Flor de ir embora

Uma das coisas mais difíceis dos relacionamentos humanos é a hora do adeus. Ao mesmo tempo em que o conceito de que tudo nessa vida tem começo, meio e fim, parece ser de fácil repetição, é complicadíssimo coloca-lo em prática. Na hora da despedida, lágrimas, pesares, sofrimentos, desejos de vingança e outras, muitas, emoções que chacoalham até os espíritos mais altivos.

A MPB tem um percentual bem alto a respeito do assunto. E páginas insubstituíveis. Quem não lembra, por exemplo, de Elis Regina rasgando sentimentos em “Atrás da porta”, aquela que Chico escreveu junto com Francis Hime, jurando que a submissa sofredora do eu-lírico era, de fato, todas e cada uma das mulheres?

Além de Elis e sua imensa dor, há outros momentos de igual intensidade em nossa música. E como já disse, eles são muitos e pipocam na MPB na medida dos fracassos das relações. Esse negócio de separação dá muito pano pra manga.

Mas hoje quero tratar de outro tipo de adeus. O primeiro. Aquele que figura a saída de casa. Deixar o conforto, a proteção e o amparo do primeiro lar para se jogar no mundo também motivou nossos poetas.

Abre essa seleção o samba de 1945 escrito por Dorival Caymmi: “Peguei um Ita no norte / Pra vim pro Rio morar / Adeus meu pai, minha mãe / Adeus Belém do Pará”. O Itapé em que Caymmi viajou da Bahia ao Rio de Janeiro lhe causou várias impressões, sobretudo a terceira classe que estava maciçamente ocupada por viajantes que saíram da Região Norte do país, por isso ele ocupou a experiência, um pouco dele, um pouco dos companheiros de jornada: “adeus Belém do Pará”.

A Companhia Nacional de Navegação Costeira tinha uma frota de Itas, todos transportavam cargas e pessoas e todos foram batizados com nomes em tupi-guarani: Itagiba, Itaberá, Itaguassu, Itaimbé, Itahité, Itaipu, Itajubá, Itanagé, Itapé, Itapema, Itagagé, Itapuca, Itapuhy, Itapura, Itaquara, Itaquatiá, Itaquera, Itaquicé, Itassucê, Itatinga e Itaúba.

Caymmi chegou ao Rio de Janeiro no final da década de 1930, tinha 24 anos e o peito cheio de esperanças. Concretizou alguns sonhos, mudou outros, inventou tantos, mas a Bahia, sua casa natal, nunca lhe deu folga e foi ela, seu mar e sua gente, uma de suas temáticas mais constantes: “Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia / Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia […] Vejam que situação / E vejam como sofre um pobre coração / Pobre de quem acredita / Na glória e no dinheiro para ser feliz”.

Me diz, de verdade, qual mãe pode ouvir “Mamãe coragem”, de Caetano Veloso e Torquato Neto, sem se debulhar em lágrimas? É impossível! É verdade, ser mãe é “desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos”. A temática que trata da ruptura com a família e a necessidade de descobrir e enfrentar o mundo, traçando os próprios caminhos, foi lançada no álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”, aquele que foi o manifesto do tropicalismo e que tratou de juntar de uma só vez Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, Torquato Neto, José Carlos Capinam e Rogério Duprat. Pensando nisso tudo, não tinha jeito mesmo de Caetano e Torquato continuarem nas pacatas vidas de Santo Amaro da Purificação e Teresina): “Mamãe, mamãe, não chore / A vida é assim mesmo / Eu fui embora / Mamãe, mamãe, não chore / Eu nunca mais vou voltar por aí / Mamãe, mamãe, não chore / A vida é assim mesmo / Eu quero mesmo é isto aqui”.

Muita gente se despediu da terra natal atrás de uma vida melhor e da realização de sonhos. E as músicas se parecem em sentimento: a saudade, o enfrentamento, a vontade, o medo. Quem sai tem motivos, tem asas, mas tem também raízes, não há como conciliar isso sem sofrimento. É algo que pode ser resumido em “Na volta que o mundo dá”, composição de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro que merece os melhores de adjetivos: “Um dia eu senti um desejo profundo / De me aventurar nesse mundo / Pra ver onde o mundo vai dar […] Varei cordilheira, geleira e deserto / O mundo pra mim ficou perto / E a Terra parou de rodar / Com o tempo / Foi dando uma coisa em meu peito / Um aperto difícil da gente explicar / Saudade, não sei bem de quê / Tristeza, não sei bem por que / Vontade até sem querer de chorar”.

É história repetida a que Belchior cantou: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano / Sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes / E vindo do interior”, como também a retirante inventada por Chico e Tom em “A Violeira”, a protagonista que que inicia uma viagem imensa saindo do meio rural, do sertão de Quixadá, atrás da sorte urbana, o sonho: mudar de vida no Rio de Janeiro: “Desde menina / Caprichosa e nordestina / Que eu sabia, a minha sina / Era no Rio vir morar”. As duas histórias são comuns porque retratam a realidade de quem faz esse movimento penoso atrás da sobrevivência.

Eu poderia terminar essa coluna com uma das minhas músicas preferidas: “Porque se chamava moço / Também se chamava estrada / Viagem de ventania / Nem se lembra se olhou pra trás / Ao primeiro passo” ou poderia só pegar outra frase do Milton e ajustá-la a esse contexto: “Tudo que move é sagrado”, mas diante de tanta emoção citada aqui e de como meu coração ficou meio inquieto ao lembrar das despedidas que já enfrentei – quando eu saí, quando meu filho saiu, quando meu filho saiu para sempre – e as que virão, achei melhor tascar aqui Fátima Guedes e sua “Flor de ir embora”, que espremendo um pouco, cabe direitinho na temática desta edição:  Flor de ir embora / É uma flor que se alimenta do que a gente chora / Rompe a terra decidida / Flor do meu desejo / De correr o mundo afora / Flor de sentimento / Amadurecendo aos poucos a minha partida / Quando a flor abrir inteira / Muda a minha vida / Esperei o tempo certo / E lá vou eu / E lá vou eu / Flor de ir embora, eu vou / Agora esse mundo é meu”.

Deixe uma resposta