Crônicas de Isabela França

Há algum tempo, Fábio Campana insiste que devo escrever. Não que eu não faça isso. Aliás, é o que faço para viver há muitos anos. Mas escrevo para os outros, sobre os outros. É tão fácil. Não sou eu quem diz, são eles.

Decidi aceitar o pedido e publicar o que escrevo para mim e para os meus. E pra ser mais fácil optei por caminhar num terreno conhecido. Faço uma ode aos meus. Reuni cinco crônicas nas quais conto histórias que gosto e que falam um pouco de quem sou. [Isabela França é jornalista] .

O SAL DA SAUDADE

Meu mar tem cheiro de hipoglós no nariz, de caldo de peixe borbulhando na panela, de mangue e de caranguejo. Meu mar tem ardido de água salgada nos lábios, nos olhos e, especialmente, nos esfolados da barriga após horas debruçada na prancha de isopor. Meu mar tem vermelhão doído nos ombros e nas bochechas, tem cansaço das braçadas rumo à ilha de Camboriú acompanhando meu avô e meu pai.

Os tons de azul e verde nas praias descobertas entre Cabeçudas, Laranjeiras, Retiro dos Padres, Bombinhas e Bombas eram meu melhor cenário de mar. Enjoo do balanço da baleeira de pescadores cheirando a diesel e mergulho em alto mar na madrugada davam o tom de verão. O tom ficava mais amigável e parecia fazer carinho na gente com a cadência de Caymmi nas cordas do violão.

Houve um tempo em que os prédios já faziam sombra na areia da praia, mas ainda tinha pescador tirando rede do mar e sempre sobrava uma ponta pra gente puxar também. Outra rede que me leva para o meu mar é aquela pendurada numa varanda onde a brisa chega. Esta sim é um convite para finais de tarde preguiçosos na companhia de Fernando Sabino, Cony ou Saramago. Isso era quando se achava o livro recém-começado. Na maioria das vezes, era uma leitura conjunta, disputada pelos mais rápidos. Quem encontrasse primeiro o exemplar esquecido em algum canto da casa não largava mais até chegar no ponto final.

De dezembro a fevereiro, o panelão ardia com caranguejos de garras enormes e era uma comilança semanal. Camarão frito, à milanesa, no bafo ou à moda espanhola também não faltavam. O gosto de peixe frito trazido das pescarias ou catado nas sobras dos arrastões temperava o meu mar.

Meu mar ainda tinha guarda-sol armado no melhor lugar da praia, com geladeira portátil cheia de sucos, cerveja e água gelada. Mas, no meio do gelo sempre havia toalhinhas molhadas com água doce para lavar os olhos que lacrimejavam ao sair do mar e mal se abriam no trajeto entre as ondas e a barraca. Meu mar tinha fundão e os dois braços mais fortes e seguros do mundo que me levavam além da arrebentação. Tenho uma saudade imensa do meu mar.

DONA TERESA ERA BUDISTA

O Lama Padma Samten, um físico gaúcho, calmo e pacífico como convém aos lamas, em uma de suas passagens por Curitiba falou sobre a arte de presentear. Abordou o assunto de forma simples, mas muito profunda. Disse ele: “o presente chega às mãos do destinatário, lindo e embalado. A fita, uma vez desatada, vira lixo. O papel que envolve a caixa, lixo. A caixa que leva o presente, lixo. E, algum tempo depois, por fim, o próprio presente vira lixo. O que é que fica? Fica a sensação prazerosa de quem fez o agrado e, quando o presenteado é um merecedor atento, ele também fica com a gentileza daquele que escolheu o presente”, sintetizou.
Entendi, finalmente, por que gosto tanto de presentear!

O mais curioso e triste desta recente descoberta foi que, no dia seguinte à palestra, perdi uma das mais hábeis presenteadoras que conheci. Foi-se, aos 79 anos, a vizinha da vida inteira dos meus pais - Dona Teresa. Viúva, avó de dois netos muito boa gente, Dona Teresa não perdia uma oportunidade de presentear. Fazia bolinho da graxa e passava imediatamente uma travessa pelo muro. Descobria uma receita nova de salgado, e estava garantido nosso chá da tarde. Aniversário - qualquer aniversário da casa - era batata! Por volta das 17h30, 18 horas chegava ela toda alegre, cheirando a lavanda, com um pacotinho na mão. Escolhido a dedo, vinha um pano de prato, uma camisola fofinha, um chinelo confortável, um prato decorativo, um brinquedo para as crianças. Assim era sempre. Não passava um mês sem que ela nos envolvesse num caloroso abraço satisfeito.

Hoje choramos, todos, o sétimo dia de sua ida para o lado de lá. Contou-me cheio de lágrimas, o neto mais velho, que encontrou no armário da avó muitos, muitos presentes. Um bem recente para o João Guilherme, meu pequeno que só faz aniversário daqui uns dias e, ainda antecipadas, bolachas de Natal já embaladas e nominadas para minha mãe, minha irmã e para mim. Ele vai esperar as datas para entregá-los. Aprendera a lição, o danado!

