Um Brasil que não quer provas

O site The Intercept desde o dia 9 de junho revela mensagens trocadas entre Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato. A Ideias fez um apanhado geral das reportagens para resumir a gravidade da denúncia

 

As revelações do site The Intercept, antes de causarem o horror e a descrença nas instituições brasileiras, geraram a repulsa e o descrédito no jornalismo. Um e outro pouco contribuem ao fortalecimento da democracia brasileira. Acontece neste caso a impossibilidade de escolher um lado por emoções políticas. O site The Intercept não é o alvo. É o mensageiro.

Tendo em conta a confusão – criada pela grande mídia ao focar na narrativa do hacker – causada nestes dois meses de revelações, a Ideias decidiu elencar alguns pontos das reportagens divulgadas pelo Intercept, Folha de S. Paulo, Veja e o jornalista Reinaldo Azevedo.

Inevitavelmente, quando a revista chegar às bancas, outras reportagens terão sido divulgadas, com escândalos ainda maiores – é possível –, e os principais atores podem já ter saído de cena e outros terem entrado. Talvez O Antagonista já não consiga sustentar sua defesa do governo, de Moro, da Lava Jato, nem o Jornal Nacional. Apesar disso, o que se tem divulgado já é muita coisa.

“Todos os homens do presidente”, “Spotlight”, “Sublime devoção”, e mais, e muitos. Filmes baseados em fatos reais que jornalistas denunciaram acontecimentos. Aplaudidíssimos! Por que não aplaudimos The Intercept? Qual a diferença? Um hacker? No caso Watergate, que levou ao impeachment de Nixon, a identidade do informante só foi conhecida em 2005, mais de 30 anos depois. A questão é: tendo em vista a magnitude das revelações do site The Intercept, o principal ponto não é o informante, e sim a informação.

Tudo bem, a narrativa do hacker já perdeu força, pois as autoridades envolvidas perceberam que focar no hacker é atestar a autenticidade das mensagens. Então, Moro e a força-tarefa da Lava Jato passaram a questionar se elas não tinham sido alteradas parcial ou totalmente, e que não lembravam de conversas de 2015, 2016, 2017. Fato que o Intercept e outros veículos de comunicação já provaram frágeis.

Em matéria de 15 de julho, Glenn Greenwald (um dos fundadores de The Intercept) e Leandro Demori (editor de The Intercept Brasil) apresentaram didaticamente como as informações podem se comprovar verdadeiras. Os argumentos se baseiam em checagens realizadas por outros jornalistas seja a partir de mensagens que tenham trocado com assessorias da Lava Jato, seja através dos fatos documentados cruzados com as mensagens. A manchete do BuzzFeed News ilustra bem o que foi feito: “Documentos mostram que atos da Lava Jato coincidiram com orientações de Moro no Telegram”. A matéria é de 13 de junho, logo após as primeiras publicações do Intercept (9 de junho). Em matéria de 19 de junho, também do BuzzFeed, e citada no texto de Greenwald e Demori, traz a informação: “A troca de mensagens divulgada pelo site The Intercept Brasil, em que atribui a Sergio Moro a sugestão para Deltan Dallagnol ‘inverter a ordem’ de operações da Lava Jato, coincide com os documentos e registros que antecederam a deflagração da fase Aletheia, a da condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”

Para não nos alongarmos quanto a comprovação das mensagens, fato consumado na postura inicial de Moro e dos procuradores quando apontam a ação criminosa de um hacker, a Folha de S. Paulo buscou suas próprias mensagens. E traz o seguinte texto em matéria de 23 de junho, também citada pelos jornalistas do Intercept: “Ao examinar o material, a reportagem da Folha não detectou nenhum indício de que ele possa ter sido adulterado.

Os repórteres, por exemplo, buscaram nomes de jornalistas da Folha e encontraram diversas mensagens que de fato esses profissionais trocaram com integrantes da força-tarefa nos últimos anos, obtendo assim um forte indício da integridade do material.”

