O populismo trajado de liberalismo
ou vice-versa ou nenhum dos dois, só o populixo

populismo:
s.m. Prática política de adotar a defesa dos interesses das classes menos favorecidas com o propósito de conquistar a simpatia e a aprovação popular / Simpatia pelo povo

liberalismo:
s.m. Doutrina cujas origens remontam ao pensamento de Locke (1632-1704), baseada na defesa intransigente da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra ingerências excessivas e atitudes coercitivas do poder estatal

populixo:
Ainda não consta nos dicionários, mas está presente o tempo todo em nossa vida brasileira

 

Graças ao resultado de décadas de investimentos pesados em manter pessoas mal informadas, controladas, com acesso quase nulo a um poder crítico, o Brasil caminha, aparentemente sem se sentir péssimo com isso, numa confusão sobre o que acontece nos sistemas políticos em que está inserido.

É comum que expressões se percam de seu sentido original e ganhem novos significados a partir da cultura, dos costumes, das circunstâncias e mudem dentro do desenvolvimento natural da linguagem e de como ela vai traduzindo todas as transformações das sociedades. Mas infelizmente é também comum que especialmente os políticos se apropriem de termos e os façam caber dentro de seus discursos que no fundo apenas repetem fórmulas de outros tempos. Liberalismo e populismo são dois exemplos.

Os dois conceitos e o sucesso da ignorância acasalaram, engravidaram e pariram como possibilidade de governo o populixo, uma coisa contagiosa, que vai se espalhando como erva daninha e contaminando de forma perigosa até quem é conscientemente contra ela.

 

Populixo

Este fenômeno não é uma exclusividade brasileira, mas aqui está tão presente em nosso cotidiano que parece que somos os donos da invenção. Temos um presidente que gosta de misturar assuntos e posturas. Vai para frente dos microfones e se comporta como se estivesse na mesa do mais sórdido dos bares; abre o Twitter e digita anormalidades intelectuais e morais; convoca uma reunião e consegue ser o pior dos presentes. Ele é o rei do populixo.

O populixo é o nome dado à atitude de um político que procura tratar de qualquer assunto de forma descolada, sem medo de afirmar o quão ignorante é onde deveria ser responsável, que não tem receio de ser ridículo e que, principalmente, pensa que sua posição lhe permite tudo. O praticante do populixo é um absolutista, um autoritário – em alguns aspectos até um opositor ao liberal e ao populista.

Jair Bolsonaro é um populixo. Isso não seria problema se ele tivesse ficado restrito ao círculo de pessoas que gostam desse tipo de gente. Mas a desgraça está que por conta de vários motivos, muitos deles inclusive já tratados e destrinchados em números anteriores desta revista, ele é presidente do Brasil. Um presidente, mesmo que seja da Associação dos que Colecionam Parafusos, tem responsabilidades. Presidente de nação, então, nem se fala. Bolsonaro, como ia dizendo, é um populixo. Fala o que acha que o tornará engraçado, sem filtro, machão. Fala de maneira irresponsável. Fala sem pensar em consequências. Mas o pior de tudo é que fala e em seu besteirol estabelece a pauta da oposição que se concentra em comentar seus vitupérios – e este é o principal poder do populixo, a força e a razão para que ele exista. Falar um monte de asneira imobiliza a concorrência porque ninguém consegue ouvir que “fazer cocô dia sim, dia não reduz poluição ambiental” e ficar quieto. Não há cristão capaz de escutar defesas sobre ditadores e torturadores e ficar calado. Não tem como não debater sobre quando ele ataca a imprensa como um todo e jornalistas de forma particular. Os opositores têm quase uma obrigação moral com o país em tratar dos assuntos que o presidente deforma porque é preciso lutar muito para não perder algumas conquistas de costumes que são muito importantes para a civilização. E com isso, entre absurdos e revides, ele vai governando da forma que quer, veja só!, quase sem oposição.

Esta é a fórmula do presidente: ocupar todo mundo com suas asneiras, insultos, gritaria e seus cortes de cabelo. Seus três subordinados diretos, que são também seus chefes temidos, os filhos, seguem a mesma linha porque foram criados nessa malandragem de atuação.

