80-meia hora-sem amor

Às três da tarde faz um calor atípico para um princípio de inverno. No bar uma mulher jovem está de costas para a rua, sentada numa mesa ao fundo, bebe um drink solitariamente. A música sertaneja em volume alto chama a atenção dos que passam na rua. A cena traz à memória um fotograma de Paris Texas de Win Wenders, mas estamos em Curitiba em junho de 2019 no centro da cidade, precisamente entre as ruas Alfredo Buffren e a Riachuelo.

O movimento é intenso na calçada e a imagem revela uma narrativa trivial, quase previsível em se tratando de áreas centrais das grandes cidades, onde se concentram todo um universo de encontros, pequenos hotéis, sex-shops, cinemas e bares. Ao mesmo tempo que se confundem com um ritmo orgânico e urbano, diário e cotidiano, o que se encontra nessas ruas são principalmente mulheres e LGBT’s que trabalham como profissionais do sexo. Esse circuito vivo pulsa em ritmo intenso convivendo com um comércio de roupas, brechós, lanchonetes, barbearias, móveis usados e pequenos mercados.

De certo modo e à luz dos passantes tudo é envolto em pequenas narrativas, universos pessoais, vidas comuns de quem luta por sobrevivência e trabalho. E ao mesmo tempo há o trânsito ou a transa de quem ao fim do dia procura um prazer talvez para quebrar o próprio ritmo cotidiano e anônimo que aparentemente lota calçadas e praças do centro da cidade. Sedução e negócio, corpo e trabalho.

E se tudo aparentemente transcorre abertamente, ao mesmo tempo é um mundo fechado, uma bolha onde tudo acontece discretamente, quase com uma estranha elegância. É preciso então que qualquer aproximação seja feita de modo delicado. Decido saber o que significam esses sinais diários, essa presença humana, esse território que com o passar dos dias vai se mostrando familiar para os que fazem parte dele.

As mulheres vestem-se de maneira simples à tarde e quando anoitece surgem mais à vontade para exibir corpo e roupas coloridas e coladas. Ao contrário do que se imagina a maioria está na faixa etária acima dos 40 anos e mora na rua. Ou seja, não há glamour mas muitas narrativas, um mundo particular, histórias vivas de solidão e abandono.

Encontro Amanda, está encostada numa vitrine às seis horas, no lusco fusco do entardecer a rua está cheia de pessoas que saem do trabalho e passam, pergunto se podemos conversar, ela diz que sim e iniciamos falando sobre sua história pessoal. Me conta que está apenas há oito meses na “rua” e que gosta porque ganha bem. Em um dia, relata, às vezes tira um salário mínimo e que saiu de casa por razões que prefere não dizer. Enquanto conversamos ela é rápida com o olhar que não para, parece mapear cada passante, cada possibilidade de iniciar um encontro. Vou ao ponto, pergunto sobre a violência e ela confirma, “eles batem sim e ela bate de volta porque não querem pagar.”

O pagamento é unânime, sempre em espécie e obrigatoriamente antecipado, além da exigência do uso da camisinha, que muitas vezes faz com que o encontro seja desfeito e o dinheiro devolvido, quando o cliente se recusa ao uso do preservativo. Segundo me conta Cristiane, muitos alegam alergia como justificativa. Ela me pergunta se sou do governo, se gosto do presidente pois se sim ela não gostaria de falar comigo, “perdi a bolsa família e estou na rua”. Ao mesmo tempo demonstra uma alegria diferente das outras moças que aos poucos vão se aproximando. Percebo que há familiaridade entre todas, que se ajudam e se conhecem na rua e nos hotéis para onde levam a clientela e vivem.

Esses pequenos hotéis servem para os encontros e ao mesmo tempo para o pouso e a dormida, em geral com uma saída garantem o lugar onde passar a noite, o que vier a mais é lucro. Conversando aos poucos descubro que não existe mais a figura do cafetão, a não ser em alguns casos em que o homem trabalha com a própria mulher. Hoje essas profissionais do sexo são independentes e decidem com quem e onde trabalham, o que ao mesmo tempo torna o dia a dia incerto, já que não há garantia de que um encontro aconteça tosos os dias pelo menos.

Valquíria, trans, 47 anos, 27 trabalhando na rua, veste-se de maneira elegante e discreta. Tem moradia e se garante, consegue se alimentar regularmente, diferentemente da maioria. Mas me fala da violência policial e dos clientes, e diz isso quase em silencio, confirmando com gestos enquanto olha em volta. A sensação que se tem é a de que vivem em um constante estado de alerta, em que qualquer movimento imprevisto provoca dispersão imediata. De maneira geral são discretas, mas não se recusam a conversar.

Teresa tem 28 anos, é bonita e segundo os clientes parece moça “de família”. Tem cinco filhos, todos de um casamento anterior à rua. Três estão com a mãe e dois ela conta que perdeu para adoção. Dois dias depois de entrevistá-la encontrei-a na rua perambulado sem saber como iria passar a noite já que havia passado a noite anterior na rua por falta de trabalho. Muitas delas se juntam à noite quando não é possível conseguir local para a dormida. Mas não dormem, segundo contam, com medo de serem atacadas e esfaqueadas. São noites de vigília e frio esperando o dia amanhecer e as ruas serem ocupadas para descansar em algum lugar ou seguir buscando um encontro.

Fome, relento, violência. Droga e bebidas. Essa é a narrativa mais recorrente. Encontro à tarde muitas meninas menores de idade também. Estas são mais requisitadas e bem pagas por homens que as abordam discretamente. Há um código silencioso que só quem se propõe a observar percebe. Movimentos casuais, como, por exemplo, olhar no celular ou aguardar algo, escondem muitas vezes todo um movimento de ir e vir para encontros em plena tarde. No início da noite há bares específicos onde se pode beber, ouvir música ou dançar, mas em geral são locais onde o público é heterogêneo.

80 meia hora sem amor. Escuto de uma jovem a um homem em meio a uma tarde de sol. Ele concorda e se vão discretamente. A tarde segue seu ritmo, as pessoas passam e não percebem. Começo nesse momento a pensar essa crônica sobre amores clandestinos, sim, amores, em muitas variações e acertos muitas vezes injustos e violentos, machistas. Mas posto que o desejo é humano há qualquer coisa da lembrança de um afeto perdido. Memória que se busca. Marta, uma das moças, jovem e bonita, me conta que os homens vão procurá-las por falta de diálogo em casa com as mulheres. Que todos se vingam nelas, que buscam sentir-se menos solitários. Para além do bem e o mal penso no emaranhado de sentimentos produzidos na falsa impressão de troca e compensação que o mundo oferece. Mas isso já é outra história.

[Foram entrevistadas dez mulheres e todos os nomes são fictícios]

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