A rebelião dos humilhados e oprimidos

De forma surpreendente para economistas, intelectuais de meia extração da esquerda, e mais ainda para os governos de direita, esses de corte neoliberal que imaginam que podem enganar a todos o tempo todo, o povo decidiu voltar à cena. Em grande performance. As cenas de multidões enfurecidas contra governos ineptos são suficientes para entender que partidos de direita e suas elites não ouvem as ruas e isso terá um preço. Se não aceitarem que a prioridade é lidar de forma urgente com a desigualdade social, o que está em jogo não é apenas sua permanência no poder.

No Chile, ininterruptos protestos incendiaram o país. O presidente Sebastián Piñera finalmente entendeu que o Chile estava diante de uma explosão social sem precedentes – e se rendeu. Da mesma forma que o capitão Bolsonaro, o bilionário chileno não enxerga a questão social e a pobreza, e achou que poderia resolver a crise com a velha e brutal fórmula repressiva das elites sul-americanas: estado de emergência, toque de recolher e tropas do Exército nas ruas. A um passo de consumar um novo golpe. Era tarde. Seu governo a esta altura já perdera o controle da situação, que passou ao comando dos manifestantes organizados numa ampla frente de lutas e mudanças políticas e sociais.

A repressão não intimidou os manifestantes. Centenas de milhares de chilenos foram às ruas em Santiago cantando e levantando bandeiras em passeatas, criando um clima de convulsão social que se alastrou pelo país, como não se via desde o desmantelamento da ditadura de Pinochet, no fim dos anos 80.

Os protestos expuseram o profundo sentimento de revolta com o modelo desigual que exclui a grande maioria da população dos benefícios do desenvolvimento econômico das últimas décadas. Ao contrário do que propalaram, o Chile não era um oásis de desenvolvimento e paz social, um modelo de reformas liberais na América Latina. Crises semelhantes sacudiram recentemente o Peru e o Equador. Em profunda recessão, com uma inflação de 55% ao ano, a Argentina encerrou o sombrio governo do liberal Mauricio Macri, devolvendo o poder ao peronistas.

Há esperanças. O vento de liberdade e protestos corre o mundo. Em Quito, Londres, Barcelona, Beirute, Hong Kong, Santiago e até mesmo Bagdá e Argel a massa de humilhados e ofendidos tomou as ruas, depredou e ameaçou derrubar governos que não conseguem ou não querem atender as suas reivindicações.

Nada une essas cidades pelo mundo. Suas populações vivem realidades sociais radicalmente diferentes. São governadas por partidos de ideologias políticas das mais variadas e cada qual conta com uma história única. Mas algo nas últimas semanas aproximou povos de forma surpreendente: a ira de suas populações contra as autoridades.

Em Santiago, foi o preço do transporte que levou os estudantes a bloquear o maior sistema de metrô da América do Sul, obrigando o governo a declarar “estado de emergência”. Em Beirute, uma taxa sobre o WhatsApp transbordou o copo de uma sociedade empobrecida e com 40% de seus jovens sem trabalho.

Revolta no Equador

Em Barcelona, o movimento independentista aglutinou parte dos cidadãos enfurecidos diante do colapso da ilusão de crescimento e do sentimento de traição de um acordo de autonomia cuidadosamente negociado.

Em Londres, milhares protestaram pela cidade por conta da indefinição sobre o destino do país e do Brexit. Ao tentar sair do prêmio do Parlamento mais tradicional da Europa, deputados tiveram de ser escoltados pela polícia diante da fúria popular.

No Iraque, centenas tomaram as ruas – e morreram – para protestar contra a falácia da democracia num país que, quase duas décadas depois de retirar um ditador sanguinário, ainda não conseguiu encontrar seu destino. Em Argel, a queda do governo de Abdelaziz Bouteflika não foi suficiente para acalmar uma população esgotada.

E, em Hong Kong, o que começou como um protesto contra a ingerência chinesa se transformou num ato de força de uma população que não quer perder seus direitos.

