Editorial. Ed. 215

Nem o mais otimista dos brasileiros é capaz de afirmar que o país vai sair da crise em curto espaço de tempo. Há mais de 13 milhões de desempregados, outros milhões nas esquinas a fazer malabarismo ou a vender balas e guloseimas, e uma turma considerável que acabou na marginalidade absoluta e amplia o crime organizado.

Eis aí o que devia bastar para fazer burgueses e operários, intelectuais, padres e até os políticos pensarem duas vezes, em vez de não pensarem nenhuma. Mas esta é outra constatação deprimente: não conseguiremos avançar enquanto não varrermos essas sombras, heranças de governos de esquerda e de direita, todos assentados no velho vício paternalista, no estado patrimonialista, na corrupção. É a nossa sina.

Pobre Brasil. Há quem diga que o país enriqueceu e progrediu, apesar de tudo, e que é afinal melhor tocar para frente, ainda que seja no pau, do que ficar sentado, a chorar as mágoas. Talvez, mas esta não é, precisamente, a questão posta diante de nós. A absoluta maioria dos brasileiros quer liberdade e democracia. Mas não quer repetir a experiência do populismo que se repete desde que voltamos a ter eleições diretas para escolher governantes e representantes. O sistema eleitoral viciado e cheio de artimanhas que beneficiam quem controla a máquina do Estado nos deu essa safra de políticos medíocres e corrompidos. De direita e de esquerda.

Duas novidades surgiram no cenário político que colocam dificuldades para manter o atual sistema. A informação já não é controlada totalmente pelos meios de comunicação de massa. A internet e as redes sociais operaram mudanças significativas. Hoje, a informação chega rapidamente e é mobilizadora. Capaz de levar milhões às ruas.

A outra novidade é a aparição, em tribunais de primeira instância, de juízes e promotores dispostos a investigar, julgar e punir a corrupção, o que bate de frente com o sistema político e eleitoral fundados na corrupção como princípio, estrutura e método. Um novo padrão de Justiça que assusta todos os políticos da praça, com a sua sanha investigatória e punitiva.

Agora o lado ruim, perigoso, preocupante. Esse mesmo sistema de caça aos corruptos agora engendrou outra mazela. A troca de mensagens entre Sérgio Moro, hoje ministro de Jair Bolsonaro; Deltan Dallagnol, procurador da Justiça Federal; e gente da Polícia Federal, mostrou que do combate à corrupção o sistema passou a servir a interesses políticos da banda que chegou ao poder. Mais grave, pode ter influenciado o resultado da eleição que levou Bolsonaro ao poder.

Em todo caso, são duas novidades importantes, mas não suficientes para modificar a estrutura institucional feita a marreta, com falhas e vícios insanáveis no edifício da nação moderna que construímos. O certo é que não poderemos e não queremos continuar a alternar períodos de governo populistas e governos que os sucedem para reequilibrar as finanças e reduzir os estragos. Para isso é preciso aplicar remédios amargos, o que acaba por criar as condições propícias para a volta do populismo mais canhestro.

O saldo do recente exercício populista mostra que os custos sociais, políticos e financeiros, indissociáveis da corrupção, podem ser desastrosos. Na verdade, o que hoje desorienta governantes e governados é não sabermos como se conseguirá pagar, antes do naufrágio, os altos custos acumulados durante o último período de governos populistas corruptos e incompetentes.

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