Destino: a fé de Salvador

Não tem como negar, a cidade de Salvador é, para mim, um estado. De espírito. Lugar que povoa minha imaginação de forma muito descolada da realidade de uma metrópole em que quase três milhões de pessoas vão e vêm.

A Salvador de toda minha vida tem baianas do tempo do imperador; acordam em trajes brancos, rendados, rodados e adocicam tudo com aquele jeito manso de falar, um acarajé sempre pronto e um samba de roda na ponta da língua para embalar a vida doméstica. Nada lhes tira a calma ou compromete o requebrado do andar, balé sensualíssimo nas pedras do Pelô, meu rei.

Os baianos todos – incluindo professores, motoristas, frentistas, médicos e advogados – são pescadores e cantores; homens do mar e da poesia, com o corpo torneado pelo exercício do remo e das velas e as palavras escolhidas pela beleza. Em todos eles, até nos contadores e bancários, o olhar de enlouquecer.

Quando a gente viaja é assim.

E em todas as visitas que fiz, na minha Salvador o tempo passa lentamente e há sempre uma rede debaixo de um coqueiro; ali pertinho, um regional de camisa listrada e chapéu panamá batuca simpaticíssimo as aventuras do amor e do cotidiano. Todas as canções que falam das sacadas e sobrados da velha São Salvador são revividas com graça e tranquilidade.

Dorival Caymmi está nos altares das 365 igrejas que a Bahia tem, Jorge Amado de um lado, Castro Alves de outro. Candomblé, capoeira e fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim são expressão e cenário, vida e arte, abrigo e composição para que a aristocracia desfile nas tardes de domingo a caminho da matinê do Cine Olympia ou de algum musical no Cine-Teatro Jandaia – os dois ali, na Baixa dos Sapateiros, na antiga J.J. Seabra.

Todos os santos descansam e olham para o tempo, passeiam pelo Mercado, contornam o Farol da Barra, às vezes gritam Gregório de Matos, às vezes sussurram Antônio Vieira. Eles lavam escadarias, almoçam em terreiros e beijam as mãos de Iemanjá.

Mas há providências práticas para quem ensaia uma viagem – e evidências do que deve ser feito para experimentar essas possibilidades. Uma delas é participar da fé, do sincretismo e do respeito, o nome prático desse passeio é ir à missa na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Acalme-se, por favor, leitor, leitora. O assunto aqui é seriíssimo, até para mim, que sou ateia, à toa.

Sempre que posso dou uma espiadinha nos rituais. Dos momentos católicos, já vi aquelas maravilhas nas grandes catedrais europeias, os órgãos que têm o tamanho do meu apartamento a ecoar nas paredes forradas de santos; corais mais afinados que a Suzie Franco; latim do início ao fim. Já vi em comoventes capelas sermões interessantíssimos para serem seguidos à risca fora das paredes de Jesus; casamentos; batizados; missa simples e dentro do beabá; missa ousada com padre revolucionário…

Terreiro, templo protestante, palavras budistas, universo em desencanto. Não tenho preconceito de religião. Tudo já fiz, fui até o Canjerê… mas sempre há uma racionalidade que estraga tudo, pareço criança de oito anos quando vê um Papai Noel, ela já sabe que ele não existe, sua atenção é só para descobrir quem é o farsante.

Mas na Nossa Senhora do Rosário dos Pretos o negócio é diferente. Até uma descrente como eu consegue cantar para valer as músicas da missa e largar em voz alta as rezas e completar as frases que o padre deixa propositalmente em branco.

Um pouquinho da missa: ela leva para dentro da igreja aquele jeitão do candomblé. Os cânticos chegam acompanhados de percussão, palmas e danças. Há oferendas, pedidos de bênçãos. Há o afoxé presente e até o sermão do padre recorre a exemplos estranhíssimos ao catolicismo para mandar a mensagem. É um espetáculo bonito e comovente, mas é também emocionante e cheio daquelas pessoas que nos fazem ir às lágrimas quando se revelam tão humildes diante do altar.

São várias culturas que dão as mãos por um momento e nele, ali dentro pelo menos, todos são iguais. A senhorinha de um lado, o turista francês a filmar tudo do outro, as freiras que formam fila cinza num dos bancos, a mãe de santo que ouve coberta de guias e de olhos fechados. Todos iguaizinhos, porque todos queremos coisas muito parecidas, porque todos somos humanos, porque somos todos, e cada um, um elo dessa corrente universal.

Este é um lugar raro, em que o respeito pelo diferente é o que torna todo mundo igual. E para mim esse recorte é o que resume de forma mais competente a fé e o sincretismo da Bahia.

A igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos começou a ser construída no século XVII, fica no Pelourinho e partiu da vontade de uma das primeiras confrarias negras do Brasil. Demorou para chegar à última pedra porque dependia dos recursos e da mão de obra dos negros libertos e escravos da cidade.

A missa a que me referi rola toda terça-feira, às 18 horas e se chama Terça da Bênção. Fiquei sabendo que o padre Lázaro Muniz, com quem eu conheci o ritual, foi transferido e não apita mais naquela freguesia, apesar dos inúmeros pedidos da comunidade à Arquidiocese de Salvador, o que é uma pena. Mas parece que o que ele plantou nessa geração em relação a diversidade e resistência ainda vive.

Amém. Axé. Namastê. Shalom. Saravá.

Deixe uma resposta