Quando eu me chamar saudade

Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade;

quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir;

nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal;

saber morrer nos exime de toda a sujeição

e constrangimento.

Michel Eyquem de Montaigne

 

A morte não deveria se apresentar numa rua, num poste, ponte, numa bala de revólver. Nunca fria e soturna num quarto de hospital, numa UTI, com suas multidões de zumbis e médicos e barulhos de bips e luz cinza.

O certo seria coroar a vida com um fim cheio de flores e perfumes suaves; de um jeito que o corpo fosse ficando tão leve, tão suave, tão translúcido que desaparecesse como mágica, como pó – cinzas jogadas ao vento. Um jeito que fosse dando tanto prazer que despertasse aquela estranha sensação de querer morrer de felicidade. E assim, a morte chegaria, para cumprir uma vontade sem trauma e sem dor. Ao atravessar o limite do prazer, uma morte colorida e delicada.

Poderia ser num caminho feito de ipês amarelos. Corredor de árvores tão repletas que sacudissem com brisa e derramassem flores. Ou que chegasse de mansinho, mão estendida e sorriso terno, vestido esvoaçante, segurando um buquê de lírios cheirosos, a entoar Bach.

A morte poderia ser uma parceira, amiga e confidente, que, atenta, compreendesse a hora exata para se apresentar. Educada e elegante, soubesse também o momento de sair, mesmo que isso lhe custasse viagem inútil. Se errasse o endereço ou o horário, paciência, iria embora de mãos abanando, sem recolher nada no caminho.

Mas a morte não faz isso. Ela se impõe, dona do ar, senhora do tempo, pontualíssima com suas vontades. Promove as mais estranhas perguntas e os piores sustos. Cria e recria mistérios. É pesada feito pedra. Dura como aço. Rija, indobrável, incansável, incontornável.

A morte não quer saber que o amanhã chegará e se ele aparecer vazio ou cinza, isso não lhe diz respeito porque não há lírios, não há ipês, não há suavidade.

A morte é foice. Mas é também MPB. E nos populares do nosso cancioneiro sempre há quem trate do tema. A primeira música a ser lembrada nessa edição, que de mórbida não tem nada, é o samba “Quando eu me chamar saudade”, parceria de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, que ganhou notoriedade em 1973 na voz de Nelson Gonçalves e que também ficou conhecida pelo codinome “Flores em vida”: “Sei que amanhã / Quando eu morrer / Os meus amigos vão dizer / Que eu tinha um bom coração […] Mas depois que o tempo passar / Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora / Por isso é que eu penso assim / Se alguém quiser fazer por mim / Que faça agora / Me dê as flores em vida”.

Quem abotoou o paletó na MPB foi o malandro Malvadeza Durão. A música que entrou para história é de 1961, composição de Zé Kétti, em 1965 fez parte do repertório do show Opinião, em que o autor dividiu o palco com João do Vale e Nara Leão. O protagonista do enredo partiu dessa para melhor em plena batucada “O morro estava em festa quando alguém caiu / Com a mão no coração, sorriu”; apesar do sambão e de trazer certa graça na letra, a música não deixa de ser um retrato de uma tragédia que se repete há muito nos morros cariocas, e vá lá, em outros morros ou planos também: “Mais um malandro fechou o paletó / Eu tive dó, eu tive dó / Quatro velas acesas em cima de uma mesa / E uma subscrição para ser enterrado / Morreu Malvadeza Durão / Valente, mas muito considerado”.

Em 2008 Gilberto Gil, então com 66 anos, escreveu “Não tenho medo da morte”, a composição leva o selo de qualidade de Gil, mas o melhor de tudo é ver sua interpretação. Depois que você terminar a leitura da coluna, corre ali no Youtube e procura: “Não tenho medo da morte / Mas sim medo de morrer / Qual seria a diferença / Você há de perguntar / É que a morte já é depois / Que eu deixar de respirar / Morrer ainda é aqui / Na vida, no sol, no ar / Ainda pode haver dor / Ou vontade de mijar”.

“A morte de um deus de sal”, “Morte de um poeta”, “Morte ao anoitecer”, “A morte do vaqueiro”, “A morte não marca hora”, acredite, tem muita música dentro desse tema, se for para computar o tema dentro das músicas, então, o lance ganha dimensão muito maior. A morte aparece em lugares doces e calmos como na “Baila comigo” de Rita Lee “Se Deus quiser um dia eu viro semente / E quando a chuva molhar o jardim, ah, eu fico contente […] Se Deus quiser um dia eu morro bem velha / Na hora H quando a bomba estourar quero ver da janela / E entrar no pacote de camarote”; em contratos conscientes com as provisoriedades da vida como o feito por Caetano Veloso em “Oração ao tempo”: “E quando eu tiver saído / Para fora do teu círculo / Tempo, tempo, tempo, tempo / Não serei nem terás sido / Tempo, tempo, tempo, tempo” ou o escrito por Vinícius de Moraes em “Sei lá, a vida tem sempre razão”, onde a hora do sim é o descuido do não: “Como é, por exemplo, que dá pra entender / A gente mal nasce, começa a morrer / Depois da chegada vem sempre a partida”. E já que citei o Poetinha, é bom lembrar também de seu alerta certeiro: “A vida é pra valer / E não se engane não, tem uma só / Duas mesmo que é bom / Ninguém vai me dizer que tem / Sem provar muito bem provado / Com certidão passada em cartório do céu / E assinado embaixo: Deus / E com firma reconhecida!”

Para ninguém reclamar que a leitura da coluna causou uma depressãozinha, termino essa seleção com o mais animado da playlist óbito: Noel Rosa e sua “Fita amarela” numa receita para festivo velório: “Quando eu morrer / Não quero choro, nem vela / Quero uma fita amarela / Gravada com o nome dela […]  Não quero flores / Nem coroa com espinho / Só quero choro de flauta / Com violão e cavaquinho”.

Se tudo der certo neste mês, nos encontramos na próxima coluna, mas se como disse Ariano Suassuna em sua A Pedra do Reino, “uma gota de salmoura que desça ao coração entupindo uma artéria, uma veia importante que se rompa em meu peito, uma sufocação de tosse, uma forte opressão interna, um fluxo impetuoso do meu sangue, uma Cobra-Coral que me morda, uma febre, uma picada, um corisco de pedra-lispe incendiada, um raio, uma pedrinha de areia nos rins, um inimigo audacioso, uma pedra que se despenque de um serrote” me levar dessa para outra, foi um prazer estar por aqui, nessa comunicação.

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