Um doutor das gerais em Porto União da Vitória

Antes de tudo, um mineiro. Ontologicamente mineiro. Antologicamente, também. Da mais pura extração ouro-pretana, embora Belo Horizonte. Lauro Miller Soares, magro, cabelos pretos, de estatura mais para alta que média, olhar permanentemente distraído, sempre estava onde não estava, feição pensativa, no rosto uma promessa de sorriso e um cigarro no canto da boca (aceso ou apagado, mero detalhe). Seu bisavô, José Bento Soares, capitão-mor em Vila Rica, amigo Del Rey e construtor do que é hoje o Museu da Inconfidência. Família numerosa, mãe viúva, filho mais moço, irmãos médicos, altera a idade para ingressar na Faculdade de Medicina. Aluno brilhante, vai trabalhar com Dr. Júlio Soares, parente de longe, cunhado de Juscelino Kubitschek, personagem de Pedro Nava (“exemplar no procedimento técnico e na conduta ética… com ele se aprendia tanto de Ciência quanto de Decência”) – glória da medicina mineira. Futurosidade segura e promissora. Mas telegrama aflito da irmã pede socorro: “Venha urgente, Mourão preso”.

Que teria aprontado Mourão com aquele seu gênio arrebatado que discutia em latim e cantava óperas italianas? A advertência de Milton Campos – “cuidado com valentia de gaúcho, riqueza de paulista e latim de mineiro” – para ele não valia. O do Mourão vinha com certificado de origem: era do Caraça. Nava registra que a inteligência e o latim da família Mourão eram proverbiais e celebrados na conhecida glosa:

Rabelo, Pires, Mourão:

Plenamente ou distinção.

Dr. Lauro segue, sem a Nieta, para Porto União (onde era mesmo?) para livrar o cunhado promotor público, preso por arroubos integralistas, como o irmão, o folclórico Olympio, general que muitos anos mais tarde saiu na frente para depor João Goulart e dar no que deu.

Inútil. Só o interventor Nereu Ramos poderia resolver. Segue a Florianópolis. Dois dias depois é recebido; amor à primeira vista. O interventor não deixa por menos: “Seu cunhado fica livre, mas o senhor fica prefeito”. Ficou. Por quase vinte anos. E depois de 1946 pelo PSD, é claro. E o PSD mineiro teve, assim, sua primeira agência estrangeira. Mas que chatice (coisa-pau, dizia ele) a administração pública: carimbos, papéis, trâmites, nada a opor, pelo deferimento, pague-se, para informar, autorizar, cumpra-se, e, no seu caso, principalmente o desagradabilíssimo indeferido. Estava inaugurado em Porto União – quarenta anos antes do neoliberalismo – o Estado mínimo. Durante todas as suas gestões (?) não foi à Prefeitura mais de dez vezes e seis delas para assumir e para transmitir o cargo.

Seu caso era mesmo com a medicina. Constrói o São Brás, hospital que atendia o norte catarinense, o sul e o sudoeste paranaense que terminava em Marrecas. A política, apenas uma inevitável consequência. Um pretexto para a convivialidade, esta sim lhe agradava. E a administração? E os despachos? Ah, esses eram colhidos e extraídos no consultório, no hospital, no carro, na rua, no Café do Izaltino, nos campos de futebol. Já os urgentes urgentíssimos, na sala de operações, em meio a uma exploração abdominal, entre uma incisão e outra, ou, se inevitável, concomitantemente. A sala logo se transforma em anfiteatro galênico; só que de leigos. Recebia diariamente uma fiel e grande assistência: amigos, correligionários, curiosos, funcionários da Prefeitura, parentes de operados, contribuintes e alguns aflitos para o aval inadiável. Na ausência da Saní improvisa-se o Juca do Tempo nas artes anestesiológicas. Meteorologista do Ministério da Agricultura, é verdade, nunca acertara uma previsão, mas adestradíssimo nas doses de clorofórmio. Infecção hospitalar? Nem pensar. Todos saíam vivos e alguns redivivos. Estatisticamente, um vitorioso. Fazia milagres com seu talento e imperturbável serenidade. Chegou a operar à luz de velas. Farah Saliba Neto é testemunha. Pouquíssimas baixas.

