Clássicos: eternos como os diamantes

Haverá algo mais moderno do que um clássico, sobretudo um grande clássico? Penso que não.

Lendo Ésquilo ou Sófocles, Homero ou Virgílio, Dante ou Camões, Shakespeare ou Cervantes, Moliére ou Goethe, Tolstói ou Dostoiewski, Sterne ou Dickens, Flaubert ou Balzac, Eça ou Machado, o leitor não pode furtar-se a um sentimento de assombro, de êxtase, de vertigem.

A verdade é que esses arquétipos da arte literária falam, com voz altissonante, da tribuna – que são os seus livros –, dos problemas, da realidade, dos sonhos, dos pesadelos, dos anseios do homem do nosso tempo, passeando nos caminhos árduos da contemporaneidade.

O que faz a grandeza de um clássico? Talvez seja precisamente a sua capacidade de antecipar-se, de refletir, com séculos de antecedência, sobre aquelas mesmas problemáticas que viriam a desabrochar no futuro, no território da futuridade – que é o nosso presente. Problemáticas que, na sua configuração intrínseca, estruturam, morfológica e sintaticamente, o poliedro da condição humana. Sejam elas de natureza social ou política, religiosa ou filosófica, material ou espiritual, psicológica ou estética.

Há, nos clássicos, um poder quase divinatório, se não premonitório, que nos surpreende e nos deslumbra. É como se eles, a bordo de uma espécie de máquina do tempo semelhante à de H. G. Wells, tivessem viajado do passado até o mundo atual. Do outrora ao agora. A fim de penetrar as suas entranhas. A fim de radiografá-lo, estudá-lo, compreendê-lo. Mais do que isso: a fim de explicá-lo a nós próprios.

O clássico demonstra e exemplifica, de modo admirável, a inalterabilidade da condição humana. Explicita o homem, de ontem, de hoje e de amanhã, sempre o mesmo ser plural, multifacetado. Oscilando entre os dois infinitos de Pascal e as duas misérias de Dostoiewski, corroboradas pelo gênio de Iasnaia Poliana.

É essa capacidade, a um só tempo sutil e poderosa, que faz a grandeza dos clássicos contemporâneos, como é o caso de Proust ou Joyce, Thomas Mann ou Malraux, Pessoa ou Drummond.

Exatamente como os diamantes, tempo e luz concentrados na implosão formidável da beleza, os clássicos superam as fronteiras do tempo. Mais do que intemporais, são eternos. Milagre do gênio? Simples realização da arte demiúrgica. Criadora e transfiguradora.

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