Admirável gado novo

Qualquer passeio por comentários de notícias em jornais, blogs, revistas atestam: o comportamento de gado está cada vez mais institucionalizado na pequena vida cotidiana brasileira. Espírito crítico? Formação integral? Informação? Educação? Tudo isso é matéria proibida atualmente.

Os governos correm na direção contrária da democracia. E tudo que é contra o mantra para continuar a manter uma população rasteira, ignorante, cega, é tratado de forma adjetivada sem nenhum tipo de pudor.

Antigamente, governantes utilizavam de outras estratégias para manter o povo no cabresto. Hoje, intenção mantida, afinal os frágeis têm problemas em entender que sempre há oposição, mas os métodos mudaram muito. Governantes não têm, por exemplo, a mínima vergonha de contratar robôs para rechear de comentários, xingamentos, elogios, a depender do composto, as páginas que circulam na internet e nos diários. Governantes, sabe-se lá de que maneira conseguem um reflexo no espelho depois, utilizam a força do poder para atacar reputações, frear o contraditório, calar os oponentes.

É triste. É repetitivo ver a bandidagem do lado da mesa de onde deveria sair verdade, segurança e outros básicos de responsabilidade do Estado.

Num outro momento, em que a qualidade da Educação era superior ao colapso atual, as artes, todas elas, eram também formas de resistência e contestação. As duas pontas eram possíveis: gente capacitada para produzir e gente capacitada para entender. E repare: entender uma mensagem não significa concordar com ela.

Mas esta coluna vai, esta coluna vem para falar de música. E talvez na música a característica grosseira dos tempos que vivemos seja mais evidente.

Neste triste e precário 2019 percorrer o dial atrás de música, com uma exceção ou outra, é uma desgraça só. Quais são as mensagens das músicas que tocam atualmente? A mais recorrente é a calçada na vulgaridade: cenas sexuais de péssimo gosto, histórias sobre a bunda de não sei quem, a bebida que dá uma dinamizada na sedução. Depois disso vem o mau gosto das dores de amores cantados no mais raso da exploração do tema. Temos ainda umas coisas meio religiosas, religiosas do capeta, como diz uma amiga. Nem vou falar de arranjos, vozes, construções melódicas.

Os gêneros que se construíram historicamente a partir de situações marginais também escorregam em suas funções. Um exemplo: o Rap, um dos pilares da cultura Hip-hop onde a letra é o carro-chefe do lance, onde o texto é o que importa, onde a mensagem é o que vale; em agosto de 2019 um dos Raps mais tocados foi “Surtada”, de um pessoal chamado Calibre 2.1: “Safada, como é que tem coragem de falar na minha cara / Que só faz comigo o que tu fez lá em casa? / Tava lembrando de você em cima de mim / Surtada, pega leve com a tara e para”.

Para fazer uma comparação: a música mais tocada do não tão distante 1972 no Brasil: “Ilu Ayê”, com Clara Nunes. Depois “Fio Maravilha”, na voz de Maria Alcina; “Como vai você”, com Roberto Carlos; e na sequência, Elis Regina emplacou “Casa no campo”, “Águas de março”, “Atrás da porta” e “Bala com bala”. Naquele ano, também figuraram nas FMs do Brasil Maria Bethânia, Chico Buarque, Tim Maia, Gal Costa, Vinícius de Moraes, Eliana Pittman, Jair Rodrigues e vou parar por aqui porque até o que era ruim naquele ano parece obra prima hoje, como por exemplo Waldick Soriano a gralhar “Tu devias compreender / Que por ti, tenho paixão / Pelo nosso amor, pelo amor de Deus / Eu não sou cachorro, não”.

