Almoço na casa de Cukor

O gentil e receptivo diretor cinematográfico americano George Cukor (1899 – 1983), dono de uma excelente cozinha na sua residência em Los Angeles, convidava colegas diretores para um almoço anual quando da entrega do Oscar. Sua casa era frequentada regularmente por Katharine Hepburn, Irene Selznik, Vivian Leigh, entre outros astros. Decorada com extremo bom gosto, situada perto da Sunset Strip, em Beverly Hills.  Esta foto de 1972 foi tirada depois do almoço, com diretores que marcaram Hollywood desde os anos 1930, nos mais diversos gêneros e estilos. Se o leitor fizer uma pesquisa sobre os filmes que saíram destes convidados, vai encontrar grande número de obras primas, sucessos que viraram “cults”, filmes premiados com Oscars e em famosos festivais como os de Cannes, Veneza e Berlim, que estão em inúmeras listas de “melhores”. Só para ficar com o anfitrião, foi uma carreira de mais de 50 anos, teve sucesso e certo poder em Hollywood de meados dos anos 1930 aos 1960, com mais de 40 filmes, decaindo após a falência do sistema de estúdios. Eis alguns de seus filmes:

“A dama das camélias” (Camile), com Greta Garbo, Robert Taylor, de 1936; “Boêmio encantador” (Holiday) com Katharine Hepburn, Gary Grant, de 1938; “Núpcias de escândalo” (The Philadelphia story) com Katharine Hepburn, James Stewart, Gary Grant, de 1941; Nasce uma estrela (A star is born) com Judy Garland, James Mason, de 1954; “Minha bela dama” (My fair lady) com Rex Harrinson, Audrey Hepburn, de 1964. Era considerado um grande diretor de atores, tendo dirigido diversas cenas de “E o vento Levou”.   Voltando à foto, Buñuel é um dos convidados, pois recebera o Oscar de melhor filme estrangeiro por “O discreto charme da burguesia” (Le charme discret de la bougeoisie). Foi um dos precursores do surrealismo na França, fez filmes no México até poder voltar à Europa. 33 filmes em 50 anos de carreira, jamais foi acolhido por Hollywood. Sentados na fileira inferior, da esquerda para a direita: Billy Wilder, George Stevens, Luis Buñuel, Alfred Hitchcock, Ruben Mamoulian. Em pé, da esquerda para a direita, Robert Muligan, Willian Wyler, George Cukor, Robert Wise, Jean-Claude Carrière (roteirista de Buñuel) e Serge Silberman (produtor de filmes de Buñuel). John Ford também estava no almoço, mas sentiu-se mal e saiu pouco antes de a foto ser batida, vindo a falecer um ano depois, em 1973.

Mas o que conversavam enquanto faziam o “lunch”, do meio-dia até as três horas da tarde? E diretores tão díspares, como Wilder, Cukor ou Buñuel. Sempre fiquei intrigado. Mas pesquisando, obtive algumas passagens deste almoço. Segundo Wilder, a conversa girava sobre os produtores e financistas das sociedades cinematográficas tachados como uns idiotas. E começaram a falar mal dos atores, dizendo que agora querem dizer onde a câmera deve ficar, se intrometendo, criando dificuldades.

Eu sempre quis saber mais. Recentemente comprei um livro reeditado pela Nova Fronteira: “A linguagem secreta do cinema”, de Jean-Claude Carrière, que além de roteirista de seis filmes de Buñuel, (parceria esta a mais fundamental de todas, incluindo o importante livro autobiográfico do diretor: “Meu último suspiro”). Também roteirizou para Milos Forman, Volker Schlondorf, Andrzej Wajda, Peter Brook, entre outros. Nele, Carrière narra algumas passagens deste almoço. Conta que Hitchcock sentou-se ao lado de Buñuel, abraçou-o e falou-lhe sobre “Tristana” e “O discreto charme da burguesia” durante toda a refeição (os dois tinham a mesma idade). Num programa de televisão, alguns meses antes, ao lhe perguntarem que diretores admirava, Hitchcock tinha respondido: “Além de mim, Buñuel.”

Hitchcock falou também de sua adega, seu orgulho, sua alegria e de seus esplêndidos vinhos. Ah, ele não podia mais beber: Buñuel se mostrou sinceramente solidário com este sofrimento, pois também era grande apreciador. E comeu apenas um pequeno pedaço de peixe cozido, que Cukor tinha mandado preparar especialmente para ele. Perto do fim fizeram brindes. Naturalmente, falou-se dos “velhos bons tempos de Hollywood” do sistema americano de produção, da estupidez dos grandes estúdios, da escravidão do “Star System”.

George Stevens levantou a taça e disse, mais ou menos: “A despeito de tudo que nos separa, a despeito de nossas diferentes formações, apesar de nossas diferenças de opinião, bebo ao que nos reuniu aqui!” Depois que lhe traduziram o brinde, Buñuel levantou o copo e respondeu: “Eu bebo, mas tenho minhas dúvidas.”

Este livro de Carrière é altamente recomendado, pois analisa a evolução da linguagem cinematográfica, o vocabulário (câmera, iluminação, escolha de atores, cenários) as mensagens subliminares contidas na técnica. Aponta como os filmes alteraram a nossa percepção do tempo e o desenvolvimento da mídia visual. Principalmente, relata seu relacionamento com grandes diretores, alguns já citados aqui. Para se ter uma ideia do seu relacionamento com Buñuel, Carrière relatou ao escritor Mário Prata em 1994, em São Paulo, o que segue.

“O discreto charme da burguesia” era o segundo filme que ele roteirizava para Buñuel que estava com 72 anos e Carrière com menos de 40. Quando ele apresentou a primeira versão do roteiro, o diretor leu, fez os comentários e disse: “A minha loucura está apenas um dedinho acima da realidade; esta cena do almoço que, quando termina abre a cortina e eles estão num palco e a plateia aplaude, está dois dedinhos. Você exagerou.” Quando Carrière apresentou o segundo tratamento do roteiro, tinha feito outras modificações, mas a cena, aquela, estava lá intacta. Buñuel leu, não falou nada, só mostrou os dois dedinhos para ele. O que importa é que ele insistiu e a cena foi filmada como ele queria. Na estreia, em Paris, a cena na tela, o Buñuel vira-se para ele e mostra os dois dedinhos. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1972 e Carrière foi indicado para melhor roteirista. Em 1983, Buñuel agonizava aos 83 anos num hospital da Cidade do México. Carrière foi ver o mestre pela última vez, e quando estava saindo do quarto Buñuel uniu os dois dedinhos, levou aos lábios e jogou um beijo para ele.

 

Legendas:

Almoço na residência de George Cukor, Los Angeles, em 1972

Residência de Cukor

Cukor dirigindo Greta Garbo em A Dama das Camélias (Camille), MGM 1937

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