Em todas, o que ficou claro foi a insatisfação popular diante do fracasso de governos pouco preocupados com o drama social. Abusados em suas inteligências, sofrendo para pagar suas contas e fartos de uma elite que insiste em não reconhecer a disparidade de renda cada vez maior na sociedade, o povo voltou a cena tomado por certo desespero diante da crise que se agrava.

Pelas ruas de Quito, Beirute ou Argel, os cartazes se parecem. Palavras como “traidores”, “democracia” e “poder popular” ganham espaço em diferentes línguas, em diferentes formas. Certamente, alguém virá para alertar: não há como comparar Lenín Moreno a Boris Johnson. Claro que não. Também existirão aqueles que alertarão sobre o risco de esses movimentos estarem sendo manipulados pela oposição ou por grupos que estariam interessados em promover a instabilidade social.

Num recente informe, o Fórum Econômico Mundial alertou: a crise econômica que eclodiu em 2008 continua a gerar um impacto negativo, minando as bases da sociedade. Não se trata de uma entidade que quer derrubar o capitalismo. Muito pelo contrário. Mas a realidade é que até mesmo os organizadores de Davos, a Meca do sistema financeiro, entenderam que os 10 trilhões de dólares jogados pelos bancos centrais às economias para socorrê-las da crise na última década não funcionaram.

Melhor dizendo: não funcionaram para uma parcela da população, que foi obrigada a viver com menos, trabalhar mais e reajustar até mesmo seus sonhos. Certamente aberrações como a das contas gregas precisavam passar por uma reforma. Mas quem pagou por elas? Para sociedades em diferentes partes do mundo, o que se viu foi o estabelecimento de uma década perdida, enquanto a concentração de renda ganhou um novo patamar até hoje inédito.

O exército de desempregados transformou a vida de famílias inteiras, levou a um aumento do suicídio, viu a volta de doenças que tinham desaparecido e até reduziu as expectativas de vida em alguns locais. Uma década depois, os bancos têm seu futuro assegurado. Mas não a renda de milhões de famílias. E, não por acaso, isso tudo se traduziu em um novo comportamento político e social.

No fundo, o capitalismo foi salvo. Mas não necessariamente as sociedades. Em cada local do mundo, tal crise foi lentamente traduzida de forma diferente nas ruas, nas urnas. Mas um elemento as une: a fúria. Em seu mais recente livro, Rage Becomes Her, a escritora Soraya Chemaly questiona o argumento de que a raiva seja irracional. Para ela, essa ira é, no fundo, o idioma da Justiça. Em sua obra, ela trata de como a desigualdade encarada pelas mulheres começa no nascimento e as acompanha até a morte.

Extrapolando essa avaliação, não seria exatamente esse o sentimento de milhões de marginalizados da sociedade ao entender que seus sonhos serão apenas sonhos? O próprio Fórum de Davos constatou que, hoje, para a camada mais pobre dos brasileiros ou colombianos chegar a ter uma renda média de seus respectivos países, terão de esperar de oito a nove gerações.

Mesmo em alguns locais da Europa, com sua ampla rede social, os mais pobres também terão de esperar quatro ou cinco gerações para serem considerados como classe média. Como não desesperar? Neste ano, metade da sociedade britânica hoje se diz enfurecida contra pessoas que votaram por partidos opostos ao nosso. Um terço dos entrevistados confessa sentir ódio. A mesma pesquisa concluiu que um em cada cinco britânicos poderia considerar a possibilidade de uma revolução.

O contexto de nossos dias nos põe diante de uma sociedade com medo e com raiva. E suas conclusões são explícitas: sim, tal situação tem um impacto direto nas escolhas políticas de um país. Ignorar a raiva e não entender o medo deixam os governantes cegos. Quem não está cego é o movimento popular. A horda bruta, libertária, enfurecida, voltou às ruas, deixando boquiabertos partidos de todas as cataduras. Inclusive os da esquerda, que viveram as últimas décadas em sua medíocre vidinha eleitoral.

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