Nepotismo agudo

Dentre as extravagâncias de Jair Bolsonaro pretender a nomeação do filho Eduardo para a embaixada brasileira nos Estados Unidos, incide não apenas no lado ideológico da submissão a Donald Trump, da qual o rebento é dos mais radicais e vinculado a Olavo de Carvalho, mas ainda na velha deformação brasileira do nepotismo. A cada vez em que o parenteralismo é acusado, o beneficiário contesta com os supostos talentos do indicado como se deu aqui nos governos recentes de Beto Richa e Roberto Requião com o empoleiramento de parentes no galinheiro oficial. O abuso era tão frequente que o deputado Tadeu Veneri, do PT, quase sempre irmanado com o governador, tentou uma lei antinepotismo.

O momento agudo dessa campanha foi no Guairão, presente o ídolo mundial de Requião, o bolivariano Hugo Chaves da Venezuela, expressão do autoproclamado socialismo do século XXI, quando ao insurgir-se com faixas que condenavam o nepotismo e consagravam Veneri, o governador levou uma vaia de vários minutos. Requião sempre alegou talentos nos irmãos e esposa (aliás com passagem frutuosa no Museu Oscar Niemeyer) para justificar opções como de resto todos fazem.

Qual seria o critério para julgar escolhas familiares que não a do conhecimento e da óbvia qualificação? Por exemplo, fala-se agora na intenção do técnico da seleção brasileira, Tite, no aproveitamento de um filho em funções técnicas de apoio. Para que tivéssemos uma medida de validez seria algo como a nomeação de Bruno na equipe de voleibol comandada pelo pai Bernardinho ou ainda, levando a comparação para o teatro, da Fernanda Montenegro indicando a filha, Fernanda Torres, para um papel de relevo. Exemplos deveriam, no mínimo, seguir tais parâmetros e no caso de Bolsonaro o abuso é piramidal e exige reações no campo institucional, ainda que tudo se inclua na linha habitual de disparates que o caracteriza. No passado histórico tivemos o beijo de Otávio Mangabeira nas mãos do presidente ianque, o que provocou traumatismos nativistas, porém agora tudo foi extrapolado em matéria de subserviência com a suposta amizade forte que Eduardo teria com um dos filhos do chefe de Estado, também dado a tropelias, Donald Trump.

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