Alguns astros em Curitiba

Velho exemplar do “Diário da Tarde” relata que aportou nesta Curitiba, nada menos que Henry Fonda, pai de Jane Fonda, Peter Fonda e avô de Bridget Fonda. Em 46 anos de carreira, 42 filmes, sete dos quais com John Ford, entre outros grandes diretores. O Diário registra a data de 17 de maio de 1939, portanto a 80 anos. Na época tinha atuado como o herói do filme “O bloqueio” (Blockade) direção de Willian Dieterle, com Madelene Carrol, produção de Walter Wanger de 1938 para a United Artits. O texto observava que o ator não tivera, em sua passagem pelo Rio de Janeiro, agradado às carioquinhas, pelo seu jeito “medige”(?), e que elas saboreavam mais o Robert Taylor ou o Tyrone Power. Mas acentuava que Fonda, por seu trabalho sério, vivendo homens rudes, compunha certamente este tipo. Completava frisando que pela primeira vez uma celebridade do cinema pisava neste solo das araucárias, tudo por alguns minutos. Mas aconteceu uma “escala técnica” e o avião teve que permanecer no aeroporto do Bacacheri por mais de vinte e quatro horas. Nesta noite ele foi ao cine Avenida, deu autógrafos e pernoitou no Grande Hotel Moderno, perto do antigo correio. Na manhã do dia 20, fez um passeio descendo a XV até a praça Ozório, onde testemunhas o flagaram em seu terninho amarelo. Logo a seguir, aqui esteve Tito Guizar, ator cinematográfico mexicano de cinema, musicais e mais tarde de TV. Por coincidência neste mesmo dia do noticiário do Fonda, era exibido em um cinema curitibano “Rancho Grande” (Allá en Rancho Grande), produção mexicana com Ester Fernandes e Tito Guizar de 1936. Este filme marcou o início da fase de ouro além-fronteiras do cinema mexicano, terminado em fins dos anos 50, lotando salas também aqui no Brasil. Eram distribuídos pela Pelmex – Películas Mexicanas –  especializadas em chorosos dramalhões ou comédias musicais. Guizar triunfou também como tenor, foi contratado por muitos anos pela Paramount, com êxitos também nos EUA. Cantou e encantou os associados do Clube Curitibano, documentado também pelos jornais da época.

Dando um salto para 13 de abril de 1964, era promovida a penúltima edição do Tribunascope, no cine Vitória, promovida por Júlio Neto, redator de cinema do Jornal Tribuna do Paraná. Este festival teve seis edições, quatro no cine Ópera e as duas últimas no cine Vitória. Eram premiados com troféus, filmes e atores escolhidos pelos críticos da cidade. Nesta ocasião estiveram aqui Antony Perkins, Janet Leigh e Karl Malden, além de Jece Valadão, Vanja Orico e Irma Alvarez. Deixaram suas mãos impressas em uma placa de cimento na calçada do cinema (que fim levou a placa?). Todos foram hospedados no então Hotel Iguaçu em frente à Biblioteca Pública, com os fãs à rua para ver os astros.

Karl Malden tem em sua filmografia de 66 anos de carreira com filmes importantes, como “Uma rua chamada desejo” (A streetcar named desire), com Marlon Brando, Vivian Leigth, direção de Elia Kazan de 1951, onde Malden recebeu o “Oscar” de melhor ator coadjuvante. “Sindicato de Ladrões” (On the waterfront) também com Brando, Rod Steiger, direção de Kazan de 1954. “A face Oculta” (One eyed Jacks), único filme dirigido e estrelado por Brando, também com Malden, Kattty Jurado, Ben Johnson, Paramount de 1961. Magnífica fotografia colorida, considerado um dos westerns visualmente mais belos do cinema americano.

Janet Leigh começou sua carreira em 1948 na Metro Goldwyn Mayer onde fez muitos filmes populares, mas ficou famosa no filme “Psicose” (Psyco) dirigido por Hitchcock em 1960. Mesmo caso de Antony Perkins, que começou sua carreira em 1953, mas que adquiriu renome com “Psicose”, estrelando até continuações medíocres.

Cine Lido, estreia de “Copacabana me engana” com Odete Lara, Carlo Mossy, Paulo Gracindo e Cláudio Marzo, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, produção de 1968. Dezenove horas, a mocinha chegou à porta do cinema anunciando: “Vim promover o filme, faço a personagem principal”, frase dita com naturalidade. Tinha ido aos jornais e rádios e agora estava à entrada do cinema. Vista assim, como uma colegial tímida, era Odete Lara que o gerente Zito recebia, desprevenido, sem aviso prévio. Vista no trailer do filme, sensual mulher, segundo Zito, na sua frente, uma frágil mulher de pouca altura, fala mansa e suave graça nos movimentos, destoava, à primeira vista, da sexy estrela do cinema nacional. Na salinha da gerência mostrava-se expansiva com forte personalidade, uma verdadeira dama das telas estava ali na sua frente. Na sala de espera, dava autógrafos e respondia tranquila e paciente às perguntas dos frequentadores. Iniciado o filme na sala de projeção, ficou mais alguns minutos com os admiradores, alegou cansaço e despediu-se, rumando ao seu hotel. Ao lado de Norma Bengell, Odete Lara foi uma das divas do cinema brasileiro nos anos 50 a 70.

Antony Quinn teve extensa e densa carreira, protagonista em mais de 200 filmes, vencedor de dois “Oscars” como ator coadjuvante: “Viva Zapata” (Viva Zapata!) com Marlon Brando, direção de Elia Kazan de 1952; “Sede de Viver” (Lust for life) com Kirk Douglas dirigido por Vicente Minnelli, de 1956. Quinn foi índio, caubói, gângster, pintor (Paul Gauguin), pugilista, guerrilheiro, esquimó, profeta, homem forte (com Fellini), grego, beduíno e até papa. Seu primeiro filme foi em 1936. Gênio criativo, pintava, foi escultor e escritor. No fim da vida, reclamando que não apareciam bons papéis para idosos, aceitou coproduzir e estrelar “Oriundi” em 2000. Ficou um bom tempo em Curitiba, litoral e arredores. O filme tinha ainda Paulo Betti, Paulo Autran e Letícia Spiller, dirigido por Ricardo Bravo. Quinn chegou a interferir no roteiro, que achou desconexo, mas nem ele conseguiu salvar o filme. Apesar da produção cara foi um desastre, de um amadorismo constrangedor, a começar pela direção. Quinn queria remontá-lo, para tentar a distribuição no exterior, mas morreu no ano seguinte.

 

LEGENDAS

Henry Fonda

Karl Malden passeando pela Cinelândia curitibana, em frente do então Braz Hotel em 1964

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