Sendo clara a importância da informação e não do informante e da autenticidade das mensagens – ter que explicar isso já é um absurdo – passemos às denúncias. (Caso o leitor não se dê por vencido, e ainda duvide da integridade das mensagens, pode ler a matéria do Intercept: “#VAZAJATO: AS PROVAS DE QUE OS CHATS SÃO AUTÊNTICOS AGORA VÊM DE DIVERSOS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO – SÃO DEFINITIVAS E ESMAGADORAS”.)

 

DENÚNCIAS

Até o momento do fechamento desta edição, o Intercept divulgou onze reportagens com escândalos envolvendo os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz, agora ministro da Justiça, Sérgio Moro.

O grosso das informações traz trocas de mensagens entre a procuradoria, ou seja, o órgão acusador, e o juiz, que deveria permanecer isento no processo e julgar os casos com imparcialidade. Foi revelado pelo site a intimidade entre ambos, embora Sérgio Moro tenha garantido que não é incomum a comunicação fora dos autos do processo entre as duas partes.

Em 9 de junho, data da primeira publicação do site, quatro partes foram divulgadas. A primeira trazia os critérios editoriais do Intercept; o que eles publicariam ou não. De maneira geral, decidiu-se por aquilo de interesse público, e mensagens e informações pessoais seriam suprimidas.

A parte 2, com o título “Procuradores da Lava Jato tramaram em segredo para impedir entrevista de Lula antes das eleições por medo de que ajudasse a ‘eleger o Haddad’”, mostra a preocupação dos procuradores em relação à entrevista de Lula na cadeia antes da eleição, o que possibilitaria, não sabemos, a vitória de Fernando Haddad, candidato do PT. O procurador Athayde Ribeiro Costa soluciona a questão da seguinte forma: “Não tem data. Só a PF (Polícia Federal) agendar para depois das eleições. Estará cumprindo a decisão. E se forçarem antes, desnuda ainda mais o caráter eleitoreiro”. (Diferentemente do Intercept, corrigimos as abreviações e erros de digitação e ortografia, mas sem alterar o conteúdo, caso o leitor tenha dúvida, pode saná-la nas reportagens no site The Intercept).

O que se apresenta nesta parte é o polo contrário do que a Lava Jato defendeu desde o início: a não motivação política, apartidarismo e tendências ideológicas. A preocupação de Lula dar ou não a entrevista mostra o profundo interesse político dos procuradores e como eles poderiam agir para que Haddad não vencesse a eleição.

A parte 3, com o título “Deltan Dallagnol duvidava das provas contra Lula e de propina da Petrobras horas antes da denúncia do tríplex”, traz mensagens do procurador a dizer da fragilidade para condenar Lula. Diz Dallagnol num grupo de troca de mensagens Telegram (similar ao WhatsApp): “Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… Então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre Petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram estou com receio da história do apartamento… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”.

Os procuradores encontraram uma matéria de O Globo, de 2010, que indicaria a compra do casal Lula da Silva no prédio do Guarujá. Contudo, a matéria não faz referência a Petrobras ou OAS, apenas a falência da cooperativa BANCOOP que atrasaria os planos de Lula e Marisa. O que era uma denúncia frágil tornou-se na visão de Dallagnol uma importante ferramenta para a acusação: “Tesão demais essa matéria de O GLOBO de 2010. Vou dar um beijo em quem achou isso.”, disse o procurador.