Logo, com justa razão, tornou-se figura lendária: Palmas, Biturana, Covó, Porto Vitória, Cruz Machado, União da Vitória, Porto União, Matos Costa, Valões, General Carneiro, Mallet, Paulo Frontin, Paula Freitas, todos a cantar seus feitos. Resistia bravamente ao culto: sua espantosa modéstia não deixava a mínima porosidade para infiltração de orgulho ou presunção.

Sabia os segredos de meia-cidade (inclusive aqueles) mas, discretíssimo, não os compartilhava com ninguém. Era o confessor laico de todos os angustiados explícitos e pecadores ocultos. Não distinguia entre papéis públicos e privados. Com frequência suas receitas iam parar na Prefeitura e os despachos administrativos na Farmácia do Willy Yung, o único autorizado (até porque o único habilitado) a decodificar sua letra (?).

Inauguração da Rádio Colméia (primeira emissora de Porto União, festa em União da Vitória, como era dos usos e costumes do saudável hibridismo local). Cine Luz lotado. Padrinho da Rádio, escrevera o discurso a mão. Após a saudação, mutismo completo, silêncio sepulcral, não entendia o que escreveu; nem a primeira frase! E a plateia em pânico com o desconforto e aflição do orador gritava uníssona: “Chama o Willy Yung! Chama o Willy Yung!”

De uma boa-fé obscena não lia nenhum papel, nenhum processo, nenhum documento e assinava, sem hesitar, onde lhe indicassem. Assinou sua renúncia, logo estrepitosamente anunciada pela cidade, perplexa com o tresloucado gesto (teria sido o Azevedo Trilha ou o Jorge Cury?). Em seguida um Decreto distribuindo canetas Parker 51 – grande fetiche da época – para todos os alunos do município, provocando grande multidão à sua porta (Michel Guérios?).

Porto União e União da Vitória era (sic) uma cidade singular, com sua infindável galeria de tipos e histórias sem fim, onde se misturavam coisas vistas e ouvidas. Mentiras verdadeiras e verdades mentirosas. Jatahy – agrônomo sem colheitas – e seu Jeep sempre na descida para pegar o arranque – nunca lhe ocorreu trocar a bateria; o Wilkis Correia, cuja morte anunciada foi obra de Baco, não de Tanatos; Dario Bettega que alugava um avião para percorrer 19 quilômetros, sobrevoar a serraria e lançar o bilhete suplicante: “aumentem a produção negrada”; o Arnaldo que inventou uma complexíssima máquina de descascar banana – a operação levava 20 minutos – furioso porque em São Paulo ninguém lhe comprou o invento; o Ernani, funcionário do Serviço de Combate à Febre Amarela – num raio de 300 quilômetros nunca se soube de um caso nos últimos 120 anos – e que trabalhava conforme a doença aumentava; o Elias Niman, eleito Rei Momo, exigindo tratamento majestático, nunca mais aceitou retornar à condição plebeia; o Jair Marchetti, veterinário que, a pedido, deu uma injeção cavalar (literalmente) no sexagenário Laubenbacher, provocando o mais prolongado e doloroso priapismo da crônica médica (filas para transfusão); o Trilha, que a mulher supunha em retiro espiritual, aparecendo na capa da Manchete com vinte mulheres no carnaval do Hotel Glória; o Hermann inaugurando triunfalmente sua casa de banho turco (“Faz coisas que nem eu acredito”, dizia o reclame). Na demonstração, queimadura de terceiro grau, encerrando assim a orientalização da cidade; o Ernesto, chofer de praça, nas retas uma lentidão quelônica, nas curvas insanamente veloz, característica que afugentava eventuais usuários, menos, é claro, o solidário Dr. Lauro, que com ele afundou numa volta do Rio Iguaçu; o general Moreira, bravo comandante do 5º Batalhão de Engenharia que detestava armas de fogo. No Sete de Setembro desfilava com revólver da Estrela. A babélica Porto União da Vitória com seus alemães, italianos, ucranianos, polacos, arabizada com os Cury, Yared, Domit, Farah, Guérios, Mansur, Abdalla, de iguarias sempre natalinas. E tantíssimos outros!, cidade fabulosa e fabulista com seus mil personagens em busca de autores. Apenas um retrato na parede; mas como dói.

