O heterodoxo Mario Helio

Tive o prazer de conhecer Mario Helio Gomes de Lima num almoço promovido por uma amiga em comum, Isabela França. No almoço, entre outros, estava presente o escritor português Valter Hugo Mãe, trazido por iniciativa dele para o evento Litercultura. Mario Helio é a literatura e muitos outros interesses. É um estudioso e um curioso profissional.

Este pernambucano, hoje em Curitiba, é daquelas pessoas que poderíamos chamar de plurais. São vários caminhos os que trilha. Jornalista, fez mestrado em história, foi aprovado na seleção para mestrado em letras, que abandonou, passou em primeiro lugar em teoria da literatura, tem doutorado em antropologia, estudou filosofia e estética, lecionou história da arte, é editor de livros, escritor e ensaísta.

Na sua Recife teve publicado um livro com poemas que escreveu entre os 13 e 16 anos. Anos mais tarde escreveu um ensaio sobre Manuel Bandeira a que deu o título de “Allegro Tristíssimo”.

Teve um encontro com Gilberto Freire, que queria entrevistar, mas que, ao contrário, foi entrevistado por ele durante toda uma tarde. Com Ariano Suassuna, que não dava entrevistas, teve a paciência de um monge com inúmeros telefonemas. No alto de seus 25 anos, no Jornal do Commercio onde trabalhava, tinha por norma a constância de um perdigueiro. Num dia, em seu enésimo telefonema a mulher que atende pergunta: “O que quer conversar com ele?” Resposta: “Plotino e os Neo-Platônicos”. Como sabia do interesse do escritor foi logo chamado para uma conversa que durou toda uma tarde. No final da conversa, o escritor disse que era “um poeta inédito, ignorado e solitário”.

Entrevistou o filólogo Antônio Houaiss e teve como amigo e interlocutor o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto.

Em 2001, morou na Espanha e, na sua volta ao país, seu amigo Cícero Dias, artista plástico, foi o catalisador, por assim dizer, de sua vinda para Curitiba, a fria. Recebeu um telefonema de Waldir Simões de Assis, proprietário da Simões de Assis Galeria de Arte, que, a pedido do artista, entrava em contato para perguntar se Mario Helio poderia escrever, a toque de caixa, um livro dedicado ao trabalho do artista que o Museu Oscar Niemeyer editou. Foi a primeira vez que esteve por aqui. Uma década depois trocou o calor do Recife pelo céu plúmbeo de Curitiba e as camisas de mangas curtas pelo pesado sobretudo, o cachecol e as meias de lã. No calor ou no frio, sua simpatia, seu conhecimento e sua verve conquistam os que têm a ventura de conversar com ele.

Texto e foto: Dico Kremer

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