O único nós possível

Na tentativa de encontro com novas narrativas o esforço não é necessário. As vozes diversas estão em toda a parte e o que move é a perspectiva da urgência. Elas sempre estiveram aqui. Qual é a expectativa do encontro agora? O que põe seu olhar aqui, para elas agora, o que te faz caminhar no trajeto da sobrevivência? Você teve que lutar para a sua história estar nos livros? Você lutou para ser ouvida e para estar aqui? O choque das questões e a necessidade de abrir alas. A urgência do novo se impõe sempre e mais uma vez. Novo pela transformação, pela recriação, pelo corpo em movimento coletivo. Novo pela arte que se faz a cada encontro. Novo que não aceita os parâmetros bem definidos da cidade, pois as experiências escapam as fronteiras. As definições do mapa não alcançam o poder das nossas vozes do sul do mundo. La resistencia no es sólo aguantar sino construir algo nuevo.

Saber o que fazer quando ver a beleza exteriorizada. Queimar o incômodo, Paris is burning e você? As criações fluidas, as falas em cores, o corpo que canta só com o movimento da boca. Natureza sintética colada no corpo, punk, Love e Bowie, mulher transforma, riscos no peito – o rosto cada uma tem o seu, canção de amor, a melancolia do palhaço e o deboche. Nascer e matar o leão. Recriar porque tentam destruir ou porque o feito já não faz sentido. Aprender a não conservar o que impede o mato de crescer, avançar no poder em ver seu corpo como obra de arte. Aqui não cabe a vênus, a não ser a independente em áries. Trabalho artístico, encontro com o valor, a necessidade material, o suporte também na leveza do abraço. Estou falando da cultura drag, do trabalho das drags e transformistas em Curitiba.

Em noite de Clubbers e Freaks a SYLK – Support your local kweens – ocupou a rua São Francisco e preencheu o espaço com a resistência LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Travestis, Queer, Intersexo, Assexuais/Arromântiques/Agênero, Pan/Poli+) e toda a sua produção artística. A SYLK nasceu da necessidade de dar o suporte para as drags e transformistas em sua profissionalização em arte, com formato itinerante, circulando em festas e compartilhando as criações. O imaginário e a criação drag/transformista não se dão apenas nas roupagens consideradas femininas em homens, as criações são múltiplas e vão para as diversas reflexões de criação em corpo, como o próprio questionamento ao gênero, montações fogem estereótipos e criam outras possibilidades de ser. Além do empoderamento enquanto artistas e do suporte na profissionalização, a SYLK também é feita do apoio cotidiano em lidar com os conflitos individuais e coletivos, quanto à desvalorização da arte drag e das relações intrínsecas de LGBTQIA+fobia existentes. Espaços de sobrevivências, de alianças e de liberdade para criar e expor.

Conversei com WHO, “uma club kid dixxcolada” e atuante na cena local há três anos, junto das artistas Cereja Bomba, Grunnup, Umatheusa, Aayla PHRIK e Aline Martins, fundou a SYLK. Também conversei com Yasmin, transformista e performer curitibana, agenciada pela Redoma e Andrei Rufino de Lira, designer de moda por formação que produz e desenvolve desde 2015 a persona e identidade de Donna Bagos, a drag queen que é a “personificação do deboche”. Todas artistas drags e transformistas independentes no caminho árduo pelo reconhecimento de seus trabalhos.

Estive com suas vontades em criatividades postas. O poder da singularidade da troca entre as suas, a integração e a consolidação da força em existir em arte e depois em partilha. Corpos que entendem o que é estar aqui e agora com tudo que isso pode carregar. O Brasil de 2019. A narrativa que se contrapõe à história oficial também virá delas, então a necessidade da palavra se coloca. O único nós possível.

IDEIAS – Como funciona seu processo de criação? Qual é o papel da coletividade e da individualidade nesse processo?

