Bar com cinema

Lourival Mendes era um pioneiro de cinemas no velho oeste, não o velho oeste americano, mas do Paraná. Teve cinema nos verdes anos da cidade de Toledo, então quase um faroeste, que efervescente, vivia sua época de colonização. Na sua paixão por exibir filmes, Lourival comprou um projetor portátil 16 mm e se aventurava, um bandeirante da sétima arte, com seu Fordeco ano 37 e suas maletas de filmes, por estradas poeirentas ou barrentas, a procurar um local com clientes saudosos de uma tela. Num destes lugarejos, bar na rua principal, acertos com o dono, que não ofereceu obstáculos, pelo contrário. Na tarde, armou seu lençol branco como tela na parte posterior do balcão, colocou o alto-falante na lateral. Na parede oposta empilhou duas mesas onde instalou o projetor para que ficasse acima das cabeças e chapelões da plateia. Testou a projeção, regulou o som, carretel do filme no projetor e estava tudo pronto para a anunciada sessão deste domingo às 8:30 horas. Na maleta do filme a etiqueta estava clara: “O desfiladeiro da morte” (El Dorado Pass) com Charles Starret, mais conhecido como o famoso Durango Kid, um “faroeste gibi”, típica produção “B”, que fazia o gosto dos fãs da época. Produção Columbia Pictures de 1948 ainda com Smiley Burnette, direção de Ray Nazarro. Minutos antes do horário previsto, fechar o bar e abrir a bilheteria, que os adeptos já numerosos faziam fila. Aparentado, isto é, com o uniforme de gaúcho, farto bigode, altivo, o moço entrou. Soberbo e imperturbável, aguardou o filme. Na tela, as aventuras de Durango e seu cavalo, tiros a valer, perseguições e socos sacudiam a plateia. Com as paradas para a troca de rolos, calorosos assobios, bater de pés no chão de tábuas, poeira e a continuação das aventuras. Término da sessão, providenciar uma segunda, que mais pagantes já se aglomeravam também para molhar a garganta. Notou o Lourival que o tal gaúcho permanecia firme no balcão, olhos fixos na tela branca nem mesmo o copo de cerveja oscilava em sua mão. Encarou o Lourival e perguntou: “— Ô tchê, tu é o dono da tralha?” Lourival nem chegou a responder e logo veio a proposta: “— Moço, fico com o cavalinho do Durango, tenho dinheiro na guaiaca e não arribo com o preço, levo o bichinho agora mesmo!”

Tempos depois, sem esmorecer sua paixão pela aventura de exibir filmes, agora em Mato Grosso do Sul, comprou filmes pornôs, que tinham destino certo naqueles acampamentos de barragens nos confins do estado. Prometido para aquela noite, foi com folhetos avulsos distribuídos em locais apropriados, a divulgação da sessão no salão do feio bar local. Projetor instalado, tela na parede do fundo da sala, tudo em ordem para o início. Ansioso viu chegar os primeiros fregueses. Esfregou os olhos, não acreditava no que via: chegavam casais com cara de bem casados, as senhoras bem vestidas, sapatos de salto alto, perfumadas, eles em camisas sociais e sapatos lustrosos, um público longe do esperado para estas exibições. Lourival achou por bem prevenir, foi à frente da bilheteria e falou: “— Olha, minha gente, não sei se vocês entenderam, mas o filme é de sacanagem. Vejam, não quero encrenca!” Então um gaúcho se fez de porta-voz: “— Sem problema não, as meninas aí são da boate da Chiquinha, e também da Alzira, queremos o filme!”

Corupá, década de 1950, na vizinha Santa Catarina, como toda cidade do interior que se prezava tinha cinema: Cine confeitaria e bar Central, claro que na rua principal. Daqui partiu Hermanito Cristensen, empregado da filial Paramount em Curitiba, levando “Sansão e Dalila (Samson and Delilah) para ser exibida. Superprodução em technicolor dirigida por Cecil B. DeMille, de 1949, com Victor Mature, Hedy Lamarr, George Sanders, Angela Lnsbury, Oscars de cenografia e direção de arte. Possui cenas impressionantes, como a da destruição do templo pagão. Ficou famoso o comentário maldoso de Grouxo Marx: “este é o primeiro filme da história do cinema onde o galã tem o peito maior que o da estrela”. O dono do cinema, seu Guilherme, aumentou o pedido de salsichas, dona Marta, a esposa, caprichou no chucrute, e no poço, embaixo do assoalho as muitas dúzias da loira cerveja. Pelas vinte horas deste sábado, os primeiros espectadores chegavam. Cadeiras em punho, que só para quem reservava mesas o direito das cadeiras do cinema, que enfim um grande bar, tela nos fundos, e vamos comer, beber e saborear o filme. Microfone às mãos, um tradutor dos diálogos lá nos fundos do salão, fazia a tradução simultânea das principais falas do filme. A audiência com a maioria de velhos alemães que não entendiam ou tinham dificuldades em ler as legendas em português, e menos ainda a trilha do original em inglês. Lembrava Hermanito que na célebre canção de Dalila, Max o tradutor, cantava repetindo com vagar os versos da canção. Durante as duas horas e pouco, bíblicas imagens com silencioso respeito, quebrado apenas pelo tilintar de talheres. Quando na tela o “The End”, o tradutor, no forte idioma germânico expeliu um sonoro “O Fim” para não deixar dúvidas!

Em Umuarama, início dos anos 1960, o pequeno cine Guarani, que depois mudou de endereço e ficou bem maior, fervilhava de fiéis na sexta-feira Santa para, em várias sessões, assistirem a um filme bíblico, como era de praxe. Ao lado, num barracão de madeira, o Bar Continental, e os irmãos Yokohama a abrirem centenas de latinhas de sardinhas, picar tomates e cebolas, correr ao padeiro para pedir mais uma fornada de pães d’água, pois ao fim de cada sessão o bar lotava e as famílias por abstinência respeitosa de carne, a pedir o sanduíche de sardinha com “crush” ou “coca”, pois bebida alcoólica também não podia. Nos demais dias do ano, os fregueses habituais pediam o sanduíche de mortadela mesmo.

Deixe uma resposta