Como sair desse conflito? De que forma conseguir pensar num projeto decente para o país com tanta coisa para comentar e debater? Pode-se usar o conselho do presidente: um dia tratamos do cocô, ele; no outro, falamos seriamente. É possível que o ambiente melhore.

 

Populismo

O historiador Marcos Napolitano listou um texto básico para explicar didaticamente sobre o conceito de populismo, que despontou no país entre os governantes de 1930 e 1964. Fez sua composição a partir da área da sociologia política e trabalhos publicados no Brasil entre as décadas de 1960 e 1970. Para Napolitano, e os autores que ele estudou, o populismo tem quatro pilares, que ao longo dos anos foi sendo recheado de novas características:

  • Relação direta e não-institucional entre líder e massa: é o que pode ser traduzido na figura do líder político que carrega por conta de seu poder pessoal de comunicação a relação com o eleitorado, sem precisar de uma instituição formal;
  • Discurso baseado no forte nacionalismo econômico e na união das classes sociais: repare que aqui, o político em questão fala sobre a força da economia e a harmonia de classes sociais, não sobre subverter ordens ou fundir massas diferentes. Getúlio Vargas, por exemplo, que era tido como ‘o pai dos pobres’, não fincava seu discurso em diminuir distâncias entre classes, apenas em uni-las debaixo do guarda-chuva chamado nação, nação econômica;
  • Liderança baseada no carisma pessoal e na rede de clientelismo: o conjunto de relações sociais e hierárquicas conseguido através da simpatia, do poder, do algo mais e da alegria do político garante uma rede imensa de troca de favores, onde os indivíduos vão sendo amarrados (os mais pobres aos poderosos, os empresários aos governos, os agregados aos chefes etc.) perpetuando o velho esquema de distribuição de favores. (Abro parênteses meio fora de hora aqui para citar outra fala de Marcos Napolitano, só para lembrar que na teoria, o liberalismo implica em equivalência de indivíduos e não em dependência de indivíduos. O princípio liberal é de que o indivíduo é livre, que ele não deve nada a ninguém, que seus direitos estão definidos e que ele não precisa se tornar cliente de ninguém. Pronto.);
  • Frágil sistema partidário: os partidos políticos não se sustentam como organizações políticas porque o líder é mais importante que o partido, porque o eleitor vota na pessoa e não nas ideias e ideais de um partido.

Esses tópicos passam continuamente por revisões de sociólogos e cientistas políticos, vão ganhando novas cores, negritos, aspas, conforme o que a história ensina ou a atualidade estampa. Mas ainda se mostram referenciais para entender o que houve no Brasil durante o período que ficou conhecido como República Populista e de como as heranças deixadas por aquela época chegaram até aqui e estão hoje vívidas, lépidas e super praticáveis.

 

Liberalismo

De forma bem resumida, e por isso carregando um tanto de irresponsabilidade, o liberalismo pode ser exemplificado usando dois pilares conceituais:

  • Liberalismo político: o cerne desse pensamento é de um período em que as sociedades precisavam desatar as amarras absolutistas do Estado. Na saída da Idade Média do calendário e nos primeiros anos do Iluminismo, as primeiras ondas de liberalismo começaram a se formar. Não era mais possível que conquistas unilaterais como o absolutismo, os direitos divinos dos reis, as regalias hereditárias continuassem em vigor. Também não dava mais para sustentar monopólios e situações que obrigavam cidadãos a depender inteiramente do Estado, pior, da vontade do Estado.

Pela liberdade, para lutar contra governos autoritários e por direitos a resolver sobre religião, por exemplo, começou a se moldar a corrente liberal como sistema político.

Dentro deste pensamento, o absolutismo de um rei, por exemplo, passou a ser gradativamente substituído por um conjunto de deveres e direitos para os dois lados, o que hoje conhecemos como Constituição;

  • Liberalismo econômico: Quando Adam Smith (1723-1790) entrou em cena com sua obra a falar sobre livre concorrência, divisão do trabalho, lei natural da oferta e da procura, o campo político já estava totalmente favorável a essas ideias e foi relativamente fácil para o mundo se alegrar com o expediente de que o mercado poderia balizar qualquer situação e que a livre concorrência seria responsável desde a ampliação de produção até descobertas científicas. A partir daí a ideia que melhor colou na corrente foi a de que quanto menos Estado, melhor.