WHO – Meu processo de criação é muito fluido. Às vezes planejo algumas montações, mas na maioria das vezes vou no embalo do que estou sentindo e o que quero transparecer pela minha criação. A única certeza que tenho é de não repetir a mesma maquiagem. Gosto de inovar e trazer novas faces e texturas sempre. A coletividade vem como ferramenta de apoio fundamental, ainda mais numa questão que é a evolução de entender seu rosto e proporções. Nenhuma drag começa polida, todas aprendemos como nosso rosto funciona na luz, os ângulos que nos favorecem, cores e formas. O coletivo entra em ação quando os amigos apoiam o seu hoje acreditando na sua evolução do amanhã. A individualidade entra como fator determinante e diferencial entre todas nós e nossa arte. Cada uma de nós viveu ou passou por eventos singulares e trazer estes momentos é ser único. Particularmente minha identidade entra quando trago a referência club kid e a drag artsy pra cena. A questão não é me ver como uma figura feminina mas como um corpo artístico.

Yasmin – Eu me inspiro muito por meio de vivências, sejam das mais sutis às mais estrondosas. Às vezes algo que ouço na rua, uma imagem. Também acontece de criar a partir dos materiais que tenho à minha disposição: como trabalho de forma independente e com precariedade, acabo tendo como material coisas que as pessoas se desfizeram ou coisas soltas de armarinhos que tenho que transformar em uma montação do zero. Me inspiro principalmente nas minhas amigas e companheiras artistas que estão a minha volta, e isso é o que mais me impulsiona para criar. Ao mesmo tempo, processos pessoais como o enfrentamento da minha condição enquanto pessoa bipolar e borderline, são um grande motor para as minhas performances atualmente. Abordar a questão da loucura e da decadência, ao mesmo tempo que faço o que me cura. A situação política também me atravessa bastante.

Donna Bagos – Procuro fomentar minha criação de maneira orgânica, mas com fundamentos embasados na prática do design. Priorizo o questionamento do padrão estético da beleza drag escrachando os elementos que compõe a minha imagem, descontruindo o que de fato já é uma desconstrução, a arte drag. Em um contexto amplo acredito que a coletividade drag é análoga à da sociedade, é um universo diverso onde cada um soma com suas particularidades e peculiaridades. Minha drag, por exemplo, não é só, não existe drag só, é necessário a comoção das pessoas que estão ao seu lado, pessoas que lhe apoiam e que junto de você fazem acontecer, amigos e familiares que opinam e contribuem diretamente com o projeto, que acreditam e incentivam sua arte.

O que o alimenta entre referências imagéticas, sonoras e intuitivas? O que está sempre presente no seu processo de exteriorização e partilha de arte? Como é ser corpo no cotidiano, mas corpo também em arte?

WHO – Eu sou inteira referências imagéticas e fashionistas. Admiro muito a Alma Negrot, Ginger Moon, Ryan Burke, Cheddar Gorgeous, Victor Kloom. Acho que cada uma traz consigo ideias que eu uso para tentar me achar. Gosto da forma como algumas usam texturas, cor, profundidade e isso me fascina. Não é o gênero, mas sim a arte que elas carregam. Apesar de nascer do movimento clubber e até frequentar festas underground, minhas referências musicais fogem ao movimento. Já fui até cobrada por não me adequar musicalmente à minha estética mas quer saber? Eu amo ser diferentona e isso me cativa a cutucar mais a normatividade imposta. Se eu sigo minhas intuições? Sempre! Adoro ver algo em desfiles de moda e esboçar uma forma low budget de trazer isso para cena curitibana.

Meu processo de exteriorização sempre traz muita cor e muita textura. Essa brincadeira flui por muitas ideias que tenho. Adoro também trazer representações da natureza ou elementos. Integrar-me à natureza mesmo que sinteticamente. Tento sempre trazer a questão do partilhar conhecimento e explicar o que sou usando da minha objetificação como forma de arte para difundir o conhecimento.

De um ano para cá vivo a ambiguidade de trabalhar com saúde pública e ser um corpo no cotidiano, mas aos fins de semana ser arte. É complicado para ser sincero, principalmente a parte emocional. Eu amo cuidar de pessoas e estar lá para elas, mas também sinto que tenho um papel como agente transformador enquanto club kid. Não sei explicar muito bem o limbo que isso é mas poderia definir como dubiedade.

