Ode ao ritmo, em versos predominantemente arrítmicos

1

Adeus rima.

Good bye métrica

Arrivederci, formas obsoletas – camisas de força, invólucros,
pacotes, recipientes, vasos, embrulhos

para nada.

 

2

Ritmo. É isso o que é preciso: ritmo.

Definitivamente, irmão, tudo é apenas

uma questão filosófica de ritmo. Temos assim

o ritmo da valsa, do tango, do samba, da rumba,

do foxtrote neurótico ou do jazz que vem

dos subterrâneos da alma.

O ritmo do salto do tigre de dentes de sabre (e de bengala)
ou do lorde britânico cheio

de empáfia (e de cartola), a caminho de Trafalgar Square
ou do Foreign Office. O ritmo

da caligrafia, nas páginas de papiro da tarde,

das asas de sílex do pássaro efêmero

e do seu canto fortuito.

O ritmo do arquejo dos êmbolos das máquinas,

dos motores, das turbinas, das paixões

e das náuseas que estrangulam

como corda inconsútil.

Ritmo. Isso, ritmo.

 

3

O ritmo das piruetas do palhaço neurastênico

e dos soluços do ébrio, nau claudicante

no pélago de asfalto da avenida deserta. O ritmo

do florescer dos girassóis julgando-se

embriões de astros no firmamento às avessas

dos jardins verticais. O ritmo

do rodar da bolsa da mariposa

no seu périplo notívago, sem bússola

mas com chave certa.

O ritmo da respiração

do moribundo em trânsito, cujos dentes trincam

ainda com volúpia o resto da maçã podre da vida.

O ritmo da música da linfa da saudade, cantando em surdina
na memória, no velho chafariz de outrora,

num pequeno largo soterrado sob escombros,

no país da infância. O ritmo

das facas, das adagas, dos punhais, dos sabres,

dos longos alfanjes, das curvas cimitarras,

instrumental oblíquo para os mágicos concertos do sangue. O ritmo

dos passos dos homens de olhar grave

carregando o caixão do menino que boiava

à flor das águas da lagoa

– tão meninamente!

 

4

O ritmo do amor e da luxúria, da ira

e do ódio e do ciúme e do fogo do desejo

entre corpos antípodas de eletricidade de sinal contrário.

O ritmo da aranha, na estratégia borgeana

de tecer a sua teia tênue feita de filigrana e renda, para ser
alçapão de dípteros incautos.

O ritmo do infante que mama

na gárgula rubra do seio pudico de sua mãe. O ritmo

do coração metálico do tempo

no fundo do tórax de vidro dos relógios.

O ritmo do andar de Carlitos, de bengala

e cachorro, no écran gratuito da memória, máquina de H. G.
Wells, e da batuta do maestro, prestidigitador que arranca

da cartola improvável do silêncio,

rios e catedrais de som.

O ritmo da marcha dos exércitos

rumo às frentes de batalhas inúteis,

do orgasmo dos fuzis supérfluos,

e do grito metálico das baionetas caladas

O ritmo do jogo de xadrez e do ataque dos peões às torres,

dos bispos às rainhas que nunca serão viúvas,

e dos reis eternamente em fuga

ao regicídio infame

do xeque-mate.

O ritmo do silêncio das necrópoles, ferindo

os tímpanos da alma como um gládio

volátil. O ritmo de translação e rotação universais

e do movimento do trapézio, e do abrir

das mandíbulas do sáurio mastigando,

com lágrimas nas órbitas sem pálpebras,

a manhã de safira e porcelana.

O ritmo das equações de Einstein e Oppenheimer

e das suas resultantes mais conspícuas: as orquídeas

assassinas de Hiroxima e Nagasaki – miserere nobis.

Ritmo. Sempre ritmo. Mais ritmo.

 

5

O ritmo do Bolero de Ravel ou do segundo

movimento da Nona ou da Eine Kleine Nachtmusik,

de um anjo que se chama Mozart e ama Deus. O ritmo

dos Cantos do Ezra Pound das lúcidas loucuras,

e das Elegias de Duíno do órfico Rainer Maria,

e do Ulisses apolítico de Joyce,

e da Tabacaria, empresa de comércio de Pessoa & Cia.,

e do Cemitério Marinho do coveiro nefelibata

chamado Valéry,

e dos quartetos do Eliot, e da busca do tempo

perdido e mais tarde recuperado (proustianamente)

por Marcel. O ritmo

do mover de olhos do paralítico sentado

na cadeira de vime e solidão. O ritmo cardíaco

do ponteiro dos segundos

circum-navegando o pélago do tempo circular. O ritmo

invertebrado do molusco em sua concha bivalve

de tédio e de calcário. O ritmo sinuoso do réptil

fazendo strip-tease, sub-repticiamente,

com a pele descartável. O ritmo (semirritmo)

da datilógrafa maneta e do perna-de-pau

correndo a maratona.

O ritmo do Espírito divino, in principium,

criando ex nihilo

o seu corpo infinito, o universo.

 

6

O ritmo do relâmpago, rubrica elétrica de Deus

escrita nas páginas sujas do alfarrábio do mundo

imundo.

Deixe uma resposta