Vinícola Araucária é referência em vinhos finos no Paraná

Com apenas doze anos, a vinícola já contabiliza vários prêmios e coloca o Paraná como referência na produção de vinhos na América do Sul

 

Fotos de João Urban

 

Num lugar onde a bebida nacional está entre a cerveja e a cachaça, acreditar na produção de vinhos finos é um empreendimento no mínimo corajoso. Foi o que Renato Adur fez. A ideia ganhou consistência em 2006, mas rodava o imaginário desse paranaense de São Mateus apaixonado pelo estado e cultura local há muitos anos.

Na década de 1970, ainda dedicado ao mercado editorial, a empresa de Adur adquiriu uma terra ao pé da Serra do Mar, o objetivo era plantar araucárias, pinus e eucaliptos para reflorestamento. Mas a ideia de trabalhar com vinhos finos sempre esteve no páreo do ex-deputado estadual.

O que parecia impossível ganhou corpo numa ocasião que não poderia ser a melhor: uma degustação de vinho. Em companhia dos enólogos de Bento Gonçalves, Anderson Schmitz e Marcos Vian, no hotel Bourbon, em Curitiba, em 2006, convenceu e foi convencido a encarar o empreendimento.

Renato à época tinha receio de se dedicar aos vinhos devido à doença “pérola da terra”, uma larva que come a raiz das plantas, o que seria fatal para a produção das uvas. Os dois enólogos garantiram que a tecnologia já estava avançada e era possível o plantio. “Conversa vai, conversa vem, eu disse que toparia se eles se tornassem sócios do negócio”, disse Adur.

Após relatórios dos enólogos e dos engenheiros agrônomos, Adolar Adur, irmão de Renato, e Pedro Gallina, que compõem também a sociedade da Vinícola Araucária, decidiram iniciar o projeto.

Inicialmente eram sete uvas europeias, seis francesas e uma italiana. Esta última não vingou no solo paranaense com a qualidade desejada, então ficaram com as francesas Cabernet Franc, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir e Viognier. A terra precisava de ajustes para o cultivo das uvas, que ocupam oito hectares e meio. Em 2007, tudo estava preparado e a Vinícola Araucária – que além de Renato Adur, os engenheiros agrônomos e os enólogos, conta também com o arquiteto Enio Perin – começou as atividades. “Acho que a gente tinha bebido um pouco demais naquela degustação”, brinca Renato.

Tudo foi feito com a orientação técnica de cada um dos sócios. O plano era de dez anos, ou seja, de 2007 até 2017 todos sabiam que seria a parte do investimento. Ninguém esperava neste período qualquer tipo de retorno financeiro. A preocupação sempre esteve voltada para a qualidade das uvas e, consequentemente, dos vinhos. “É um projeto ideológico. Por que digo isso? Porque só faríamos a vinícola se tivéssemos uva plantada na nossa região. Para haver a identificação com a nossa terra. Todos toparam, nós começamos e eu disse que o nome da vinícola tinha que ser Araucária, por ser a árvore símbolo do Paraná, para criar esta identidade com o nosso estado, nossa região”, afirma Adur.

Quando questionado o porquê de se arriscar nesse projeto, Adur afirma ver no mundo todo regiões viníferas. “Eu viajava e via isso. E nós, nessa região com esse clima, essa topografia, por que não poderíamos ter uma vinícola? É fácil, não! Difícil? Sim. Nós temos aqui muita umidade. Estamos a 60km do mar. Mas é parecido com o da região da Borgonha, na França, que dá o pinot noir e produz excelentes vinhos. Há vinícolas lá com mais de 400 anos”.

Duas preocupações são bem marcantes nos vinhos da vinícola Araucária: a identificação com o Paraná e a qualidade. As duas coisas caminham juntas na perspectiva de Adur. “Quem vem de fora do estado está levando além do vinho a nossa arte”, diz fazendo referência à linha Poty. “Nós não somos apenas uma vinícola que produz e elabora vinhos, nós queremos vender também o conceito do Paraná”.

Além da Linha Poty, as outras são (veja o box com os rótulos de cada linha): Linha Angustifólia, cuja referência diz respeito ao nome científico da Araucária; Linha Gralha Azul, a ave símbolo do Paraná; e Linha Manacá, além de preencher a Serra do Mar, também foi definida como árvore símbolo da cidade de Curitiba.

O empresário orgulha-se de ser uma das poucas vinícolas que tem sua própria plantação de uva. Todo o processo do começo ao fim é feito na vinícola Araucária, pois o que normalmente acontece é a importação das uvas de outra região, no caso do Paraná normalmente as uvas vêm do Rio Grande do Sul.