Yasmin – Tento acompanhar de perto o movimento artístico da cidade, em seus vários formatos, o que sempre me instiga de alguma forma. Poderia dizer que não seria nada do que sou hoje sem a Casa Selvática, por exemplo. Minhas referências vêm bastante do mundo da música, principalmente as décadas de setenta a noventa, e em especial o movimento punk. A maior influência que tive/tenho na vida é o David Bowie, que foi o motivo de eu começar a me montar. Hoje uma grande influência para minha performance (e vida, porque elas estão longe de serem dissociáveis) é a Courtney Love. Por mais controversa que ela possa ser considerada, eu acho que nossa personalidade é bastante parecida e que ela representa muito bem uma mulher que não se cala e não castra sua loucura só pelo que os outros pensam. Alguns filmes também me influenciam, principalmente Rocky Horror Picture Show e toda a estética cabareteira. Além disso, o movimento ClubKid, bruxaria e todas as transformistas estranhas desse mundo.

Está sempre presente em meu processo de exteriorização a entrega e a verdade. Talvez por ter vindo de tantos anos de teatro. Para mim, não tem porque subir em um palco se não é para me entregar 100% ao que vou fazer e para fazer com verdade. É sempre uma decepção comigo mesma quando eu sinto que fiz uma performance na qual não consegui estar completamente presente no palco. Para mim a partilha de arte, qualquer uma, é sempre abertura e revelação de uma parte sensível para o mundo exterior. Vulnerabilidade, mas que também é força. No cotidiano eu sinto que tenho uma liberdade maior no me portar e me carregar pelo mundo, como alguém que já conheceu as formas não ordinárias que um corpo pode tomar.

Donna Bagos – Minhas referências convergem ainda que suas origens sejam extremas, fundamentadas na estética kitsch, aprecio o estranho e incomum. O que é comum em todas as minhas execuções é a personificação e ressignificação da dor e da melancolia, é, inclusive, a maneira que encontrei para dialogar e expressar o que sinto enquanto pessoa física e artista.

Quais são seus sonhos, desejos, objetivos e desafios como artista drag e transformista aqui e agora?

WHO – Sonho em poder levar a SYLK para outros locais, que a prefeitura reconheça nosso movimento cultural e possamos galgar espaços maiores na capital. Gosto de pensar que primeiro temos que ter os pés bem ancorados com um movimento sólido para então tentarmos outros espaços. Uma utopia seria ser reconhecida em panorama nacional pelo o que faço. Isso me surpreenderia muito e ouso dizer que me levaria às lágrimas. É tão gratificante poder ver que seu empenho tem dado frutos. Fazer parte de um outro videoclipe ou até ir para São Paulo seria uma grande realização.

Yasmin – Meu maior desejo como transformista (gosto mais dessa palavra, primeiro porque é em português, segundo porque se distancia da ideia de drag RuPaul, da ideia que apenas homens gays podem se montar e de que significaria simplesmente “vestir-se como uma garota” eu não conheço nenhuma mulher que se pareça cotidianamente como uma drag queen, e você?) é conseguir juntar a minha formação em antropologia, e meu interesse por outras áreas tanto teóricas quanto da arte – como fotografia, escrita, música, vídeo, pintura, escultura – e fazer trabalhos cada vez mais interdisciplinares. Espero um dia poder escrever sobre as coisas que nos passam. Meus maiores desafios são com certeza a própria sobrevivência em uma área que é pouco monetizada, principalmente para mulheres. Meu maior sonho sempre foi viver de arte, acho que para qualquer artista. Mas isso no Brasil está ficando cada vez mais longe de acontecer.

Donna Bagos – Minha missão enquanto artista é instigar o questionamento das pessoas ao meu redor, exaltar o estranho e o incomum, confortar e justificar a dor, apoiando-me na música, moda e design. Tem sido árduo viver enquanto corpo performático em uma sociedade repleta de hipocrisia, corrompida por falsos valores morais, onde a ignorância tem se mostrado cada vez mais presente e consistente.  É desafiador viver sob a condição de comunicar com o corpo e imagem antes mesmo de discursar, pois muitas pessoas simplesmente não querem se abrir ao novo para conhecer realidades alternativas. É desgastante e excitante ter conhecimento que o que me move é a arte, principalmente pelo fato de saber onde estou inserido, conhecer as injustiças e desigualdades sociais, estar ciente da jovem democracia brasileira escoando pelo ralo e que a arte é a uma ferramenta que posso utilizar para tentar amenizar essas situações. Neste contexto, meu maior desafio é alcançar pessoas afetadas pelo falho sistema com meu produto cultural, para inspirar a continuidade em suas lutas pessoais, servindo como espelho, exemplo e estímulo.

