PANIS ET CIRCENCIS / AINDA É TEMPO / PÁSSARO LIVRE / JANELAS / SUBVERSIVA / MAESTROS DO PODER

Juliana Brandão nasceu em 12/01/1979 em Curitiba. Poeta e médica veterinária, já assinou seus textos como JB Rayanne e Rayanne Stec e diz que costuma não se dizer escritora, “sou um caminho para as incorporações da poesia”. Ser o caminho, ser o passo, ser o corpo que treina para chegar e sentir. Tentar ser poesia, não só a mão que escreve, ser a vida em delírio, sonho, concretude em ver. Talvez o maior desafio. Buscar ser poesia é aprender com ela, ser chamada, “não basta que eu lhe queira escrever. Um poema precisa querer ser escrito”. Ser chamada é também chamar. Sorte de encontro, esforço na partida, cá está, o movimento do corpo ensinado. Os poemas de Juliana.

 

 

 

PANIS ET CIRCENCIS

 

Tenho pena

Dos que não amaram

Até a rouquidão das palavras

A exaustão dos versos

Dos que não se queimaram

Não rolaram sobre todas as brasas

 

Tenho pena

Dos que só viveram

O conforto dos mornos

Não viveram todas as nuances

Bordas

Abismos

Beiradas

 

Tenho pena dos que deixaram do voo

Pela segurança das escadas

Tenho pena dos que não morreram de amor

As mil mortes

Do amor

Da dor

Do ócio ou do tédio

 

Pena dos que abdicaram

De passos largos

Goles grandes

Saltos profundos

Pena das portas

Partes

Pernas

E olhos

Fechados.

 

Tenho pena de nós

Os tolos

Os loucos

Os sãos

Tenho pena dessa nossa atuação

Que desconhece o espetáculo.

 

 

 

PÁSSARO LIVRE

 

Sou pássaro

Livre no céu da tua boca

Quando me pronuncia verbo

 

Sou cativa

Nas grades do teu peito

Quando me acumula

 

Sou líquida em estado bruto

Vento quando te arrepio

E onde não me recordo fui múltipla

Antes mesmo de afinar o verso

 

Eu já fui além,

e insuficiente me detive

 

Já fui ninguém

e também não me contive

 

Não me soube rasa

e no escuro perdi minha sombra

 

Já não encontro casa

 

Eu me mudei em palavras

para habitar quem eu soo

 

Já não me falta asa.

 

 

AINDA É TEMPO

 

Vê, ainda é tempo

Ainda não puderam apagar de todo o rastro

Os lobos do tempo seguem a trilha da lua

E há ainda um leve perfume de instintos

 

Há o fremir da pele na noite densa

Há a sensação indócil em léguas circulares

Há um dilúvio de palavras caladas no céu da boca

 

Há a estupidez padrão dos caminhos

Há a lentidão aziada dos relógios silentes

Há um conluio de que as coisas sejam mornas

 

Mas ainda é tempo

 

Ainda ontem um pensamento foi tingido pelo nome

E a boca equidistante dormiu secas angústias

Ainda ontem se perdeu nas socialidades várias

E descobriu-se fera num covil de taxidermias

 

É sem fundo o breu dessa indigência de versos

Escarlate a profusão manchada de gestos

Azul o crepúsculo sob as unhas tintas de sonhos!

 

Ainda é tempo

 

É premente o despudoramento dos verbos

Na indulgência fátua dos abraços

É impreterível o amálgama das vontades

Subjugando a pujança das solidões

É elementar a convergência das atrações

Eclipsando o clichê das hodiernidades

 

Ainda é tempo

 

Pulsa à pele uma ideia

Que pousa os lábios, gulosa

É quente na ponta dos dedos

A página-início em pausa de prosa.

 

 

 

JANELAS

 

Há um sustenido que se projeta
Em todos os estômagos
E uma secura sulcando todas as gargantas

Há pássaros de cantos cortados
E um estertor de esperança

Há fuligem na casca do amor
E fuligem, no passo entre as gentes

Há peitos náufragos em sofrimento
E nuvens negras afogando os ais

Há uma epidemia de estafa sucessiva
E corredores encardidos de doutores em nada

Há violências pastando nos quintais
E autoridades vadiando sujas pelas ruas

Há um conluio limpando as patas sobre os demais
E a louvável inércia bovina estercando seus ais

Há histeria e hipnose na ração diária
E tanto circo onde distrações derrubam sementes

Há todo um movimento fechando seu círculo
E esse quebranto, no corpo e na mente

Há, no entanto, uma luz moribunda
No centro nervoso do espasmo que sente:
Há uma fé marchetada no centro
Que não grita, mas não desembarca:
É a pura engrenagem do movimento…

 

 

 

SUBVERSIVA

 

Um momento vivo

Um gesto, um gozo, um gasto

 

Um grifo quase perfeito

Indecifrável, inteligível e basto

 

Teso, cor dissol vendae*

Atua e pulsa cheio, faz de conta

Mas caminha vivo pelas veias

Marcha a madrugada

Até manchar de sol a letargia

 

Cale-se aquele que lê estrelas

Cale-se o que queria

Cale-se o que condenava

E cale-se quem não sabia

 

Apenas a mão do tempo

Despe a farsa do bom senso

Acende a luz dos versos

Na profusão dos dias

Esvazia a confusão do ego

Agride a singularidade humana

E cria o inesperado

Riscando em frases cifradas

Uma condição improvável

 

O que vem depois do infinito?

 

Dentro dos medos um sonho

E o passo despreocupado

De um que pela vida

 

C

a

i.

 

*Latim: coração subversivo

 

 

 

MAESTROS DO PODER

 

Sim, eles são perigosos

Trazem nos olhos as armas da censura

Espumando nos cantos da boca

Ódios proferidos
Em nome de um Deus

 

Sim, eles estão cegos

À dor do próximo e à própria

Que elevou aos patamares da loucura

Ideias vazias de si cortando aos outros

 

Sim, eles estão nos espelhos

Em todas as casas e travesseiros
São os nossos e dormem em nós

Um banquete de feras, desunidas pelo mesmo desejo

 

Sim, este poema é um apelo:

Não existe um lado, existe uma guerra

Onde morreremos tolos, meros soldados

Sedados

Pelos maestros do poder.

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