Rastros!

O que será que me veio à cabeça quando resolvi ter um filho? É uma pergunta que há algum tempo tem me perseguido. Esse negócio de deixar uma descendência nunca foi o meu objetivo, até porque todas as descendências deixarão de existir um dia. Está aí a história para mostrar que tenho razão. Então vou atrás de uma possível vaidade no estranho desejo de deixar rastros, com a certeza de que ele seguiria os meus caminhos, sejam lá quais forem.

A pergunta me é ingrata. Será que foi o meu desejo de não morrer por completo deixando para ele as minhas miniaturas, textos, livros, histórias em quadrinhos e as receitas de pães de fermentação natural que produzi? Hummm… é bem possível. Não deixa de ser uma continuidade da vida. Será?

Fico questionando que orgulho é esse de considerar tais banalidades como rastros que ressaltarão a minha modesta existência. Devo estar perdendo a sanidade para achar que deixei rastros robustos o suficiente para alguém os seguir. É o que dá ficar se entupindo de remédio para dormir, diria meu alter ego com quem tenho conversado à exaustão.

Vaidade? Não, porque ultimamente tenho a nítida impressão de que os rastros que ando deixando por aí, não passam daqueles quando você entra com os sapatos enlameados pela casa e recebe uma bronca daquelas. São rastros desprezíveis.

Tenho visto em demasia os amigos se apegarem desesperadamente aos netos como se eles fossem a salvação da finitude que se aproxima. Viram crianças novamente. Falam até na linguagem infantil, pronunciando vogais e consoantes sequenciais sem qualquer sentido. Confesso, sem qualquer rastro de sarcasmo, que acho isso muito engraçado. É um jeito muito doce de se afastar da velhice que se aconchega sem ser bem-vinda. Estranhamente nunca tive essa pretensão que até parece natural. Nos outros. Eu queria apenas deixar rastros.

De qualquer modo, espero que esses poucos rastros e as pequenas alegrias que proporciono a ele – um por de sol, um banho de mar, uma lua cheia, uma bola de futebol, os carrinhos, batata frita, uma pequena viagem, um jogo na Arena, assistir juntos Toy Story – tenham tornado a existência mais suportável e os rastros deixados mais nítidos e legíveis o suficiente para serem seguidos por ele.

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