A breve e sincera conversa na porta da igreja foi melhor que o sermão do padre sobre a vida eterna. Taí, nos presentes da Dona Teresa que o Aguinaldo vai entregar com a mesma satisfação quando chegar a hora, a melhor definição de vida eterna.

SHEIKS, PRÍNCIPES, CIGANOS E O CONGRESSO EUCARÍSTICO INTERNACIONAL DO RIO DE JANEIRO

Quando eu era menina havia lugares mágicos que me faziam viajar para um mundo distante. Cenários de princesas e príncipes, odaliscas, cavaleiros, castelos europeus, acampamentos ciganos, haréns e outros que, na minha imaginação, eram coloridos, musicais e maravilhosos. O mais especial dos portais que me transportava para estes universos paralelos era uma imensa cristaleira de imbuia, com portas e prateleiras de cristal e espelhos infinitos que multiplicavam os tesouros guardados dentro dela. Tudo era muito bonito, delicado, cheio de cor, desenhos, pinturas, brilhos e, o mais fascinante, era completamente inacessível para mim. O móvel ficava trancado à chave na sala principal da casa da minha avó. Nós, crianças, passávamos horas na frente dele apreciando cada peça da imensa coleção de xícaras montada ao longo de uma vida rica. Na minha imaginação, minha avó ganhara cada uma daquelas xícaras de um sheik, um rei ou um príncipe de reinos distantes nas Arábias ou na Espanha Flamenca.  Ou talvez de uma tribo de ciganos que a ensinou a ler cartas, mãos e conhecer gente melhor que ninguém.Às vezes ela abria aquelas portas e nos servia um chá, importado e perfumado, numa de suas joias. Há cerca de uma década, minha avó foi apagando a chama e a coleção de xícaras foi guardada em caixas. Há cinco anos e meio ela se foi. As caixas ficaram lá, num canto da casa de uma prima querida. No ano passado, ganhei a minha caixa e, na correria do dia a dia, deixei quieta na casa da minha mãe. Ontem, passando por lá, peguei a caixa. Estava até com medo de abrir com a possibilidade de não achar o conteúdo tão encantador quanto era na minha imaginação. Que surpresa! Lá estavam todos os sonhos. Materializados em pequenas xícaras de porcelana. Os sheiks, príncipes e reis talvez tenham sido um pouco diferentes do que eu um dia imaginara. Quem sabe padres ou amigas beatas que iam a congressos eucarísticos, visitavam Aparecida ou festejavam o centenário de emancipação de São Paulo ou do Instituto Brasileiro do Café. Mas, a magia colorida estava toda ali. Um mundo de belezas visto por uma mulher que sabia apreciar a vida! Obrigada, Uadia, por me abrir as portas da fantasia.

SKÁRMETA, MAGIA E SINCRONICIDADE

Em uma palestra, num evento de literatura, o chileno Antonio Skármeta contou como descobriu que seria escritor. Criança, vivendo com a família em Buenos Aires, a timidez e uns quilos a mais o deixavam escanteado dos coleguinhas e especialmente das meninas da escola. Porém, a habilidade para declamar, descoberta por acaso, rapidamente o tornara o queridinho das mamães nas festinhas de cumpleaños. A novidade dos holofotes agradou o menino, que cada vez mais se dedicou a ensaiar os versos e lapidar o talento.

Por volta dos oito anos de idade, conheceu El Gaucho Martin Fierro, o clássico de José Hernandez, obrigatório no currículo das escolas argentinas. Foi arrebatador! A paixão à primeira leitura pela intensidade do gaúcho foi determinante para que o jovem Skármeta decidisse que era aquilo o que queria fazer de sua vida. “Queria escrever. E queria escrever como Hernandez”, contou.

A graça e a simpatia da narrativa e da figura no palco me deixavam, na plateia, cada vez mais animada com possibilidade de entregar ao autor de O Carteiro e o Poeta, um exemplar recém-tirado do forno da tradução bilíngue de El Gaucho Martin Fierro feita por meu pai, Ciro França, e editada postumamente. Antes mesmo de acabar a fala de Skármeta, eu corria para o carro buscar no porta-malas um exemplar do livro. Pensava comigo, “que eu tenha a sorte dele ainda estar no camarim”.

No caminho, a organizadora do evento me faz um pedido: se eu poderia levar o escritor para jantar. A oportunidade ideal se apresentava. Com receio de entregar o livro e não ter mais nada a dizer, resolvo ligar para o escritor israelense Ioram Melcer, que eu havia ciceroneado nos dias anteriores. Fluente em nove idiomas, seria a companhia ideal para segurar o papo em espanhol o resto da noite. Já deitado no hotel, Ioram aceita jantar conosco, mesmo tendo de acordar muito cedo na manhã seguinte para retornar a Jerusalém.

