Baixo clero no poder

Não há exemplo mais significativo na vida brasileira de baixo clero do que a trajetória que precedeu a eleição de Jair Bolsonaro. Ocorre que classificá-lo dessa forma como por sua longa carreira parlamentar leva-nos também ao raciocínio de que não eram bem postados os tidos como do alto clero, como Aécio Neves e José Serra, ex candidatos presidenciais desmistificados, como tantos outros assim classificáveis, pela Lava Jato.

E é na analogia desses valores, mais o tsunami eleitoral, que se explica a opção havida pela direita assumida, também um fato novo na vida brasileira, minada pela dissimulação desde quando sumiu do espaço a força do integralismo que tinha uma concepção de democracia orgânica centrada nas corporações de ofício da Idade Média e de um nacionalismo militante e que chegava até à literatura com o verde-amarelismo de Plinio Salgado. O forte como tradução prática dos galinhas verdes, como o apodavam os adversários, era uma tradução corporativa capaz, santa ingenuidade, de vacinar-se contra a luta de classes.

Durante longo tempo, em função das sequelas do Golpe Militar, os próprios soldados se impuseram a uma espécie de silêncio obsequioso, enquanto as narrativas das torturas e dos assassinatos eram lembradas nas comissões da verdade e de anistia. E nesse entretempo a discrição militar permitiu que as forças armadas aparecessem nas pesquisas como a instituição de maior prestígio e expressão aos brasileiros. Um dos cuidados foi tirar do ar a celebração de 1964 como, aliás, se dera com a da intentona comunista de 1935.

No empenho em colocar bem os militares, Bolsonaro foi longe demais citando torturadores como heróis, algo que as forças armadas como instituição não fariam ainda que não negassem o papel exercido nos momentos de confrontos, aqueles que Geisel se referiu como radicais, mas sinceros. A presença de militares, desde a figura do vice-presidente, no governo os recoloca como atores relevantes da vida nacional e numa escalada impressionante como uma resposta aos tempos do “silêncio obsequioso” a que se viram obrigados.

As investidas autoritárias estão sendo metabolizadas e combatidas pelas instituições pelo menos até agora. O feito a ser considerado será no plano da economia e intervenções, de cunho liberal, a que não estamos habituados, poderão colocar bem o governo na questão mais urgente, a de destravar o mercado, tal qual a mediação de FHC do plano real, até hoje expondo seus benefícios contra a inflação.

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