desejo premente, aquela realidade-realeza em contraposição à da literatura-literária. Quaderna é um personagem literário que habita a realidade comum e, nas palavras do próprio Suassuna, “a arte não é uma imitação do real, mas uma recriação, uma realidade magnificada”, acontecimento que para ele situa-se numa altura que vai além dos limites impostos pela razão ou pela loucura.

Já o pacto goetheano reveste-se de um caráter farsesco quase de aposta e risco:

 

MEFISTÓFELES:

Em tal sentido podes arriscar-te.

Obriga-te, e hás de nesses dias ver

Com gosto o cimo de minha arte,

Dou-te o que nunca viu humano ser

FAUSTO:

Que queres tu dar, pobre demo?

 

E nesse sentido, percebe-se a importância do registro da palavra escrita em detrimento da palavra oral no pacto do Fausto de Goethe:

 

MEFISTÓFELES:

No festim doutoral, assumirei tão logo

De servidor o ofício e o porte.

Mas, por amor da vida e morte,

Algumas linhas, só, te rogo.

FAUSTO:

Pedante, algo de escrito exiges mais?

Palavra de homem conheceste tu jamais?

Não basta, pois, reger-me eternamente

Os dias minha fé expressa?

MEFISTÓFELES:

Por que exageras teu fraseado

Com jeito tão acalorado?

Serve qualquer folheto ou nota

Com sangue assinas, uma gota!

FAUSTO:

Pois bem, a farsa, então, se adota

Já que te deixas contentado.

MEFISTÓFELES:

Sangue é um muito especial extrato.

[…]

O pacto de Fausto e o pacto de Quaderna são ritualísticos e, considerando as diferenças constitutivas de cada um, ambos encenam o acontecimento simbólico que vai além da instância verbal. O mito fáustico, surgido na Idade Média, legitima o ato da escrita como documento, registro material de um acordo contratual, um procedimento que define a percepção da identidade e a palavra do outro mediante sua assinatura ou pacto.

Para Hobbes, no Leviatã, os contratos eram qualquer juramento proferido segundo fórmula ou ritual. Segundo ele, os sinais de contrato podem ser expressos ou por inferência. Expressos são as palavras proferidas com a compreensão do que significam. Essas palavras são do tempo presente, ou do passado, como dou, adjuco, dei, adjuquei. Os sinais por inferência seriam, às vezes, consequência de palavras e, às vezes, consequência do silêncio; às vezes, consequência de ações. Portanto, tudo o que poderia ser feito entre dois homens que não estivessem sujeitos ao poder civil seria jurarem um ao outro pelo Deus que ambos temeriam.

Em entrevista, quando perguntado se o desejo de viver o levaria a um pacto fáustico, Suassuna respondeu: Pacto com o demônio? Não, não faço negócio com esse cidadão… Agora, Quaderna, de certa forma, faz. Isso não ficou muito claro na Pedra do Reino “porque tinha uma continuação que eu não cheguei a escrever. Se eu conseguir terminar esse romance que estou fazendo agora, isso aparecerá melhor.”

O pacto fáustico pode ser pensado como a caracterização de uma aliança na negociação entre o humano e as forças sobrenaturais, no sentido da instauração de uma nova ordem de concretização, a ação movida pelo desejo como possibilidade infinita de renovação.

Com o tema do pacto apresenta-se o arcaico, a importância da palavra, a metáfora poética, o ritual, a oralidade e o mito, sob aspectos distintos em Goethe e Suassuna. As funções narrativas mudam os nomes e ao mesmo tempo os atributos das personagens, o que não muda são as suas ações ou as suas funções. Portanto, ações semelhantes se emprestam a diferentes personagens, sendo possível a partir daí entender as funções desses personagens dentro da narrativa. Afinal, não seriam os enredos em si que poderiam ser explicados historicamente, mas o sistema de composição ao qual eles pertencem, a ligação histórica que os vivifica.

Do século XIV ao século XVII, o pacto foi sempre instrumentalizado por linhas de forças religiosas e políticas. Goethe, no decorrer dos dois Faustos, trabalho que o ocupou por quase sessenta anos, virá secularizar a relação pactária abrindo saídas que possibilitaram pensar o ser humano de uma perspectiva mais próxima da liberdade de ação.

Suassuna, a partir da ampla expectativa que a atividade criativa permite ao escritor contemporâneo, elabora com seu texto inúmeras possibilidades, ao tratar o tema do diabo na Pedra do Reino: Quaderna estabelece um pacto que, subjetivo, abre-se ambivalente no pensamento do personagem, atualizando a função do duplo negativo que faz do teatro o seu teatro e o teatro do seu povo, buscando o Rei que existe dentro de si próprio e de cada um.

Nas palavras de Suassuna, “os problemas fundamentais do homem estão lá [no arcaico]. E o homem é igual em qualquer canto, em qualquer época. O que varia são as circunstâncias através das quais cada comunidade realiza o humano”.

De modo que, entre inúmeros pontos conflitantes, entre aspectos formais e estruturais, entre fatores relativos à identidade e à História, entre as convicções religiosas, o sobrenatural e a razão, na busca de uma ou mais verdades, esbarramos no infinito labirinto das teorias e lembramos como Compagnon que o protervus é sem fé e sem lei, é o eterno advogado do diabo, ou o diabo em pessoa: Forse tu non pensavi ch’io löico fosse! Como Dante lhe faz dizer, “Talvez não pensasses que eu fosse um lógico” [Inferno, Canto XXVII, v. 122-123] – aí nenhuma doutrina, senão a da dúvida hiperbólica diante de todo discurso sobre a literatura e seus pactos.

 

 

 

Legendas

Foto 1: Fausto Delacroix

Foto 2: Iluminogravura Ariano Suassuna

Foto 3: Suassuna por João Urban

 

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