 

Como você vê a formação de espaços seguros/de criatividade/de vivência entre drags, como a SYLK, e também qual o diálogo que esses espaços têm com a luta coletiva LGBTQIA+ e outras lutas como o feminismo e a luta antirracista?

WHO – As formações de locais de fala ainda é pequena e geralmente organizadas pelas próprias minorias para terem suas vivências e experiências ouvidas. Se faz necessário discutir SIM! Temos que primeiramente dialogar enquanto comunidade para determos um discurso homogêneo e encorpado com argumentos bem articulados e creio que isso se dê pela educação primária da comunidade LGBTQIA em conceitos básicos, por exemplo. O movimento ganha força e dialoga perfeitamente quando trazemos assuntos como binarismo, transsexualidade, o espaço da mulher na arte drag e o movimento racial para dentro das nossas discussões. A questão aqui é abrir a mente das pessoas para realidades paralelas e fazê-las refletir. Não podemos segregar outras lutas ou diminuí-las, temos que abraça-las, compreendê-las e então difundi-las.

Yasmin – Acho fundamental. Ter um espaço sem julgamentos no qual você é valorizada pela sua arte é fundamental e completamente inspirador. Se tratando do movimento drag tradicional, é um movimento que se diz articulado ao movimento LGBTQIA, ou melhor, ao movimento gay, porque todas as outras letras são extremamente invisibilizadas e é extremamente machista. Porém, o que é interessante desse novo momento que estamos tendo aqui, são mulheres ocupando o que é nosso por direito e reivindicando a possibilidade de ser drag e se montar, antes reservada apenas para homens gays e algumas mulheres trans. Eu acho que essa organização e mobilização de mulheres feministas que se montam que está rolando agora, e que eu orgulhosamente faço parte, tem o poder de revolucionar tudo que temos no nosso imaginário drag.

Donna Bagos – Um LGBTQIA+ consciente do seu papel social e político sabe que agradecer a luta feminista é o mínimo a se fazer, foram as mulheres quem possibilitaram os estudos teóricos a respeito do gênero, sua construção social e sexualidade, é através da luta de igualdade de gênero que podemos nos posicionar hoje e nos entender enquanto comunidade ou indivíduo. Espaços coletivos para vivência e troca de experiência são fundamentais na fidelização e enriquecimento da cultura regional, especificamente a SYLK, que cumpre um papel muito importante e pouco estimulado pelos produtores e casas noturnas, que é o espaço para primeira performance, um convite à montação, o diálogo aberto entre artistas e público, não há essa interação explícita em outro evento da cidade. Os eventos produzidos em casas noturnas e festas de show drag contam sempre com um casting limitado de artistas que já estão na cena há algum tempo, isso é desestimulante para quem está começando e não vê espaço para crescer, explorar e se impor enquanto artista, sem apontar o descaso a respeito de cachê baixo, isso quando é existente. Existem muitos casos de produtores que ofertam o espaço para performances e por isso abrem mão do cachê, como se uma coisa justificasse a outra. É necessário reforçar o fato de que a arte drag é algo que custa muito dinheiro, requer muito tempo da sua vida pessoal, altera o seu corpo físico e mental, e o retorno só acontece a longo prazo.

 

Como você vê a questão da representatividade? Acredita que existe um limite?

WHO – Acredito que muitas empresas e pessoas públicas usam da representatividade conforme necessitam. Hoje se fala muito sobre afro-convenientes e LGBTQIA+-convenientes, que são exatamente pessoas que se apropriam de características ou benefícios dados às minorias para si. Não creio que temos que limitar algo, sou muito idealista da mudança e do diálogo para expandir sempre. Se a pessoa me representa, se vejo minha comunidade representada e se há um retorno financeiro ou cultural então não há uma exploração da nossa classe.

Donna Bagos – Representatividade nunca é demais quando é verdadeira. É inaceitável e inconcebível a ideia de representar uma comunidade ou classe para autopromoção e estimular o capitalismo. É necessário cuidado e atenção quando utilizar da representatividade, principalmente dentro do campo do marketing e do branding pessoal.

 

Fotos de Jessica Stori

Foto 1: Alice Zikagirl, Aura Esmeralda, Cereja Bomba, Gaga Gothic e Yasmin

Foto 2: Gerson Pietroski, WHO, Umatheusa e Rafael Reis

Foto 3: Donna Bagos

Foto 4: WHO e Hellish Decay

 

 

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