Apresento-me a Skármeta e entrego o livro, meio sem jeito. A reação dele foi uma delícia! “Você sabia que eu ia falar aquilo?”, me pergunta. Eu respondo que não e comento que havia lançado o livro há pouco, por isso tinha alguns exemplares no carro. “Que mágico!”, exclama ele encantado. Eu explodindo de alegria, e ele a repetir “que mágico!” tiramos algumas fotos e partimos juntos. Aviso que vou buscar um amigo, falo que é um escritor de Jerusalém e conversamos um pouco sobre Curitiba.

Abro a porta para Ioram, que se senta no banco de trás e cumprimenta o chileno em castelhano. Feitas as devidas apresentações, meu amigo comenta: “você sabia que traduzi mais de seis livros seus para o hebraico?”. Sem acreditar nas coincidências, pensando se tratar de um grande combinado, Skármeta repetia “que noche mágica!”.

A MULETOS

Já me disseram que eu sou “uma mulher que guarda segredos em relicários coloridos”. Adoro esta descrição. Herdei a mania de guardar coisas, preferencialmente em caixas. Muitas e coloridas caixinhas. Muitas coisas – hierarquicamente valoradas conforme um critério íntimo demais para ser revelado. Na minha ordem particular, guardanapos e caixinhas de fósforo são tão valiosos quanto joias de ouro e brilhantes.

Há preciosidades unânimes, é claro. Uma delas é uma elegante caderneta com capa de couro, frisos internos em ouro, bisagra (aquela parte flexível que une as páginas e as capas duras de uma brochura) em tecido, páginas quadriculadas e recortes de jornal antigo milimetricamente colados. São 12 cartas publicadas em jornal nos primeiros anos do século 20 por meu bisavô Serafim França para minha bisavó Olimpya Junqueira, Yayá. Durante um ano ele a cortejou por cartas.

Funcionou! Casaram-se e tiveram como único filho meu avô paterno, Álvaro Luiz Junqueira França, em julho de 1915. A caderneta faz parte de um acervo de objetos familiares e, de vez em quando, líamos uma ou outra das cartinhas para rir do vocabulário rocambolesco do século passado. Hoje, percebi na última página um vaticínio: “E um dia quando, no futuro, eu revolver os amuletos murchos que carinhosamente guardo como fibras do coração, hei de encontrar, com os olhos humidos de saudade viva e scintillante a lembrança da figurinha gentil...” escreveu o Serafim, certamente sem supor que seus tataranetos iriam ter em mãos o guardado.
Pois não é que percebo na badana da contracapa um pequeno e imperceptível bolso e, ao abrir, encontro um ramo de flores murchas, certamente trocado entre os namorados há mais de cem anos! Os ‘amuletos murchos’. O ramo de flores está ali, inteiro. Um fóssil centenário testemunha de uma história de amor. Pelo meu escore, tão valioso quanto a própria caderneta.

Infelizmente não tenho a data exata das publicações. Devem ter sido escritas entre 1912 e 1914 e são um retrato fiel da sociedade curitibana de então. Em cada carta, Serafim narra um pouco da vida cotidiana, à época, algo mundano demais para moças de fino trato, como Yayá. Embora já naquele tempo meu bisavô pensasse que “o patrimonio lyricu de polidez viesse desbotando atravez da volubilidade dos costumes”, como diz numa das cartinhas.

Ainda assim, contou à ela sobre como se faziam as notícias. O que, a não ser pela invasão da tecnologia em substituição às tesouras e tipos, segue exatamente igual. “Tu não ouviste falar ainda, minha inteligente amiguinha, sobre o interior de uma redacção de jornal? Pois olha é thema de muita verve para um folhetim hilariante. Imaginas tu o que é nossa redacção, por exemplo, não num dia de plethora de correspondências, mas num dia normal, pacífico, falho completamente de sensações. Na sala de trabalho todos bocejam, uns de olhar ao tecto, como a procurar nos bazares da phantasia alguma cousa attrahente; outros de thesoura a colher numa gula tantálica, aos jornaes recentes, algo de emocional para transcrever. E neste momento a thesoura assume o seu papel preponderante. A um canto o typographo impaciente de relógio em punho, reclama matéria para composição. O redactor, ante das aparas brancas e frias, estremece estéril pela exiguidade dos factos.”

E como “nem convinha à compostura educada e fina baixar ao mister tão plebeu de, por exemplo, ir ao mercado”, descreveu uma manhã no Mercado Municipal. “Parece uma colmeia barulhenta e multicor, num reboliço constante. Nelle tudo papagueia, tudo ri, tudo se movimenta. Uma vendedora de hortaliças questiona, outra tagarela e finta. Os magarefes, açodados pela freguesia, vão com as afiadas lâminas retalhando a carne, piscando para as criaditas alvissareiras. E os maganões têm amabilidades calculadas e velhacas, – para as bonitinhas e acessíveis – um pezo magnifico de lombo e um madrigal; para as feias e velhotas – um osso e uma estupidez.”

E segue galante, esquentando o flerte, a contar que “um soldadinho empertigado e ‘conquerant’ ri a socapa para uma polaquinha trefega. Esta disfarça, esquiva-se, finge pressa e d’ahi a pouco chega-se, ferram numa prosa que atravessa horas...a patroa em casa si quizer que faça o café”, diverte-se.

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