Mas há outros elementos que estão nas raízes liberais e que não podem ser deixados aquém dos campos político e econômico. Várias das pedras fundamentais das sociedades ocidentais democráticas estão fincadas em conceitos que nasceram no campo do liberalismo, como por exemplo os direitos civis individuais como o da educação universal, a liberdade de expressão, a igualdade de gênero e racial etc.

 

Lucas 23:34

A confusão brasileira atual, esse samba do crioulo doido em que desgraçadamente vivemos, tratou de misturar características de tudo quanto é lado, dar nomes diferentes às coisas, justamente para manter tudo igual: discurso de ocasião, troca de favores infinitos em nome do acordo com o poder.

Mas os governantes atuais, tanto na esfera federal quanto na estadual, têm um ingrediente novo: se autodenominam liberais – apesar das falas de campanha agruparem o baixo extrato do populismo.

As pastas de economia do presidente e do governador falam de liberalismo econômico com os narizes nas alturas, com teses em que uma privatização aqui, uma liberação de licença ali e uma concessão acolá são a chave para entrada nesse mundo que julgam e propagam como ideal. Mas falam também sobre, veja lá, a supremacia do Estado, sobre imitar outros lugares do mundo, sobre importar modelos de outras freguesias. E também tratam de se associar a tudo quanto é tipo de agremiações para garantir votos em troca das ordens que vêm das bancadas – um círculo vicioso, um animal que cresce se alimentando do próprio corpo. Veja que o Estado que quer ser menor no discurso, ainda trata de cargos como moeda de troca, distribui autarquias, mantém o inchado e ridículo toma lá da cá.

Até poderia citar Lucas 23:34, Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Mas os governantes de plantão sabem bem o que fazem. Não há ingenuidade nas ações. Sobra pouco fôlego para defender políticas públicas porque ainda continuamos pagando pelos serviços essenciais a que o Estado, mesmo o que levanta a bandeira liberal, se propõe. Ainda chegam os boletos do plano de saúde, da mensalidade da escola, das inúmeras providências para nos mantermos minimamente seguros. Ainda temos que pagar tributos de tudo quanto é sigla para depois pagarmos tudo de novo e, às vezes, até mais uma vez. Enquanto isso, é preciso exercitar a paciência em níveis impressionantes ao ouvir governantes falando de meritocracia, concorrência de mercado, corte de programas sociais e todo o desmonte do que deveria servir à população como ponto de partida para uma vida mais justa e igualitária.

Por último, é bom lembrar também que as agendas que atendem o lugar-comum do discurso revoltado da classe média, que nem sabe direito sobre o que está gritando, que por ignorância é vítima e vilã, na verdade promovem o enterro de programas importantes para toda a população, incluindo a própria classe média. Um exemplo, e só um: é normal uma gritaria sem fim da população contra a rigidez de departamentos que são responsáveis por licenças ambientais. Frases como “por causa de um mico-leão-dourado milhares serão prejudicados” / “os ambientalistas são os novos comunistas” / “ecologistas só querem saber de mimimi” são comuns em bocas que não sabem do que estão falando. Um governante entregue ao populacho e de olho em acordos que farão bem ao seu bolso ou à sua próxima eleição concorda com o lobby dos parlamentares, vai aos microfones e fala em progresso, em modernidade, em avanços, em empregos e crescimento. A população aplaude. Um tempo depois, uma barragem se rompe, cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos invadem rios, matas, estradas, plantações, cidades, acaba com sistemas de abastecimento de água, influencia o preço de uma cadeia imensa de produtos, coloca o Brasil em descrédito internacional, mais de 200 pessoas morrem. Os palestrantes de plantão? Boquiabertos se distraem com a novela “porque não aguentam mais ver notícia ruim na TV”.

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