No entanto, há uma inconsistência nas provas apresentadas pela procuradoria, e que Sérgio Moro disse “A matéria em questão é bastante relevante do ponto de vista probatório”, a reportagem do Intercept traz o seguinte trecho: “Na denúncia feita pela Lava Jato, no entanto, os procuradores afirmam que o triplex de Lula fica na torre A, que ainda não existia quando a reportagem foi publicada. Mas, no item 191 da denúncia assinada pelos 14 procuradores, há o seguinte trecho (citando a reportagem do Globo): ‘Essa matéria dava conta de que o então Presidente LULA e MARISA LETÍCIA seriam contemplados com uma cobertura triplex, com vista para o mar, no referido empreendimento’”. Mas a matéria de O Globo atribui o triplex do Lula à torre B, como aponta o seguinte trecho: “A segunda torre (a torre A), se construída como informa a planta do empreendimento, lançado no início dos anos 2000, pode acabar com parte da alegria de Lula: o prédio ficará na frente do imóvel do presidente, atrapalhando a vista para o mar do Guarujá, cidade do litoral paulista”.

Há, portanto, na terceira parte uma fragilidade na acusação que pode ser contrariada a partir de fatos documentais a partir da reportagem de O Globo com o cruzamento do texto da força-tarefa da Lava Jato, e Sérgio Moro endossou a acusação, mostrando-se, senão dotado de parcialidade, ao menos de incompetência.

A parte 4, intitulada “Chats privados revelam colaboração proibida de Sergio Moro com Deltan Dallagnol na Lava Jato” é ainda mais chocante, a tornar confusa a defesa inconsequente do ministro Moro por parte da mídia, da população, dos políticos etc.

Moro, o juiz, diz a Dallagnol, o acusador, como proceder na acusação. A maneira mais adequada. “Talvez fosse o caso de inverter a ordem das duas planejadas”, diz Moro fazendo referência às fases da Lava Jato. Adiante indica “Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação. Estou então repassando. A fonte é séria”. Ou seja, o juiz sugere a fonte a ser usada pela acusação para que o juiz julgue posteriormente.

Nesta parte, o que se escancara de forma muito nítida, e não deixa margem para quaisquer dúvidas ou interpretações é a atuação conjunta entre Moro e os procuradores da Lava Jato, principalmente com Deltan Dallagnol, onde havia troca de mensagens para combinar como se dariam as fases da operação. Muitas vezes Moro fala na primeira pessoa do plural – nós – com Dallagnol, como destacou o Intercept. “O que acha dessas notas malucas do diretório nacional do PT? Deveríamos rebater oficialmente? Ou pela Ajufe?”. Ambos, acusador e juiz, estavam fechados.

A parte 5 traz os diálogos que sustentaram a reportagem da parte 4.

Não destacaremos minuciosamente todas as seis partes restantes. Mas elas passam desde não criticar Fernando Henrique Cardoso, “cujo apoio é importante”, nas palavras de Moro, até sugestões do ex-juiz para a força-tarefa divulgar notas contra a defesa.

Na parte 8 há um movimento por parte de alguns procuradores em criticar as ações de Moro, a dizer que ele “viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados”, como disse a procuradora Monique Cheker.

Na parte 10, Deltan Dallagnol sugeriu formas de lucrar com a Lava Jato. Um grupo foi criado no Telegram com Dallagnol, Pozzobon e suas respectivas esposas para organizar palestras e eventos. “Vamos organizar congressos e eventos e lucrar, ok? É um bom jeito de aproveitar nosso networking e visibilidade”, afirmou Deltan à esposa. “Antes de darmos passos para abrir empresa, teríamos que ter um plano de negócios e ter claras as expectativas em relação a cada um. Para ter plano de negócios, seria bom ver os últimos eventos e preço”, disse ainda Deltan, agora no grupo com os quatro.

Pozzobon apresentou uma proposta: “Temos que ver se o evento que vale mais a pena é: I) Mais gente, mais barato; II) Menos gente, mais caro. E um formato não exclui o outro”.

Preocupado com a operacionalidade de suas palestras, Dallagnol faz a seguinte proposta: “Caros, se formos tocar nós mesmos, não vai funcionar. E se eu passar pra SUPRIMIDO da Star organizar isso e combinar que dividiremos os lucros? Se tivermos a empresa em nome de SUPRIMIDO e SUPRIMIDO, jogamos pra ela organizar tudo e dividimos por 3 o resultado, sendo 1/3 pra SUPRIMIDO da Star. Estão de acordo?”.