Mas eu não posso, por princípio e resistência, ocupar o lugar sagrado da coluna para falar de coisa ruim. Por isso, cito agora “Admirável gado novo”, música que tornou Zé Ramalho conhecido no país todo. O lançamento foi em 1979 e o tema é a crítica sobre o povo que segue a sina de manada, que alimenta a fera e arrasta há décadas a distância entre gente comum e gente poderosa: “Vocês que fazem parte dessa massa / Que passa nos projetos do futuro / É duro tanto ter que caminhar / E dar muito mais do que receber […] Ê, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz”.

Com um olho no peixe e outro no gato, a tratar dos dias atuais, Emicida, aquele do Rap que sabe o seu papel, trouxe à luz “Dedo na ferida”, preste atenção porque nem tudo está perdido nos tempos de hoje: “Vi condomínios rasgarem mananciais / a mando de quem fala de Deus e age como Satanás. / (Uma lei) quem pode menos, chora mais, / corre do gás, luta, morre, enquanto o sangue escorre […] Meus heróis também morreram de overdose / de violência / sob coturnos de quem dita decência / Homens de farda são maus / era do caos / Frios como halls, engatilha e plau! / Carniceiros ganham prêmios na terra onde bebês respiram gás lacrimogêneo”. E veja só, porque Emicida cantou essa música num festival de Hip-hop em Minas Gerais foi detido. FOI DETIDO por desacato à autoridade porque cantou seu Rap que mais é uma crônica do que observa em seu cotidiano. Depois de fichar o rapaz, a PM justificou que “o rapper teria incitado o público a erguer o dedo médio, fazendo gestos obscenos para a PM e para políticos” e que a incitação do cantor poderia levar “o público a praticar atos de vandalismo”. Que tal o nosso Estado Democrático de Direito? Teve gente, muita gente, e bancada disso, bancada daquilo no Congresso Nacional que aplaudiu a ação policial.

Um outro exemplo gado-povo. Em 1968, no 3º Festival Internacional da Canção, Caetano Veloso puxou ar, encheu os pulmões e ao lado dos Mutantes cantou “É proibido proibir”. A frase-título veio do Movimento de Maio de 68, uma onda gigantesca de manifestações que começou pelos estudantes de Paris e acabou reunindo mais de 10 milhões de pessoas em toda França numa greve geral que fez ruir os alicerces do governo Charles de Gaulle. Uma das principais marcas dos protestos foram os slogans espalhados em panfletos, muros, fachadas, megafones. “É proibido proibir” era um deles.

Alguns jornais nacionais contaram sobre aqueles dias franceses. Caetano Veloso reforçou a mensagem por aqui durante o festival e o que aconteceu? Levou uma super vaia. Mesmo. “A juventude que queria tomar o poder” se ocupou de xingamentos, arremesso de objetos, gritos, uivos. Alguns meses depois, tudo se complicou no Brasil, inclusive para aqueles que vaiaram Caetano, e o músico foi preso pelo regime militar e partiu para exílio político em Londres.

Como estou a extrapolar meus caracteres nesta edição, me despeço com a transcrição do discurso improvisado, revoltado, provocador, de Caetano, que espero tenha leitura e um mínimo de entendimento daqueles que querem “matar o amanhã”: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa. Eu hoje vim dizer aqui, que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazêla explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu! Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido a dar esse viva aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira. O Maranhão apresentou, este ano, uma música com arranjo de charleston. Sabem o que foi? Foi a Gabriela do ano passado, que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar por ser americana. Mas eu e Gil já abrimos o caminho. O que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso! Eu quero dizer ao júri: me desclassifique. Eu não tenho nada a ver com isso. Nada a ver com isso. Gilberto Gil. Gilberto Gil está comigo, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com tudo isso de uma vez. Nós só entramos no festival pra isso. Não é Gil? Não fingimos. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem… se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! junto com ele, tá entendendo? E quanto a vocês… O júri é muito simpático, mas é incompetente. Deus está solto! Fora do tom, sem melodia. Como é júri? Não acertaram? Qualificaram a melodia de Gilberto Gil? Ficaram por fora. Gil fundiu a cuca de vocês, hein? É assim que eu quero ver.
Chega!”.

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