As uvas são plantadas a partir do sistema espaldeira para expô-las a maior quantidade de sol possível, diminuindo a produção, mas aumentando a qualidade. Esta foi uma das maneiras encontradas pelos engenheiros agrônomos de driblar a alta umidade da região. A fermentação é realizada nos tanques a poucos metros de distância dos vinhedos. E até as embalagens de madeira para os vinhos são produzidas ali a partir das madeiras de reflorestamento.

A vinícola Araucária, preocupada em sempre manter a qualidade do vinhedo, instalou uma estação meteorológica digital para monitorar a temperatura, umidade do ar, pressão atmosférica, velocidade e direção dos ventos e as precipitações no vinhedo. Com sucessivos relatórios, ela dispõe de um banco de informações que auxiliam os enólogos e engenheiros.

A vinícola Araucária também foi a responsável pela criação da Vinopar (Associação dos Vitivinicultores do Paraná). A ideia era fortalecer a produção no estado. Pensando nisso, a Araucária distribuiu 1500 mudas para os pequenos agricultores para a produção de sucos e uvas de mesa. E apesar de ainda não plantar uvas de mesa e se dedicar exclusivamente aos vinhos finos e espumantes, o projeto está em desenvolvimento. Mas Renato Adur é categórico: “Tudo o que nós fazemos é pensado com calma. Pois não temos a pressa do negócio, do retorno imediato. Nossa preocupação é dar um produto de qualidade”.

Tal afirmação é comprovada no volume da produção da vinícola. Embora tenha capacidade para 90 mil garrafas ao ano, são comercializadas 40 mil, pois tanto os enólogos quanto Adur não querem pôr a qualidade em xeque em favor do aumento de produção.

Contudo, a vinícola Araucária é um negócio, precisa pagar as contas. Pensando nisso, os sócios também focaram no enoturismo. Perceberam uma lacuna a ser suprida, uma oportunidade. “Na nossa vinícola a pessoa vai ver as mesmas coisas que veria numa vinícola no exterior. Então, às vezes não é possível gastar cinco mil dólares ou empenhar o tempo necessário para ir à Europa e visitar uma vinícola francesa. Aqui ela gasta R$ 30 de gasolina a 40km de Curitiba”. As visitas são guiadas com explicações de um sommelier ou enólogo, às vezes do próprio Renato. As pessoas podem passear entre a plantação, visitam aonde os vinhos são fermentados e engarrafados. Após a visita também é possível almoçar no Gralha Azul Restaurante Campestre.

Outra forma de incentivar o enoturismo e o consumo de vinho, cujo mercado cresce a cada ano no Brasil, é a Festa da Colheita. Todo mês de fevereiro, a vinícola Araucária vende um número de ingressos àqueles que querem participar do processo bem de perto. Ocorre um mini-curso para ensinar como é feita a colheita da uva e as pessoas podem desfrutar desse prazer. Também está em desenvolvimento um projeto para que as uvas colhidas se revertam numa garrafa de vinho para cada um daqueles que participaram da festa.

A famosa produção de vinhos finos da América do Sul, entre os paralelos 30ºS e 50ºS, a contemplar Chile, Argentina, Uruguai e o Rio Grande do Sul, terá que se estender. O paralelo 25ºS, onde localiza-se a vinícola Araucária, em São José dos Pinhais, agora faz parte da referência em vinhos. Em doze anos de vinícola já vieram vários prêmios. Dos nove rótulos, oito já foram medalhistas nacionais, sete com medalha de ouro e um com medalha de prata. O espumante e o merlot são considerados os melhores do Brasil.

Parece que aquela degustação em 2006 no hotel Bourbon gerou boas uvas e bons vinhos. A vinícola Araucária mais do que se apresentar no mercado de vinhos finos e espumantes, leva o Paraná nos seus rótulos e sabores.

 

Os rótulos da vinícola Araucária

Poty brut – Elaborado pelo método champenoise com uvas chardonnay (70%) e pinot noir (30%), colhidas manualmente e com seleção de cachos, é um espumante maduro e complexo.  De aroma elegante e paladar intenso, acompanha bem entradas, saladas, quiches e pratos de sabor leve e delicado, como peixes, frutos do mar e aves de caça. Garrafas de 750 ml.

 

Poty demi sec – Elaborado com uvas chardonnay (70%) e pinot noir (30%) colhidas manualmente, com seleção de cachos. É um vinho espumante leve, frutado e ligeiramente adocicado. É ideal como aperitivo e revela-se um vinho de degustação ou sobremesa. Pode acompanhar entradas leves, carnes brancas e aves preparadas com bastante simplicidade ou frias pela elegância e fineza. Garrafas de 750 ml.