Pois o doutor Lauro Soares, prefeito de Porto União, Santa Catarina, emprestou (negar lhe era impossível) uma ruidosa e valente Caterpillar – único do município – para o intendente de Passo da Galinha, no Paraná, que por sua vez cedeu a máquina ao prefeito de Palmas, que passou ao de Pato Branco e esta foi sua última pista.

Ecoou a eterna vigilância da UDN na Câmara de Vereadores. Ameaça de impeachment, de comissão de inquérito, de convocação, mobiliza-se todo o arsenal guerreiro da oposição. Encontra o líder da UDN no Izaltino e naquele seu jeito tão mineiramente sutil confessa: “Ocê precisa achar essa máquina; ando doido atrás dela”. Seu amineiramento era irresistível.

Alívio geral, o Clínio Teixeira, prefeito de Barracão, repassara a motoniveladora para o prefeito argentino, seu vizinho internacional, uma simpatia de sujeito, seria preciso outras explicações? Mais nove ou quinze nivelamentos e afinal o retorno da máquina, agora binacional, festejada por todos, do ardiloso PSD à belicosa UDN.

Tinha finíssimo senso de humor. Reconstruíra, como prefeito, o Estádio Municipal e para reforçar o orçamento estavam à venda espaços para publicidade no muro que o cercava. Flamenguista patológico compra ele mesmo um espaço e manda escrever: “Mengo, tu é o maior”. Seu sucessor na prefeitura, eleito mas não empossado, homem de muitas virtudes e sabidamente de poucas letras, timidamente faz-lhe o reparo: “Doutor, desculpe, mas deveria ser ‘Mengo, tu és o maior”. Não se conteve: “A tragédia do ignorante é que mesmo quando acerta, erra”.

Foi nesta mesma tarde de domingo (seria 1953?) com Estádio repleto para ver o Juventus (glória municipal) e Olaria, de Ananias e Maxwell (o Carlos Alberto Pessôa é capaz de saber a escalação de ambos), quando, agitadíssimos, espremidos no alto da arquibancada, ouvimos a voz grave, de acento tedesco, de Frei Libório, nosso professor, gritando lá de baixo em meio à balbúrdia de início de jogo: “Meninos! Não esqueçam! Juventus, juventutis, terceira declinação!” O Walmor Feijó respondendo de pronto: “coitus interruptus! Quarta declinação!” Era mesmo o caso.

Grandes homens são reconhecidos pela capacidade que têm de perder tempo com os pequenos, de se ocupar deles e com eles. Pois era assim: capaz de ouvir com bíblica paciência o desfile dos humildes e ofendidos. Não hierarquizava os homens. Dr. Lauro Soares tinha horror às celebrações em torno dele. De tolerância infinita, sempre arredondava os defeitos alheios. Fugia da celebridade incômoda. Despojamento quase trapista. Conventual, vivia com o que as freiras da congregação conseguiam cobrar.

Era homem dos entretons, das alusões, do claro-escuro. Dispensava os enfeites e acessórios. As aparências não lhe seduziam. Coisa pouca mas de lei, como aprendeu nas Alterosas. Em quase tudo coincidia com a descrição de Guimarães Rosa: a astúcia meandrosa, a cordialidade universal, a sabença de que a vida é feita de encoberto e de imprevisto. Polido e urbano, só não era homem de alma encapotada, como o mineiro de Rosa.

Quando a travessia já se fazia mais ou menos longa, torna-se deputado no Paraná e depois vice-prefeito de Tancredo Benghi, em União da Vitória, tão opostos e, às vezes, tão iguais. É a fase de sua mais acentuada paranização.

Mas o governador de Santa Catarina nomeia-o Conselheiro do Tribunal de Contas. Nomeação não tão amena como se pode supor. Uma batalha. Não política ou judiciária, mas documental. Como conseguir sua documentação? Afinal, já perdera um trator, que dizer de documentos! Em se tratando dele exigência absolutamente descabida. Após longa peregrinação, seu fraterno amigo, deputado Zany Gonzaga, afinal reúne os documentos necessários. Agora é só assumir. Nunca foi. Não eram para Lauro Soares as pompas do mundo.

 

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