Editorial. Ed. 214

Durante cinco anos a operação Lava Jato dividiu poucas opiniões. Foi a responsável por feitos raramente vistos no Brasil: prendeu os donos do poder – de políticos a empresários. Gabou-se por recuperar quantias difíceis de imaginar, e escondeu o rombo que causara na indústria nacional, sem contar a promoção de um sentimento contra as instituições democráticas. Tornou-se comum, de 2014 para cá, assistir manifestações a pedir o fechamento do Congresso Nacional, a intervenção militar no Supremo Tribunal Federal.

Apesar dos riscos, isso não era problema do ex-juiz, e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro ou dos procuradores. Os agentes da lei apenas seguiam protocolos.

As consequências da operação, cujo debate está aberto – foi a Lava Jato que promoveu o sentimento anti-institucional ou ele sempre repousou na mentalidade brasileira? –, pelos envolvidos na principal obra contra a corrupção da história do país, não foram as únicas escanteadas pelos Dallagnóis e Moros.

Em 9 de junho, o Brasil assistiu uma nova fase da Lava Jato, agora como alvo. O site The Intercept trouxe à baila as relações nada republicanas entre juiz e acusador. Pôs em xeque a operação, a isonomia, o Judiciário. As rachaduras afetaram a estrutura deste castelo que a cada dia se mostra mais frágil. O jornalista Reinaldo Azevedo, em parceria com o Intercept, ultrapassou as relações pouco republicanas e escancarou o uso indevido de dinheiro público por parte de Dallagnol e Moro. Os incorruptíveis salvadores da pátria se esfacelam. Por isso, um país não pode depender de poucos para seu funcionamento, seja o mito no Executivo ou o justiceiro no Judiciário.

O Brasil, contudo, cultiva-os, à direita e à esquerda.

Sabendo que ainda não chegou ao fim esse desmanche, esse casamento mentiroso entre Lava Jato e Brasil, a Ideias traz neste número os principais pontos já denunciados e, diferentemente do que propagou-se na maioria da mídia, não dá espaços para discussões de ações criminosas de hackers. A Ideias compreende que o ponto a ser discutido num dos maiores escândalos já vistos na história republicana – tão grande quanto as investigações da própria Lava Jato – é a relação promíscua, imoral e ilegal de Sérgio Moro, Deltan Dallgnol e os outros integrantes envolvidos.

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