E já sugeriu uma forma de organização da empresa: “Só vamos ter que separar as tratativas de coordenação pedagógica do curso que podem ser minhas e do Robito e as tratativas gerenciais que precisam ser de vocês duas, por questão legal”. Outras formas foram articuladas para lucrar.

O dinheiro animava o procurador. “Se tudo der certo nas palestras, vai entrar ainda uns 100 mil limpos até o fim do ano. Total líquido das palestras e livros daria uns 400 mil. Total de 40 aulas/palestras. Média de 10 mil limpo”, calculou Dallagnol.

Após a divulgação da parte 10, em 14 de julho, Fernando Haddad manifestou-se no Twitter. “Se entendi bem a reportagem, Deltan sugeriu: 1) uma empresa de fachada com cônjuge laranja; 2) propina para comissões de formatura; 3) palestras armadas para associações que representavam empresas investigadas. É isso?”. Dallagnol é bem claro quando diz que usará as esposas para abrir a empresa por “questão legal”. Sobre o tópico 2 citado por Haddad, cabe interpretações, embora o procurador tenha dito: “Eles [empresa de eventos do seu tio] podem oferecer comissão pra aluno da comissão de formatura pelo número de vendas de ingressos que ele fizer. Isso alavancaria total o negócio. E nós faríamos contatos com os palestrantes pra convidar. Eles cuidariam de preparação e promoção, nós do conteúdo pedagógico e dividiríamos os lucros”, afirmou Dallagnol.

Se há a possibilidade de hierarquizar a gravidade das conversas reveladas pelo Intercept, a divulgada por Reinaldo Azevedo em 15 de julho estaria entre as mais graves. Diz Dallagnol: “você acha que seria possível a destinação de valores da Vara, daqueles mais antigos, se estiverem disponíveis, para um vídeo contra a corrupção, pelas 10 medidas, que será veiculado na Globo? A produtora está cobrando apenas custos de terceiros, o que daria uns 38 mil. Se achar ruim em algum aspecto, há alternativas que estamos avaliando, como crowdfunding e cotização entre as pessoas envolvidas na campanha”.

Eis que Moro responde: “Se for só uns 38 mil acho que é possível. Deixa eu ver na terça e te respondo”.

O jornalista Reinaldo Azevedo elencou os descaminhos, para não dizer ilegalidades, desta conversa. Nenhuma vara federal possui verba de publicidade. Outro ponto: Dallagnol refere-se a valores que ambos têm conhecimento, “daqueles mais antigos”. As verbas de uma vara vêm via STJ ou a partir de multas de sentenças aplicadas por juízes. Daí, concluiu o jornalista: “o então juiz estava dizendo ‘sim’ a um pedido para usar, de modo ilegal, recursos sob a guarda da 13ª Vara Federal de Curitiba”. E questiona assombrado: “Como um procurador tem a ousadia de pedir que um juiz dê destinação ilegal a um dinheiro que está sob a sua guarda? Que licenciosidade é essa? Por que tamanho despropósito?”.

Logo, o que temos nesta situação é um caso em que o procurador que luta contra a corrupção do país, Deltan Dallagnol, pede ao ex-juiz Sérgio Moro, tido como o verdadeiro justiceiro do Brasil, aquele que coloca corruptos na cadeia, para que use um dinheiro “daqueles mais antigos” para uma campanha publicitária. Traduzindo: para que use o dinheiro ilegalmente, um dinheiro público que não deve ser usado para isso. Se é bom, se é ruim, não é o caso.

Ao que tudo indica, ainda há muito mais para acontecer. Mas se com tudo isso a opinião pública não se deu conta e o ódio antipetista e o amor por Moro e Lava Jato gritam mais alto, é duvidoso se novas revelações poderão alterar o cenário. As relações entre acusação e juiz, orientações por parte deste, uso indevido de dinheiro público, o que mais, quanto mais o site The Intercept precisa “interceptar”?

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