 

Poty nature – Elaborado com uvas chardonnay (70%) e pinot noir (30%) colhidas manualmente, com seleção de cachos. É um vinho espumante maduro e complexo. Muito versátil, pode ser servido antes das refeições ou acompanhando entradas e saladas, este nature tem estrutura para suportar também pratos mais pesados, porém encontra sua combinação perfeita com os frutos do mar e os peixes mais gordurosos. Garrafas de 750 ml.

 

Angustifólia cabernet sauvignon – Vinho tinto encorpado de bom potencial de guarda. Amadurecido em barris de carvalho francês. Elaborado com uvas cabernet sauvignon. Sua concentração e sua potência de sabor marcante combinam com pratos requintados e substanciosos, como carnes assadas, cordeiro, carnes de caça com molhos densos e queijos fortes. Garrafas de 750 ml. Esse tinto, da safra 2012, foi eleito como o campeão brasileiro da categoria na Grande Prova Vinhos do Brasil (sexta edição, em 2017).

 

Angustifólia cabernet sauvignon Gran Reserva – Vinho tinto denso, volumoso, de cor intensa e tonalidade rubi. De sabor clássico e instigante, combina com pratos de textura e sabor intensos, ideal para o “gran finale” de um jantar ou comemoração especial. Safra 2012. Garrafas de 750 ml. Recebeu medalha de ouro (nota 91) na 7. ª Grande Prova Vinhos do Brasil (2018).

 

Angustifólia merlot (750 ml e 350 ml) – Vinho encorpado de uvas merlot engarrafado após um ano em barricas de carvalho francês. Harmoniza bem com cortes nobres de carne, pequenas caças, carnes brancas e aves com molhos densos e queijos fortes. Exala aromas complexos e profundos de café, chocolate, trufa, couro, frutas pretas, especiarias e, com o envelhecimento, notas sutis de caça. Apresentado em garrafas de 750 ml e 375 ml.

 

Angustifólia chardonnay – Vinho branco encorpado e amplo de uvas chardonnay, com breve amadurecimento em carvalho. É de fácil harmonização, com destaque para carnes brancas, aves e peixes com molhos acentuados. Harmoniza também com toda variedade de pratos elaborados a partir de frutos do mar, assim como sobremesas com menos açúcar à base de cremes, como flans e pudins, ou à base de pêssegos e damascos. Apresentado em garrafas de 750 ml.

 

Gralha Azul merlot – Vinho de caráter jovem com discreta maturação em madeira. Elaborado com uvas merlot colhidas manualmente, com seleção de cachos. É orientado a pratos que unem simplicidade e leveza como foundes, entradas com pães, patês, presuntos, queijos e legumes. No prato principal, os risotos com cogumelos, cordeiros e carnes temperadas são boas propostas para acompanhar este vinho de tonalidade vermelho rubi. Apresentado em garrafas de 750 ml.

 

Gralha Azul Cabernet Franc – Elaborado com uvas cabernet franc colhidas manualmente, com seleção de cachos, em março de 2014. É orientado a pratos que unem simplicidade e leveza como carnes grelhadas, entradas com pães e patês, presuntos, queijos e legumes recheados. No prato principal, as aves e carnes suculentas refogadas, assadas ou recheadas se equilibram com seu tanino e sua untuosidade. Garrafas de 750 ml.

 

Manacá cabernet sauvignon –  Elaborado com uvas cabernet sauvignon, é um vinho fino tinto suave, leve, frutado e de sabor adocicado, safra 2015. Tem cor atraente, de boa intensidade e profundidade, apresentando aroma de frutas negras e vermelhas. Para ser apreciado na harmonização com pratos de maneira semelhante aos vinhos secos. Indicado para acompanhar pratos variados da cozinha brasileira. Apresentado em garrafas de 750 ml.

 

 

 

SERVIÇO

Visitas – A Vinícola Araucária está aberta diariamente das 9 às 16 horas para visitação à loja e compras. Aos sábados e domingos há visitas guiadas por enólogo, a partir das 9 horas, para conhecer o vinhedo e o processo de elaboração dos vinhos finos e espumantes, bem como degustar os produtos e visitar a loja, além de apreciar a paisagem da região, no entorno da Serra do Mar.  Basta agendar as visitas pelos telefones (41) 99173-5742 e (41) 3254-5259 ou pelo site www.vinicolaaraucaria.com.br.

Acesso – Vinícola Araucária e o Restaurante Gralha Azul Campestre ficam na Rua Aparecida Góes de Paula, 1300, na Colônia Malhada, em São José dos Pinhais. Saindo de Curitiba, sentido Joinville, pela BR-376, entra-se à direita no trevo do quilômetro 625, logo após o Paraná Golf Hotel, fazendo o retorno em seguida. A partir daí, seguir pela estrada vicinal, observando a sinalização. São 11km da BR-376 até a vinícola e o restaurante.

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