Quando Ruby Bridges levantou

Acima de um passado que está enraizado na dor
Eu me levanto
Eu sou um oceano negro, vasto e irrequieto
Indo e vindo contra as marés, eu me levanto
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me levanto

(Poema Ainda assim, eu me levanto de Maya Angelou)

 

O passado escravocrata continuou em discurso e prática na América contemporânea. No Brasil passamos por um século XX que tentou imperar a ideia de harmonia entre as raças após a tentativa do embranquecimento, com o mito da cordialidade racial, que ainda hoje é utilizado para justificar o racismo ou falsear sua existência. Como escreveu Lélia Gonzalez, “como todo mito, o da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra”: a sua violência.

Nos Estados Unidos, a prática e o discurso em relação a população negra se dava também pela exclusão. Somente em 1964 assinou-se a lei de Direitos Civis que proibiu a discriminação racial no país. Em ambos os países, a organização entre os movimentos negros foi necessária e vital para que as transformações ocorressem e que novas possibilidades fossem pensadas para suas experiências. Um dos casos emblemáticos desse período nos Estados Unidos foi o de Ruby Nell Bridges Hall, a menina negra que aos seis anos passou a estudar numa escola só para crianças brancas.

Ruby nasceu em oito de dezembro de 1954 em Tylertown, Mississippi. Aos quatro anos mudou-se junto da família para New Orleans, Louisiana. Em 1960, após seus pais responderem um pedido da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP), Ruby foi uma entre seis crianças a passar no teste que as indicava para uma escola somente para brancos(as). Esse projeto fazia parte das alterações do regime de segregação racial no país feito pelo governo federal, após anos de luta pela integração e igualdade do povo negro nos Estados Unidos.

Mesmo com a relutância do pai, a mãe de Ruby acreditava que a pequena encontraria uma melhor educação na nova escola, para além de crer ser a mudança necessária para o que viria para outras crianças negras. Então em 14 de novembro de 1960, Ruby e sua mãe dirigiram-se à escola William Frantz escoltadas por policiais da U.S. Marshals (Serviço de Delegados dos Estados Unidos). Apesar de ser a mudança, Ruby a viveu cotidianamente em contato com o racismo através da não aceitação da população branca à integração. Todos os dias em frente à escola, deparava-se com manifestações contra a sua presença. Ruby era a imagem dos privilégios caindo por terra e do racismo sendo combatido. O horror nas faces brancas, como mostra o filme Ruby Bridges: uma menina luta por seus direitos (1998), escancara o racismo que Ruby aos seis anos enfrentou.

Além do que encontrava do lado de fora da escola, na sala de aula não houve inclusão. As crianças foram retiradas da escola em repúdio à presença de Ruby. Professoras também se recusaram a ensiná-la até Barbara Henry aceitar as aulas. Assim, por mais de um ano Ruby teve aulas sozinha com Henry. Aos poucos, famílias foram colocando seus filhos novamente na escola e como consequência eram considerados traidores pelo grupo que não aceitava a nova política de integração. A própria família de Ruby enfrentou perseguições, o pai perdeu o emprego, foram excluídos de vários espaços e os avós foram retirados de suas terras.

O contato da pequena Ruby Bridges com a estrutura racista das Américas é uma das experiências de resistência do povo negro na sociedade. Aos poucos a integração foi adaptando-se às leis, alterando uma ordem que ainda estava conectada com o racismo e suas consequências em práticas segregacionistas.

Atualmente com 65 anos, Ruby continua a morar em New Orleans com o marido Malcolm Hall. Em 1999 publicou seu livro Through my eyes (Através dos meus olhos), onde contou sua trajetória.  Em 2001, o presidente Bill Clinton concedeu a ela o prêmio civil de Presidential Citizens Medal. Em 15 de julho de 2011, Ruby encontrou-se com o presidente Barack Obama na Casa Branca. Ao prestigiarem a obra de Norman Rockwell sobre a experiência da pequena Ruby, The problem we all live with (O problema com o qual nós todos vivemos), Obama destacou que se não fosse por ações como a de Bridges ele não estaria lá e ainda declarou: “nós não estaríamos olhando para isso juntos”. Um encontro simbólico para as mudanças que se iniciaram há séculos pelos movimentos abolicionistas, organizações de resistência e com ações corajosas e reivindicatórias como a de Bridges e de sua família. Em uma palestra Ruby conclui: “Foi isso que aprendi na primeira série, a nunca olhar e julgar uma pessoa por sua cor de pele”.

 

Legenda: The problem we all live with (O problema com o qual nós todos vivemos), por Norman Rockwell

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