Justiça distanciada

Em recente depoimento o ministro Gilmar Mendes, um dos mais fortes contestadores da Lava- Jato, declarou que o Judiciário não pode cultuar ou temer a popularidade, referindo-se por certo à imagem positiva do ex-juiz e hoje ministro da Justiça, Sergio Moro. Na quadra que estamos vivendo, em função da toxicidade ideológica, na visão política dos acontecimentos e do maniqueísmo dominante, se a justiça condenar Moro estará beneficiando Lula, isso na perspectiva do homem comum. A leitura que o povo faz das decisões judiciais é essa, por exemplo, quando se analisa a pendência da prisão pós decisão de segunda instância, a visão é de que o entendimento atual, pelo menos conforme o colegiado, prejudica Lula e sua mudança radical o favorece.

Dada a politização dominante não há como evitar esse entendimento, que é uma espécie de “hermenêutica” dos simples e não a requintada dos especialistas. Se houve fundamentalismo nos atos e palavras de Deltan Dallagnol e outros membros da força-tarefa, o que parece inegável, isso não é suficiente para negar os feitos da operação como também aquilo que se revela nas conversações e tramas dos acusadores como suficientes para anular o consumado.

Por mais jurídicas que sejam as razões invocadas pelos ministros elas não afastarão esse tipo de visão mais próxima da política. E também o próprio desgaste da imagem de Moro, posto nas manifestações como um herói de história em quadrinhos, é inevitável por ter aceito a pasta de Bolsonaro, o que o coloca de julgador de Lula à condição de carcereiro num acúmulo de funções persecutórias.

O fato é que a classe política reagiu primeiro transformando um projeto de iniciativa popular, que visava fortalecer os meios repressivos, em código de abuso de autoridade e agora, aprovando na Câmara Federal medida que abre espaço para o Caixa 2 e dificulta controle de gastos. De marcha batida, depois de tanta dissimulação, acabam arrumando uma anistia geral e irrestrita para os infratores do Caixa 2, do qual tanto dependem.

 

 

 

LEGENDA

Gustave Doré, O Conselho Realizado pelos Ratos, 1868

 

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